"Os próprios chineses admitem que não estão prontos" para a liderança global, afirma especialista

Os Estados Unidos e a China se tornaram tão poderosos que as pessoas em todo o mundo falam com reverência em um “G-2”. Mas há fissuras na aliança, como explica Andrew Small da organização German Marshall Fund numa entrevista à “Spiegel Online”. A frustração está crescendo nos EUA em relação à falta de cooperação de Beijing nos assuntos econômicos.

Spiegel Online: A delegação chinesa foi agressiva na conferência climática de Copenhague. Eles se recusaram a fazer praticamente qualquer concessão quanto à mudança climática. Agora, estão protestando veementemente contra as vendas de armas norte-americanas a Taiwan e denunciando a cooperação militar. Muitos observadores concluíram: “Esta é a nova China com a qual devemos nos acostumar”. Devemos?

  • Reuters

    O presidente chinês, Hu Jintao, e o presidente do Estados Unidos, Barack Obama: os dois países já são os mais poderosos do mundo. Como aliados, seriam incomparáveis. Mas será que eles querem mesmo isso?

Small: O governo chinês certamente parece acreditar que está agora numa posição poderosa o suficiente para ser mais assertivo e não fazer concessões. Mas eles correm o risco de se superestimar e ver o tiro sair pela culatra. Copenhague de fato passou dos limites em alguns momentos e caiu na agressão diplomática aberta, num contexto em que quase todos os líderes políticos do mundo estavam presentes.

Spiegel Online: A crise financeira acelerou a ascensão da China. Será que os chineses ainda não estão prontos para seu novo papel de liderança no cenário global?
Small:
Os próprio chineses admitem que não estão prontos. Eles prefeririam ter tido a oportunidade de continuar com seu crescimento econômico em paz e se concentrar em seus vastos desafios internos. Mas um país com uma pegada global tão grande tem inúmeras responsabilidades resultantes disso que as potências menores não têm. Há sinais preocupantes agora de que a China possa preferir tirar vantagem de seu poder dentro do sistema simplesmente para maximizar sua liberdade de ação. Mas o sistema global não pode acomodar confortavelmente um rebelde do tamanho da China.

Spiegel Online: Como a delegação norte-americana reagiu às recusas diplomáticas frequentemente embaraçosas em Copenhague?
Small:
O estilo das conversas em Copenhague é algo que a China acha particularmente desconfortável –um grupo com os líderes globais mais experientes reunidos numa sala discutindo veementemente suas diferenças e chegando a um acordo baseado no que eles sabem que podem vender em seus países. A China não tem um líder capaz de fazer isso efetivamente desde Deng Xiaoping. Alguns comportamentos demonstrados foram claramente produto do fato de que o sistema voltado para o consenso existente entre os altos líderes da China não deixa a seus negociadores muito espaço para manobra.

Spiegel Online: A viagem de Obama para a China em novembro de 2009 foi um erro?
Small:
Infelizmente, os chineses parecem ter visto sua abordagem conciliatória como um sinal de fraqueza e não de boa fé, cedendo muito pouco durante ou desde a visita. Novamente, entretanto, pergunto-me como Beijing tem lidado com isso. A China está numa posição bem mais forte do que em 1993 ou 2001, mas os Estados Unidos continuam tendo muita influência à sua disposição –e a China já tomou algumas atitudes equivocadas nesse tipo de cálculo de poder no passado. Em 2005, a avaliação de Beijing era de que os europeus estavam tão ansiosos para tirar vantagem das oportunidades comerciais na China que concordariam em retirar o embargo da União Europeia mesmo na ausência de qualquer concessão chinesa. Eles não estavam, e a relação nunca voltou exatamente para o mesmo nível.

Spiegel Online: No último minuto, entretanto, o premiê chinês e Obama discutiram um acordo em Copenhague que foi adotado pelas outras nações. É mais um exemplo da ordem mundial do “G-2”, com Beijing e Washington ditando as regras?
Small:
É a versão mais fraca do G-2. Ela reflete o fato de que, enquanto os EUA continuam sendo a potência líder mundial, é a China que está cada vez mais definindo o ponto de partida para o mínimo denominador comum dos acordos. É possível ver o mesmo fenômeno nas negociações em andamento quanto às sanções sobre o Irã. A única situação na qual um verdadeiro G-2 pode surgir é se Beijing e Washington forem capazes de chegar a acordos que levem a agenda adiante, mas as diferenças entre os dois lados continuam muito grandes para isso no momento.

  • Reuters

    Desfile militar de comemoração ao 60 º aniversário da fundação da República Popular da China, em Pequim, em 01 de outubro de 2009: a China tem flexionando seus músculos militares recentemente e tenta medir força com os Estados Unidos

Spiegel Online: O debate sobre o G-2 vai continuar?
Small:
Enquanto a Europa e o Japão temerem ficar marginalizados, sim. Mas episódios como Copenhague ilustram o fato de que a máxima influência tanto da China quanto dos EUA virá a partir da consolidação de sua posição entre amigos e aliados primeiro.

Spiegel Online: O governo Obama buscou a China no seu primeiro ano. Mas agora ele está vendendo armas para o arqui-inimigo de Beijing, Taiwan, e Obama encontrará o líder espiritual do Tibete, o dalai-lama, a quem ele se recusou a ver no ano passado. Será que o relacionamento está esfriando?

Small: É provável que sim, apesar de o encontro com o dalai-lama e as vendas de armas para Taiwan não serem realmente um reflexo de uma posição mais dura. As vendas foram combinadas durante o governo Bush, e o encontro com o dalai-lama foi recusado para atenuar o clima em torno da visita do presidente Obama. Tempos complicados virão pela frente, tanto no domínio econômico –onde a pressão sobre a moeda chinesa e as práticas de comércio parecem prontas a crescer num momento de alto desemprego.

Spiegel Online: Será que equipe de Obama decidiu que tem sido muito condescendente até agora e que Beijing não deu nada em troca?
Small:
Acho que a equipe de Obama continuará a buscar uma parceria efetiva com a China. Mas ficará mais difícil de manter essa posição se a posição da China em relação a vários assuntos continuar inflexível. Certamente, o desapontamento quanto à abordagem de Beijing está crescendo.

Spiegel Online: A China juntou uma fortuna em títulos do tesouro dos EUA. Mas dada a fraqueza do dólar, o governo de Beijing está cada vez mais buscando investimentos alternativos ou um substituto para o dólar.
Small:
Muitos do lado chinês continuam a dizer que gostariam de reverter lentamente sua posição, mas não têm alternativas a curto e médio prazo – e todos voltaram as costas para as declarações de Zhou Xiaochuan no ano passado sobre uma moeda de reserva mundial.

Spiegel Online: Alguns analistas nos EUA comparam a ascensão chinesa à do Japão nos anos 80 quando muitos norte-americanos temiam uma tomada por parte dos japoneses. Porque não há uma repercussão pública semelhante agora nos EUA?
Small:
A economia chinesa é um terço do tamanho da economia norte-americana, seu PIB per capita é medos do que um sexto do norte-americano, e ela tem uma falha séria na capacidade de inovação e na tecnologia. Nada disso se aplicava ao Japão do final dos anos 80, que estava bem mais perto de se tornar um competidor econômico à altura. A China também tem sido cautelosa em relação a todos os seus investimentos no mundo em desenvolvimento –em parte pare evitar provocar uma resposta política e em parte porque ela viu melhores oportunidades em outros lugares. Além disso, a economia chinesa é bem mais aberta do que a do Japão, o que gera uma dinâmica bem diferente com a comunidade de negócios dos EUA, apesar de haver sinais de que isso pode estar mudando.

Spiegel Online: Por outro lado, a China não é uma aliada dos EUA. Ela é uma ditadura.
Small:
Isso significa que se houver uma reviravolta, suas ramificações devem se espalhar pelos domínios político, econômico e de segurança. A China faria bem em manter o relacionamento nos trilhos, do contrário este poderia ser um ano difícil não só para as relações sino-americanas, mas questões maiores sobre como responder à ascensão da China podem ser colocadas sobre a mesa.

 

 

Tradutor: Eloise de Vylder

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