"Este governo é indigno", diz o ex-presidente do parlamento iraniano sobre Ahmadinejad

Der Spiegel

Em uma entrevista a “Der Spiegel”, o político oposicionista e ex-presidente do parlamento iraniano, Mahdi Karroubi, 72, fala sobre as alegações de que ele teria se curvado diante das pressões do governo em Teerã. 

  • AFP - 30.jul.2009

    O clérigo reformista, Mahdi Karroubi (centro), que concorreu a presidência do Irã, durante ato em Teerã (Irã), que marcou os 40 dias de luto islâmico pela morte da jovem estudante Neda Agha-Soltan, baleada durante um protesto contra a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, em 20 de junho de 2009

Spiegel: Hojatoleslam Karroubi, você teria reconhecido Mahmoud Ahmadinejad como presidente em uma entrevista na semana passada a uma agência de notícias governista. Isto é verdade?
Mahdi Karroubi:
Eu disse também à agência de notícias que este governo não é legítimo. E eu sustento a minha opinião de que a eleição não foi conduzida corretamente. Mas este governo atualmente cuida das questões políticas diárias. Ainda que um governo chegue ao poder por meio de um golpe, ele tem que assumir responsabilidade pelo que ocorre. 

Spiegel: A sua observação foi interpretada como uma oferta de acordo.
Karroubi:
Os meus comentários não foram um passo para trás. Não houve do nosso lado nenhuma vontade de fazer acordo – e tampouco houve do outro lado.

 Spiegel: Que concessões você exige do regime de Teerã para que a crise seja resolvida?
Karroubi:
Os prisioneiros políticos têm que ser libertados, nós necessitamos de liberdade de imprensa e de reunião, a nossa legislação eleitoral precisa ser modificada e é necessário que haja uma eleição livre. Mas em tal caso o atual governo dificilmente conseguiria se sustentar no poder. 

Spiegel: Você participará das novas manifestações que ocorrerão na quinta-feira, 11 de fevereiro, um feriado nacional importante que marcará o 31º aniversário da revolução islâmica?
Karroubi:
Assim como em todo ano desde a revolução de 1979, desta vez eu participarei novamente. Me juntarei à multidão em algum lugar. 

Spiegel: Você conversou sobre isso com o seu colega oposicionista Mir Hossein Mousavi?

Karroubi: Nós não fazemos arranjos organizacionais, mas mantemos um contato amigável. Ele me visitou recentemente aqui na minha casa. Nós falamos sobre as execuções recentes, que nos deixaram profundamente entristecidos. 

Spiegel: O regime executou por enforcamento dois membros da oposição que foram acusados de integrar um grupo monarquista.
Karroubi:
Essas execuções tiveram como objetivo espalhar o medo e intimidar o povo. Porém, elas só servem para aprofundar o conflito. 

Spiegel: O regime está demonstrando o seu punho de ferro. A despeito disso você ainda está pedindo aos seus apoiadores que protestem?
Karroubi:
Nós pedimos aos nossos apoiadores que participem das marchas oficiais que marcarão o 31º aniversário da revolução. Mas nós não decidimos que abordagem os manifestantes adotarão ou o que eles farão. 

Spiegel: Integrantes da oposição há muito gritam o slogan “Abaixo Ahmadinejad”, enquanto outros estão exigindo que o supremo líder, aiatolá Ali Khamenei, renuncie. Esses são também os seus slogans?
Karroubi:
Quando ocorre uma grande manifestação, há reuniões de pessoas que têm diferentes pontos de vista. Alguns são corretos, mas outros são equivocados e errados. Algumas pessoas, como eu, não reconhecem o governo. Mas nós pedimos cautela quanto a slogans que pedem uma ruptura do sistema e dão ao regime um pretexto para atacar o povo. 

Spiegel: Então você acha que os manifestantes deveriam abandonar a exigência de deposição de Khamenei?
Karroubi:
Eu não quero liderar essa discussão. Para nós, os pontos importantes são a eleição presidencial e aquelas liberdades que estão ancoradas na nossa constituição. E o fato é que este governo é indigno de administrar o país. 

Spiegel: Atualmente os manifestantes estão indo bem além do que você e Mousavi.
Karroubi:
Os slogans estão ficando cada vez mais radicais em ambos os lados. Isto é o resultado da abordagem intransigente por parte do governo e das suas forças de segurança. 

Spiegel: O movimento de protesto distanciou-se dos seus líderes?
Karroubi:
Mousavi e eu servimos o povo em vários cargos de responsabilidade. Como resultado, nós temos uma certa influência. Mas Mousavi não conta com uma organização atrás de si. Eu tenho um partido político, mas o trabalho dele está restrito. O protesto é um movimento popular composto de pessoas de uma ampla variedade de classes sociais e que atua independentemente... 

Spiegel: ... e que atualmente questiona o sistema inteiro.
Karroubi:
O povo iraniano possui uma consciência política bem desenvolvida. Eu confio na razão e na experiência do povo. 

Spiegel:A violência está aumentando. O país corre o risco de mergulhar na anarquia?
Karroubi:
Eu condeno fundamentalmente qualquer ato de violência.
Mas naturalmente ocorrem embates quando as forças de segurança tomam medidas contra o povo. Inicialmente os manifestantes deixaram-se espancar. Foi o outro lado que os pressionou tanto que agora eles estão se defendendo. É bem possível que as coisas fujam ao controle. Mas o governo é responsável por isso. 

Spiegel: Você acredita que o governo durará os quatro anos do seu mandato?
Karroubi:
Se Ahmadinejad perder o seu apoio, o parlamento o derrubará. Muitos grupos conservadores se opõem a ele. Ele só consegue manter-se no poder com o auxílio das milícias. 

Spiegel: Como o Ocidente pode apoiar a oposição?
Karroubi:
Toda medida deve se basear no apoio do próprio povo.
Países que fornecem assistência a partir de fora estão fazendo isso por interesses próprios. Já seria suficiente que nenhuma falsidade sobre nós fosse publicada no exterior – por exemplo, reportagens dizendo que o nosso movimento está morto. 

Spiegel: Você acredita que o Irã é capaz de continuar sendo uma teocracia?
Karroubi:
Sim, eu continuo acreditando em um Estado religioso. Mas não em um Estado no qual as pessoas comemoram durante as orações da sexta-feira o fato de os filhos do nosso próprio povo estarem sendo assassinados e até anunciarem que matarão um número ainda maior de indivíduos.

Tradutor: UOL

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