Estudo sobre a saúde de Hitler tenta esclarecer se o ditador era usuário de drogas

Christoph Gunkel

Há uma miríade de teorias por aí sobre a saúde de Hitler. Algumas dizem que era viciado em drogas; outras, que era vítima de uma hipnose que deu errado. Depois, há estranhas hipóteses sobre sua genitália. Um novo livro, contudo, derruba tais ideias. Drogas e doenças tiveram pouco efeito sobre suas ações, concluem os autores. 

Para um assassino em massa, Adolf Hitler tinha um relacionamento totalmente paternal com seu médico pessoal. “Meu querido doutor, estou tão feliz em vê-lo esta manhã!”, dizia o ditador nazista ao seu médico, Theodor Morell, em quem confiava cegamente. De fato, Hitler estava convencido que Morell tinha salvado sua vida em diversas ocasiões. “Meu caro doutor!”, disse o déspota a Morell em novembro de 1944, “se nós sobrevivermos à guerra, você verá o quão generosamente vou recompensá-lo!”. 

  • Wendell Phillips / The New York Times

    1938: O ditador Benito Mussolini (à esquerda) ao lado do líder nazista Adolf Hitler, em Munique

Traudl Junge, secretária pessoal de Hitler durante a guerra, disse mais tarde que o ditador era “absurdamente viciado em Morell”. Ironicamente, contudo, o médico não tinha a melhor das famas. Quando Eva Braun, companheira de Hitler de longa data, reclamou da falta de higiene pessoal de Morell, Hitler defendeu fortemente seu médico, dizendo: “Morell não vem aqui para ser cheirado, mas para me manter saudável.” 

Contudo, o círculo íntimo de Hitler questionava precisamente a capacidade de Morell de tratar de seu paciente. O general Heinz Guderian, por exemplo, chamava Morell de “charlatão gordo e sem graça” e Hermann Göring, comandante da Luftwaffe viciado em morfina, referia-se ironicamente a Morell como “o mestre da seringa do Reich”. Havia também rumores persistentes que o médico tinha tornado Hitler dependente de certos remédios e drogas ilícitas. 

Mesmo após a guerra quase nenhum aspecto da vida privada de Hitler alimentou tanta especulação quanto seus males físicos. Gerações de historiadores, psicólogos, psiquiatras e detetives amadores procuraram descobrir as doenças reais e imaginadas de Hitler. Para eles, parece lógico que a ira irracional de um homem que determinou que milhões de judeus, romas e outros fossem assassinados resultava de uma mente doente. Para eles, era evidente que Hitler devia ter algum trauma, uma adição à droga ou até uma doença mental. 

 Muitas teorias fáceis foram propostas logo após a guerra. Hitler seria homossexual ou esquizofrênico. Alguns achavam que ele sofrera por décadas as consequências de um tratamento de hipnose que deu errado. Seu pênis seria tão atrofiado quanto sua auto-estima, e o Führer teria apenas um testículo e tinha contraído sífilis. Havia alegações que ele estava em constantemente fora de si pelo uso de drogas ilícitas e que tomava pílulas abundantemente. Isso significa que devemos entender Hitler como um viciado por excelência –e seu médico como seu principal fornecedor? 

Tais tentativas de explicar o comportamento de Hitler são perigosos, é claro. Se fosse descoberto que tinha algum problema mental, isso não significaria uma atenuação de sua responsabilidade pelas milhares de mortes que ordenou? O negador do Holocausto David Irving, por exemplo, alega que erros médicos induziram Hitler a “transes eufóricos”, sugerindo que o ditador era mais ou menos inconsciente de suas ações. 

Por outro lado, acadêmicos sérios fizeram perguntas válidas sobre a saúde de Hitler e, de fato, parte do mistério está na falta de fontes significativas de material disponível. Após a guerra, os arquivos médicos de Hitler desapareceram, e a únicas evidências que restaram foram notas tomadas por seu médico e os relatos de testemunhas. 

Agora, contudo, em seu novo livro “War Hitler Krank?” (Hitler era doente?), o historiador Henrik Eberle e Hans-Joachim Neumann, professor emérito de medicina no Hospital Universitário de Berlim Charité, combinaram o estudo dos documentos com uma análise médica moderna para separar o mito dos fatos verificáveis. O livro se propõe a oferecer nada além de “conclusões definitivas” sobre o estado de saúde de Hitler. Também revela alguns detalhes medonhos sobre o ditador. Por exemplo, diz que Hitler talvez tivesse obturações feitas com ouro dentário tirado das vítimas dos campos de concentração: seu dentista tinha mais de 50 kg do material em sua posse. 

  • AP - Reprodução do arquivo de Eva Braun’s Picture Album

    O ditador nazista alemão Adolf Hitler e sua amante Eva Braun em jantar na mansão do casal

 Os dois autores listam meticulosamente todas as 82 medicações tomadas por Hitler no curso de seu governo que constam de documentos históricos. A lista mostra que Morell se dispunha a atender a cada desejo de seu paciente. Por exemplo, administrava rotineiramente uma solução de dextrose e vitaminas para ajudar Hitler a combater a fadiga. Como Hitler tinha suspeitas contra pílulas e cápsulas, a solução era injetada de forma intravenosa ou intramuscular. 

Em 1944, Morell começou a dar-lhe injeções de testosterona, particularmente quando Eva Braun estava presente. Eles também propõem que, antes de seu encontrar com Braun, Hitler ocasionalmente fazia Morell injetar-lhe um extrato derivado de vesículas seminais e glândulas prostáticas de jovens touros em seu sangue. 

As notas de Morell também revelam que o homem que se considerava o maior líder militar de todos os tempos sofria de vários temores e males comuns. Ele tinha pavor de ter câncer. Após ter literalmente gritado para ascender ao poder, ficava rouco constantemente e teve que remover pólipos de suas cordas vocais duas vezes. Ele tinha pressão alta e cólicas gastrointestinais crônicas e era relativamente delicado. Quando pegou um resfriado de seu barbeiro, ficou irado: “O homem estava resfriado há cinco dias e nem mesmo me contou!” 

Veneno de rato e “speed de Hitler” 

Os problemas de digestão de Hitler até o levaram a se tornar vegetariano: contrariamente ao que a máquina da propaganda nazista queria fazer crer, não era porque o ditador da Alemanha fosse amante dos animais. Da mesma forma, tomava quantidades gigantescas de uma droga para combater a flatulência que alguns de seus outros médicos até especularam que ele estava sendo envenenado. A droga continha pequenas quantidades de estricnina, que age nos nervos, e que há muito era usada como veneno de rato. 

Além disso, quando Hitler exibiu sintomas de icterícia no outono de 1944, um debate acalorado emergiu entre seus médicos, alimentado, sem dúvida, por um desejo de receber favores. Alguns até acusaram seu colega Morell de ter envenenado Hitler. Mas o ditador defendeu seu médico, chamou os detratores de Morell de “tolos” e até transferiu dois deles. 

 

 

 

 Hoje, quase seis décadas e meia após a morte de Hitler, Eberle e Neumann tentaram responder a pergunta se o tratamento de Morell era, de fato, impróprio. Analisando a composição e a dosagem da droga que Morell administrava a Hitler, eliminaram a possibilidade de envenenamento. Eles concluíram que Morell estava provavelmente correto ao diagnosticar a hepatite de Hitler como tendo sido gerada por um bloqueio em torno do baço. 

Tais descobertas podem indicar que Morell de fato era um médico competente, não um “charlatão” ou um “Rasputin”, como foi acusado. Contudo, essa conclusão parece ser contradita pelo fato de Morell não ousar negar a Hitler seus desejos e dar-lhe grandes números de comprimidos, inclusive o estimulante Pervitin. Isso fez com que fosse acusado de viciar Hitler –nada implausível dado o fato que vários membros da elite nazista também eram viciados em drogas. Da mesma forma, os soldados alemães combatendo na frente de batalha consumiam grandes quantidades de Pervitin, e a droga até era acrescentada ao chocolate. Hoje, a substância é ingrediente da popular droga “crystal meth”, também conhecida pelo apelido de “speed do Hitler”. 

Ainda assim, as notas de Morell só se referem uma vez à administração de Pervitin a Hitler. Alguns gostariam de acreditar que as abreviações complicadas nas notas de Morell ou suas descrições de outras misturas inofensivas eram meramente para acobertar o uso de medicação contendo a droga. Mas Eberle e Neumann duvidam: “Não há indicação de que Hitler só conseguisse conduzir sua agenda diária porque estava tomando Pervitin”. Eles também observam que há pouca evidência que Hitler tivesse o hábito de cheirar cocaína, como alguns suspeitam. 

 

 

 

 

Eberle e Neumann também tentam desbancar outros mitos ressaltando que os documentos são poucos e contraditórios e levantam questões com base em análises médicas. Uma história, por exemplo, especula que os surtos de raiva de Hitler e sua megalomania eram meramente o resultado de um caso não tratado de meningite. Da mesma forma, Eberle e Neumann não puderam encontrar evidências que Hitler não tinha um testículo ou que seu pênis era deformado após ter sido mordido por um bode em sua juventude. 

Eles também negam como “absurda” a teoria do historiador Berhard Horstmann, que diz que a personalidade de Hitler foi drasticamente alterada em 1918 durante uma sessão de hipnose porque o terapeuta não consegui acordá-lo do transe. Quando era da infantaria na Primeira Guerra, Hitler ficou temporariamente cego após um ataque de gás mostarda. Ele recebeu terapia de hipnose em um hospital militar na cidade alemã de Pasewalk. 

Teóricos da conspiração que lêem o livro de Eberle e Neumann provavelmente ficarão desapontados pelas descobertas dos autores sobre as supostas doenças de Hitler. No final, concluem que Hitler tinha doença de Parkinson e que sua saúde em declínio era evidente nos últimos meses levando ao seu suicídio em abril de 1945. Ainda assim, eles escrevem: “Em nenhum momento Hitler sofreu de ilusões patológicas”. De fato, concluem que o déspota estava sempre consciente de suas ações: “Era plenamente responsável.” 

 Independentemente das conclusões dos pesquisadores, as decisões de Hitler foram mesmo impulsivas, inexplicáveis e desdenhosas da vida humana até o fim. Eventualmente, até o “querido médico” de Hitler deve ter compreendido isso. Mesmo após as defesas da Alemanha terem desmoronado em todas as frentes e a guerra já estar perdida, o médico pessoal de Hitler, estoicamente, ainda tirava a pressão sanguínea de seu paciente e cuidava de suas cólicas estomacais e problemas digestivos no abrigo de Hitler em Berlim. Por fim, Hitler agradeceu a Morell de seu próprio jeito. No dia 21 de abril de 1945 ele liberou seu médico fiel do esconderijo e enviou-o com um estranho conselho: ele disse a Morell para voltar a sua prática em Kurfürstendamm. 

Enquanto isso, ali fora do abrigo, os últimos remanescentes das forças armadas alemãs estavam lutando contra o Exército Vermelho que avançava para o centro de Berlim, a capital do Terceiro Reich.

Tradutor: Deborah Weinberg

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