Roupas "verdes": sua camiseta é limpa?

Jess Smee
Spiegel Online

Com as modelos marchando pela passarela da Berlin Fashion Week e os "fashionistas" lotando a feira de moda-rua Bread & Butter, as próximas tendências são o assunto da cidade esta semana em Berlim. Mas, longe do brilho e do glamour, uma nova plataforma pede etiquetas de moda verdes, com uma consciência limpa.

Os hangares cavernosos do antigo Aeroporto Tempelhof, em Berlim, o maior edifício da Europa, estão mais uma vez fervilhantes. Esta semana, ritmos fortes, uivos de guitarras e o rumor animado do setor da moda enchem os espaços que antes ressoavam com hélices e motores. A Bread & Butter, uma feira comercial de roupa urbana, apresenta nomes globais como Adidas, Levi's e Bench, assim como muitas etiquetas novatas de toda a Europa.

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Do lado de fora, ônibus pretos reluzentes transportam os fashionistas por toda a cidade, levando-os para os desfiles brilhantes e festas de lançamento da Berlin Fashion Week. Mas das milhares de pessoas que verificam as últimas tendências somente algumas param para considerar onde e como as roupas foram feitas.

Isso é algo que Frans Prins, fundador do evento de moda verde TheKey.to, quer mudar. Em uma antiga e espaçosa padaria em um canto feio do bairro de Kreuzberg, ele criou um evento de três dias que tenta fazer perguntas geralmente esquecidas pelos grandes eventos de moda.

"Há muito tempo as pessoas sabem sobre o trabalho infantil e as oficinas semiescravas. Hoje existe uma consciência crescente sobre o uso de pesticidas na produção de algodão", disse Prins a "Spiegel Online". "As pessoas estão cada vez mais perguntando de onde vêm suas roupas."

A produção global de algodão é responsável por uma porcentagem significativa dos pesticidas e inseticidas usados em todo o mundo, ele disse. "E os produtos químicos que são usados no Sul muitas vezes foram proibidos na Europa há vários anos", ele acrescenta. "As consequências são que a água potável está contaminada e a terra é prejudicada."

A corrente dominante
Hoje em seu segundo ano, a TheKey.to abriga eventos de moda verde em rede, oficinas e palestras, incluindo uma de Renate Künast, chefe do Partido Verde alemão. Entre as 50 etiquetas mostradas no evento, menos da metade vem de fora da Alemanha. Seus organizadores esperam até 3.000 visitantes. É claro que ele é obscurecido por seus homólogos mais glamourosos, como a Fashion Week e a Bread & Butter, mas Prins afirma que o tema da moda verde tem uma influência crescente.

"Minha previsão é que será a corrente dominante. Mais marcas e etiquetas se tornarão verdes", ele disse. "No início as pessoas diziam que seria apenas uma temporada. Mas está aqui para ficar."

E há sinais de que as vestimentas orgânicas e de comércio justo entraram na tela do radar de muitas grandes firmas. H&M, Levi's e C&A estão na lista de grandes varejistas cujas araras incluem artigos de algodão orgânico.

Uma mudança gradual para o algodão orgânico também é evidente no fato de que ele costumava representar menos de 1% do algodão vendido em todo o mundo, enquanto hoje constitui cerca de 5%, disse Prins.

Armadilhas do sucesso
Na Alemanha, essa tendência acompanha a procura crescente por alimentos orgânicos, com um número cada vez maior de pessoas optando por pagar mais pela comida, tanto por preocupação com o meio ambiente quanto pelas possíveis implicações dos pesticidas para a saúde. Por trás da maior popularidade do algodão orgânico ou justo, também há uma crescente consciência das condições em que ele é produzido, incluindo preocupações sobre oficinas de trabalho semiescravo e pagamentos irrisórios, que mantêm os preços das roupas baixos nas grandes lojas.

Pesquisadores de mercado deram à tendência internacional o estranho rótulo de Lohas ("Lifestyle of health and sustainability" - estilo de vida de saúde e sustentabilidade). Um estudo do grupo de pesquisas de mercado GfK, baseado em Nuremberg, Alemanha, mostra que uma em cada quatro pessoas considera "muito importante" que uma camiseta ou um pulôver seja feito de maneira social e ambientalmente responsável. No entanto, não há números disponíveis para ver se essas pessoas estão realmente pagando mais por produtos produzidos de modo justo.

Mas o sucesso do algodão orgânico também tem suas armadilhas, sendo uma delas distinguir entre o que é realmente "moda verde" e o que é um marketing cuidadoso de firmas que querem uma fatia do mercado Lohas. Salientando esse perigo, o "Financial Times Deutschland" de sexta-feira trouxe a notícia de que as autoridades encontraram fardos de algodão rotulado como orgânico que, na verdade, vinha de plantações geneticamente modificadas, contrariando os padrões orgânicos. O jornal relatou que a H&M e a varejista alemã Tchibo estavam entre as afetadas.

Atualmente há vários códigos internacionais de algodão orgânico, incluindo o Fairtrade Certified Cotton e o Global Organic Textile Standard. No entanto, aumentando as complicações que enfrentam as aspirantes a Lohas, isto significa que o algodão em si é orgânico e feito de maneira justa, mas não garante as condições na fábrica onde a roupa é produzida.

Tendência desgastada?
Os que trabalham no evento de moda verde em Berlim tomam o cuidado de levar as coisas um passo de cada vez. "As coisas estão avançando. Este tema estará ainda mais em evidência daqui a dez anos", disse Prins.

E todo ano novos estilistas criativos adotam os princípios orgânicos e de comércio justo, ele acrescentou. Especialmente em Berlim, que tem um histórico de atrair artistas e estilistas de outros lugares devido à facilidade de se conseguir espaço para ateliês.

Mesmo do outro lado da cidade, na feira Bread & Butter, um número crescente de firmas exibe suas credenciais ecológicas. Os exibidores incluem a fábrica de calçados espanhola El Naturalista, que cria sapatos de materiais reciclados. Em outra parte da feira há um arco-íris de chapéus e bonés criados com restos de sofás escandinavos pela companhia finlandesa Costo.

Mas Anders Bengs, um dos fundadores da Costo, acha que a ideia da moda verde vai permanecer nas margens da indústria por enquanto. "Para nós reciclar faz sentido", ele disse. "Mas, olhando ao redor aqui, você vê muitas marcas importantes que consideram a moda verde uma nova maneira de vender seus artigos. Qualquer grande mudança vai demorar."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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