"Agora é preciso haver paz", diz presidente do Afeganistão

Susanne Koelbl e Ralf Neukirch

Em uma entrevista exclusiva, o presidente afegão, Hamid Karzai, 52, fala sobre perspectivas de reconciliação com o Taleban, da sua relação difícil com Washington e sobre o papel dos alemães no seu país após o mortífero bombardeio de setembro perto de Kunduz, que provocou diversas mortes de civis.

  • Der Spiegel

    O presidente afegão, Hamid Karzai, afirma que o retorno de lideranças do Taleban ao governo é essencial para garantir a normalidade das relações no país

Spiegel: Na Conferência do Afeganistão, em Londres, você – bem como outros participantes – falou de reconciliação com o Taleban. Você poderia se imaginar recebendo o mulá Omar com um tapete vermelho no palácio presidencial em Cabul?

Karzai: O mulá Omar é antes de tudo um afegão, e nós queremos que todos os afegãos retornem. O Afeganistão é um país democrático, mas é também um país muçulmano e o Taleban sabe disso. Se eles aceitarem a nossa constituição, esta será também a constituição deles. Nós receberemos de braços abertos todos os afegãos que retornarem ao país, com a pequena ressalva de que eles não podem fazer parte da Al Qaeda ou de redes terroristas.

Spiegel: A renúncia à Al Qaeda é um pré-requisito para a reconciliação ou isto é algo que poderá ocorrer como resultado de conversações?

Karzai: Rejeitar a Al Qaeda e redes terroristas é um pré-requisito absoluto. 

Spiegel: Você sugeriu que os líderes do Taleban deveriam ser removidos das listas de terroristas da Organização das Nações Unidas (ONU) para possibilitar que tivessem início negociações com eles. Mas por que a comunidade internacional permitiria que exatamente aquelas pessoas para cuja eliminação ela enviou soldados ao Afeganistão retornassem ao país?

Karzai: Porque a comunidade internacional não se livrou desses indivíduos. Agora é preciso haver paz! Este é um processo que a ONU tem que administrar. E nós determinaremos como envolver a ONU neste processo. Nós solicitamos que a ONU retirasse certos indivíduos da lista. Eles fizeram isso e nós somos gratos. Nós também pedimos que a organização removesse mais nomes, e sentimos que isto é bom para o processo de paz.

Spiegel: O que é necessário para o sucesso de um programa de reconciliação?

Karzai: Ele precisa ter dois componentes principais: reintegração e reconciliação. A reintegração é para os milhares de soldados talebans e garotos de vilarejos em nosso país que foram expulsos de suas casas – seja por meios justos ou pela intimidação, por mau comportamento por parte das forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ou das forças afegãs – e que não são ideologicamente contrários ao povo afegão nem à comunidade internacional. Eles têm que ser persuadidos a retornar por outros meios. 

E quem integra o segundo grupo?

Karzai: A seguir há a estrutura política do Taleban, que conta com o seu próprio ambiente de relacionamentos com o resto do mundo, bem como a questão da Al Qaeda e das redes terroristas. Os nossos vizinhos e a comunidade internacional vão se envolver nisso. Isso é algo que exigirá um esforço bem maior. 

Spiegel: Como é que se vai confiar em um membro do Taleban que concorda em romper a sua aliança com a Al Qaeda?

Karzai: Creio que só uma pequena fração do Taleban mantém realmente contato com a Al Qaeda. Mas, dentro da linha principal, o movimento inteiro – e até mesmo nos escalões superiores da estrutura de comando –, há pessoas que não conhecem a Al Qaeda, indivíduos que nunca viram Osama Bin Laden e que sequer entendem qual é o propósito da Al Qaeda.

Spiegel: O programa de reconciliação já existe há anos, mas até o momento ele não teve sucesso. Por que você de repente espera que ele agora tenha sucesso?

Karzai: A novidade é que a comunidade internacional agora entende como o programa de reconciliação é importante. E é também uma novidade o fato de Estados Unidos, Europa e Japão estarem dispostos a contribuir para isso, e nós contamos com o apoio dos nossos irmãos da Arábia Saudita. Nós esperamos que o rei Abdullah assuma pessoalmente um papel proeminente de liderança e apoio ao processo de paz.

Spiegel: A comunidade internacional, especialmente os seus protetores mais poderosos, os norte-americanos, apresentaram sérias denúncias contra você. Tais denúncias incluem má governança, corrupção e nepotismo. Essas alegações persistentes modificaram o seu relacionamento com o Ocidente?

Karzai: Alguns círculos políticos e da mídia nos Estados Unidos e no Reino Unidos estavam nitidamente ansiosos por me substituir por meios em sua maioria injustos, mas o povo afegão decidiu por algo diferente. Isso não modificou a nossa relação, mas me tornou mais sábio.

Spiegel: Você ainda mantém controle sobre o seu país?

Karzai: Há regiões que estão sob o controle do Taleban. Mas no local em que nos encontramos, somos fortes. Nós fornecemos serviços e damos ordens. E eu posso exonerar ou nomear quem me aprouver. A mesma imprensa ocidental que chamou-me de “Prefeito de Cabul” sem controle sobre o país de repente passou a dizer que sou um presidente extremamente poderoso que praticou fraudes eleitorais, que trapaceou nas votações e que mantém pessoas trabalhando para si no governo em todo o Afeganistão com o objetivo de roubar a eleição.

Spiegel: Que imagem você prefere – a de Prefeito de Cabul ou a de fraudador de eleições?

Karzai: Nenhuma das duas é verdadeira – nem a de Prefeito de Cabul nem a de fraudador de eleições. Somos um governo legítimo. Somos um país do Terceiro Mundo. Temos pobreza, guerra e poucas oportunidades educacionais. Padecemos de falta de capacidade e de dinheiro. Portanto, a maneira como funcionamos está de acordo com o ambiente que temos. E esta é a melhor descrição.

Spiegel: Desde então os Estados Unidos reconheceram a sua reeleição, e até mesmo o seu crítico mais conhecido, o Enviado Especial para o Afeganistão e o Paquistão, Richard Holbrooke, diz agora que está ansioso por trabalhar com o novo governo. Você ainda confia nele?

Karzai: Quando a guerra teve início em 2001, o povo afegão tinha expectativas tremendas. Naquela época, ele de fato acreditava que a chegada dos Estados Unidos e dos seus aliados traria paz ao Afeganistão. E ele cooperou com estes países, e o Taleban foi derrubado em apenas dois meses. É sob esta ótica que devemos ver a situação atual. O que ocorreu para fazer com que o povo afegão no sul do país permitisse que o Taleban retornasse às suas aldeias? Algo deve ter dado errado. Mas quem permitiu que coisas dessem errado? Será que isso foi culpa inteiramente do governo afegão e da liderança afegã? Ou teria sido culpa dos nossos parceiros?

 

Temos que ser realistas” 

 Spiegel: O que mudou desde que Barack Obama tomou posse?

Karzai: Com o presidente George W. Bush tínhamos uma relação bastante próxima. Havia um contato regular, falávamos sobre os problemas, tínhamos conversas francas e discutíamos as baixas civis e todas as outras questões. Os meus ministros participavam comigo das videoconferências que fazíamos com o governo Bush. 

Spiegel: A impressão que se tem é que você sente saudades do presidente Bush.

Karzai: O presidente Obama é o novo presidente norte-americano, e ele anunciou uma nova estratégia. Nós apoiamos a estratégia com a condição de que ela trouxesse segurança para o Afeganistão. Agora o povo norte-americano forneceu ao Afeganistão vários recursos, pelos quais somos gratos. Mas há questões que ainda esperamos que sejam resolvidas enquanto seguimos em frente.

Spiegel: No discurso que proferiu em West Point, dois meses atrás, o presidente Obama anunciou que desejava começar a retirar tropas do Afeganistão a partir do ano que vem. Seria esta uma das questões com as quais você se preocupa?

Karzai: Temos que ser realistas. Sabemos que não estaremos totalmente prontos para aquela data e que necessitaremos de ajuda durante alguns anos mais – e este realismo é algo que passamos para os nossos parceiros. Mas também estamos felizes com o anúncio feito pelo presidente dos Estados Unidos, porque isso cria uma pressão para que nós trabalhemos arduamente para nos sustentar com os nosso próprios recursos e habilidades.

Spiegel: O general Stanley McChrystal, o novo comandante das tropas da Força Internacional de Assistência para Segurança (ISAF, na sigla em inglês) e dos Estados Unidos, rogou aos seus aliados que assumam riscos maiores. Os soldados alemães devem viver, comer e lutar com os seus parceiros afegãos. Isso significa que os alemães devem estar preparados para morrer com eles. O que você acha da acusação de que a Bundeswehr – as forças armadas alemãs – agiu no sentido de proteger mais a si própria do que aos outros?

Karzai: Todos os soldados circulam pelo país em veículos blindados. Os alemães não têm nada quanto a que se sentirem culpados. Eles fazem um bom trabalho.

Spiegel: A nova estratégia é correta?

Karzai: O general McChrystal é um bom soldado, cuja estratégia concentra-se em proteger os civis afegãos, e isto é o fator chave aqui. Se aderirmos a esse preceito e o respeitarmos, teremos sucesso. Mas se isso não ocorrer, o fracasso é certo. O terror não se origina nas vilas afegãs. É por isso que a guerra contra o terrorismo é dirigida contra os refúgios de terroristas, os campos de treinamento e o apoio financeiro. Se os nossos aliados tivessem reconhecido isso oito anos atrás, teríamos uma história bem melhor para contar hoje em dia no Afeganistão.

Spiegel: Você parece estar se referindo ao Paquistão, que acredita-se ser o centro de operações da liderança do Taleban. Você conversa frequentemente com o presidente paquistanês, Asif Ali Zardari, e com os seus principais assessores de segurança. Será que algum dia o Paquistão estará preparado para expelir os líderes graduados do Taleban do seu solo?

Karzai: Eu espero que, durante o processo de paz, nós comecemos a cooperar em todas essas questões e que a reconciliação torne-se uma realidade no escalão mais alto do movimento Taleban e outros. E nós faremos isso com o auxílio do Paquistão.

Spiegel: Em setembro do ano passado, dois caminhões-tanques foram bombardeados perto de Kunduz por ordens alemãs. Vários civis morreram e o incidente modificou a opinião pública na Alemanha. Você entende o desejo alemão de retirar-se do Afeganistão?

Karzai: A Alemanha tem um lugar muito especial no Afeganistão. Todos os outros países são chamados de “estrangeiros”. Mas vocês são chamados de “alemães”. Isto tem a ver com a nossa história e com o comportamento dos alemães no Afeganistão. A Alemanha fica ao lado do Afeganistão em momentos difíceis há quase um século.

Spiegel: Mas foram também civis afegãos que morreram sob ordens alemãs.

Karzai: Olhe, nós tivemos baixas civis no Afeganistão antes, e isso não provocou renúncias de ministros e comandantes militares em nenhum outro país. Na Alemanha provocou. E nós apreciamos muito a preocupação demonstrada na Alemanha com as baixas. A Alemanha também auxiliou as vítimas. A Alemanha aceitou o problema.

Tradutor: UOL

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