Nunca poderemos ter segurança aérea total

Charles Hawley

As recentes falhas de segurança em aeroportos, tais como o incidente no Aeroporto de Munique na quarta-feira (20), deixaram as autoridades nos dois lados do Atlântico pensando em como melhorar. Há um perigo, contudo, de levar as coisas longe demais, dizem os comentadores alemães. De fato, um excesso de revistas de segurança pode terminar por paralisar a viagem aérea como um todo.
  • Reuters

    Passageiros passam pelo sistema de segurança do Aeroporto de Munique depois que uma ala foi fechada na quarta-feira por conta de um passageiro, que fugiu de vistoria

Não levou muito tempo para o debate sobre a segurança em aeroportos atingir os mais altos escalões do governo alemão. Na quarta-feira, uma importante falha de segurança no aeroporto internacional de Munique resultou no fechamento de um terminal e no cancelamento de 33 voos. Na quinta-feira, o Ministro do Interior alemão, Thomas de Maizière, disse que ia estudar o ocorrido e reforçar a segurança do aeroporto, caso necessário.

Ele não foi o único. Em uma reunião dos ministros do interior da UE, junto com a secretária de segurança interna dos EUA, Janet Napolitano, em Toledo, Espanha, na quinta-feira, a União Europeia e os EUA concordaram em melhorar o compartilhamento de dados dos passageiros. O acordo foi uma resposta ao ataque terrorista do dia de Natal a um voo de Amsterdã a Detroit. Além disso, as autoridades reunidas concordaram a trabalhar juntas para empregar melhores tecnologias de revista.

A Comissão Europeia está atualmente avaliando a possibilidade de introduzir scanners de corpo inteiro em aeroportos do bloco de 27 membros. Napolitano disse na quinta-feira que os scanners "não são um fator decisivo nem essencial para garantir a segurança", mas acrescentou que os EUA planejam colocar mais 450 scanners em operação nos aeroportos por todo o país neste ano.

As preocupações são altas na Alemanha após o incidente da quarta-feira em Munique. Durante uma revista de segurança de rotina, um laptop acionou um alarme para a possibilidade de explosivos. Os agentes no local, contudo, não conseguiram deter o sujeito antes de ele pegar seu laptop e desaparecer na multidão. Vários minutos se passaram antes da polícia ser notificada, e o homem não foi encontrado.

Muitos presumem que o sujeito, que usava terno e gravata, era meramente um empresário com pressa para pegar seu voo e não escutou o alarme. Ainda assim, o incidente levantou importantes questões sobre a eficácia das revistas de segurança.

Os jornais alemães estudaram de perto a segurança nos aeroportos na sexta-feira.

O jornal empresarial "Handelsblatt" escreve:

"A reação (às falhas de segurança) é sempre igual. Imediatamente, especialistas e políticos exigem uma intensificação de medidas de segurança. Esse reflexo é compreensível. Todos nós gostaríamos de pensar que estamos seguros quando voamos. Não surpreende que os responsáveis cedam sob essa enorme pressão. Mas esse tipo de reposta ao perigo, motivada pelo desejo que os outros vejam que os responsáveis estão fazendo algo, pode se tornar um perigo em si mesma."

"Há dois enganos fundamentais que caracterizam o atual debate sobre a segurança aérea. O primeiro é a crença que, quanto mais intensamente se revista os passageiros, maior a segurança. A debilidade dessa premissa é evidente quando se olha para as atividades normais que ocorrem em um aeroporto. Os passageiros são apenas uma parte das pessoas ali dentro. O resto são pessoas que esperam alguém fora da área de segurança ou que apenas querem fazer algumas compras, e também representam um risco de segurança."

"O segundo engano é que podemos chegar perto de 100% de segurança. Parece legal, mas está muito longe da realidade. Temos que nos acostumar com a ideia que nunca poderemos ter segurança completa no que concerne a viagem aérea. A não ser, é claro, que paremos de voar. E é exatamente isso que muitos clientes de companhias aéreas farão se a busca constante por mais segurança fugir ao controle."

O "Frankfurter Allgemeine Zeitung", de direita, escreve:

"Como pode uma pessoa sair andando calmamente da área de segurança do segundo maior aeroporto da Alemanha com uma bagagem de mão suspeita sob o braço e desaparecer sem deixar vestígios? E como é possível que o sujeito, que paralisou o aeroporto de Munique por horas, ainda não tivesse sido identificado no dia seguinte, apesar de haver imagens de vídeo do incidente no portão de segurança?"

"Apesar do caso em Munique de fato parecer que era um empresário inofensivo, sua fuga é praticamente um convite aos criminosos tentarem fazer o mesmo. Não foi apenas um agente de segurança que falhou -toda uma série de medidas de segurança foram ineficazes... a situação no aeroporto de Munique agora precisa ser fortemente revista."

O "Süddeutsche Zeitung", de centro esquerda, escreve:

"O que vem acontecendo em aeroportos internacionais há anos não é nada além de teatro. Puro simbolismo. Uma representação de falsa segurança. As pessoas tiram os sapatos e revelam buracos em suas meias. Deixam seu alicate de unha e apresentam uma sacola plástica com a poção contra a perda de cabelo que passam na cabeça. Já estão se desnudando mesmo sem os scanners."

"E os agentes de segurança se cansam diante de milhares de viajantes inofensivos que abrem seus laptops com ar de enfado. Estão cansados da enésima garrafa de refrigerante que são obrigados a tirar de alguma criança. E irritados em ter que rejeitar um tubo de pasta de dentes quase vazio, apenas porque o volume é maior do que 100 ml. A segurança atual está perdida em meio à massa inofensiva, e o pessoal da segurança acaba perdendo seu sentido de urgência. Fica desgastado pela rotina. Verificar os passageiros tornou-se um negócio industrial. Todos os dias milhares deles passam pelos aeroportos. Mesmo que os agentes de segurança fossem extremamente bem treinados e bem pagos, em algum ponto perderiam sua concentração."

"Não é possível ficar aumentando o número de revistas -no final, os aeroportos simplesmente teriam que ser paralisados. Contudo, a segurança deve se tornar mais inteligente. Afinal, não é sobre objetos potencialmente perigosos -há suficientes desses por trás das barreiras de segurança. É sobre pessoas perigosas, tais como o nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, acusado de tentar explodir um avião sobre Detroit no dia de Natal. O homem era um simpatizante terrorista conhecido, seu próprio pai havia advertido a embaixada americana sobre o filho e ainda assim ele pôde embarcar em um avião para os EUA."

"A revista de segurança inteligente envolve identificar essas pessoas antes de voarem. Isso significa mudar de quantidade para qualidade. Ainda assim, ninguém ousa fazer isso, porque pensar diferente exige coragem. Se houvesse outro ataque, então essa coragem seria considerada irresponsabilidade."

Tradução: Deborah Weinberg

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