Jürgen Rüttgers: o homem que pode derrubar Angela Merkel, na Alemanha

Rene Pfister

Jürgen Rüttgers, poderoso governador da Renânia do Norte-Vestfália, atualmente detém as rédeas de política alemã. Ele não quer ninguém virando o barco antes das eleições cruciais em maio e está impedindo reformas muito necessárias. Pode até tornar-se um desafio à chanceler Angela Merkel. 

Jürgen Rüttgers

  • EFE

Não é difícil deixar nervoso o proeminente político alemão Jürgen Rüttgers. De fato, basta uma única pergunta, como demonstrou um incidente recente. 

Rüttgers, que é o governador conservador do Estado mais populoso da Alemanha, a Renânia do Norte-Vestfália, foi simpático na recepção de Ano Novo de seu partido na cidade de Gelsenkirchen. “Bom te ver”, dizia ele entusiasmado para seus convidados, falando em um dialeto alemão local. Rüttgers estava fazendo o papel de governador patriarca com gosto, demonstrando disposição para ouvir a todos, mesmo o diretor da associação de jardinagem comunitária local. 

Mas novamente, ela voltou, a questão que lhe fazem ultimamente, tanto os jornais, quanto os membros do partido ou as pessoas em geral: ele não está sendo o maior obstáculo da política alemã? O governo em Berlim não está amarrado porque Rüttgers quer vencer a eleição parlamentar em seu Estado, que ocorrerá no dia 9 de maio? 

Quando ouve a pergunta, seu corpo fica visivelmente tenso. Rüttgers pigarreia alto antes de responder a acusação que o enfurece. Ele insiste que, de todas as pessoas, ele tem um forte interesse em assegurar que o governo da coalizão em Berlim, composto da União Democrática Crista (CDU), de centro-direita, seu partido irmão União Social Cristã (CSU) da Bavária e o Partido Democrata Livre (FDP) funcione bem. 

Sua reação pode ser interpretada como revolta genuína. Mas a explicação mais provável é que Rüttgers aprimorou sua capacidade teatral com os anos de governo. A verdade é que atualmente ele é o homem mais poderoso na política alemã. Nos próximos três meses, a chancelaria em Berlim não vai dirigir a Alemanha sozinha –a chancelaria estadual na capital da Renânia do Norte-Vestfália, em Düsseldorf, também terá influência. E o que Rüttgers e seu pessoal querem mais do que tudo é assegurar que nada vire o barco entre agora e as eleições. 

Acordo 

A chanceler Angela Merkel fez um acordo com Rüttgers, baseado no seguinte princípio: o partido vem em primeiro lugar, depois a Alemanha. Merkel quer garantir que nenhuma decisão impopular seja tomada antes do início do verão. Isso explica por que o debate sobre reforma tributária está atualmente suspenso, por que o governo não vai apresentar propostas para reformar o sistema de saúde e por que não haverá anúncios em torno do tópico controverso de quanto tempo as usinas nucleares do país serão mantidas em operação. 

O projeto de Rüttgers é vencer a eleição. Uma derrota significaria que o CDU, CSU e FDP perderiam sua maioria no Bundesrat, a câmara alta do Parlamento alemão que representa os 16 Estados do país. Isso os deixaria dependentes da boa vontade do Partido Social Democrata (SPD) de centro-esquerda e o Partido Verde para aprovar suas leis. 

Angela Merkel

  • Tobias Schwarz/Reuters - 20.out.2009

Rüttgers agora é uma figura tão importante que está sempre na mesa quando os líderes do governo da coalizão reúnem-se na capital. Ele se tornou um fantasma do banquete da política de Berlim. “Nenhuma reunião é feita sem alguém mencionar o dia 9 de maio”, disse recentemente Stefan Müller aos membros do partido. 

O líder parlamentar do CDU/CSU, Volker Kauder, sugeriu aos colegas no Bundestag que não deveriam responder ligações de jornalistas nos próximos meses. “Tenho muita esperança que vocês evitarão fazer declarações provocativas em público”. 

“Precisamos fazer concessões para Rüttgers” 

O espectro da influência de Rüttgers ficou plenamente evidente há duas semanas, quando a chanceler reuniu-se com o líder do FDP, Guido Westerwelle, e o presidente do CSU, Horst Seehofer, para discutir seus planos para os próximos meses. Seria uma boa oportunidade para os três líderes do partido finalmente resolverem sua cansativa briga sobre a reforma tributária, mas nada estava mais distante das mentes de Merkel e Seehofer. 

Temendo que uma discussão sobre a reforma de impostos alienasse Rüttgers, Merkel e Seehofer instaram Westerwelle a deixar a questão para maio. Westerwelle, que também é vice-chanceler e ministro de relações exteriores, eventualmente cedeu, e os líderes do partido concordaram em adiar a discussão até após a divulgação oficial da receita fiscal, em maio. “Afinal, está totalmente claro que precisamos fazer concessões para Rüttgers”, disse Seehofer, após a reunião. Parecia um pedido de desculpas. 

Merkel está assumindo um risco grande ao concordar em suspender tudo por Rüttgers. É claro que vai se beneficiar se Rüttgers vencer a eleição parlamentar. Uma vitória para o CDU na Renânia do Norte-Vestfália, um Estado que tradicionalmente é reduto dos sociais democratas de centro-esquerda, seria o primeiro golpe sério para o líder do SPD, Sigmar Gabriel. Essa é uma das razões porque a agenda de Merkel já inclui 10 eventos da campanha de eleição do CDU na Renânia do Norte-Vestfália. 

Por outro lado, os próximos meses de calma agonizante somente solidificarão a fama da chanceler de ser incapaz de tomar decisões. Além disso, ela não tem garantias que Rüttgers depois demonstrará apreço pelo apoio de Berlim. 

Rüttgers tem uma noção muito idiossincrática de lealdade, como demonstrou recentemente na convenção do CDU na Renânia do Norte-Vestfália, onde criticou abertamente o governo de coalizão em Berlim: “O fato é que o novo governo federal não teve um bom começo, e isso não facilitou as coisas para nós”, disse aos delegados. 

Essa frase não estava no texto original do discurso de Rüttgers, dizem as autoridades do CDU em Düsseldorf. Mas quando os resultados da pesquisa divulgados pouco antes da convenção mostraram que o apoio para o CDU na Renânia do Norte-Vestfália tinha caído para 36%, Rüttgers acrescentou as críticas a Berlim. Ele queria deixar claro que o erro pelo resultado desapontador do partido não era dele, mas de Merkel e seus colaboradores. 

Merkel e Rüttgers há muito desconfiam um do outro, em parte porque seus sucessos são baseados no mesmo princípio. Os dois se desviaram para a esquerda para tornar o CDU mais atraente para novos grupos sociais, como os operários e os trabalhadores de colarinho branco de renda mais baixa que buscam proteção dos ventos gelados da globalização. 

Quando Rüttgers discursou na recepção de Ano Novo em Gelsenkirchen, ele começou elogiando um social-democrata. Era o quarto aniversário da morte do ex-presidente da Alemanha Joahnnes Rau, disse ele, e citou uma observação famosa de Rau na qual ele exortou a “reconciliação no lugar da divisão”. Rüttgers expressou sua esperança que as pessoas novamente vão se unir e se apoiar mais. Ele também criticou banqueiros ansiosos por lucros. Tudo lembrava as posições do SPD e, no final do discurso, Rüttgers tinha transmitido uma imagem como o mais convincente líder social democrático que o CDU já teve. 

Envolvendo todos os alemães 

Merkel é mais sutil em seus esforços para tornar o CDU mais social-democrata. Ronald Pofalla, ex-secretário geral do CDU e atual diretor da chancelaria, silenciosamente varreu para debaixo do tapete os esforços anteriores de reforma, e Merkel não se sente mais no papel de neoliberal pró-mercado. Isso ficou claro em sua primeira aparição pública na noite da eleição parlamentar em setembro de 2009. Os membros do CDU na sede do partido em Berlim, cheios de alegria com a reeleição de Merkel, estavam ansiosos por ouvir a chanceler dizer algo venenoso sobre o SPD. Em vez disso, Merkel meramente disse que pretendia ser uma “chanceler para todos os alemães”. Era uma frase que envolvia a todos, inclusive os eleitores desapontados do SPD. 

Há muito em jogo para Rüttgers. As pesquisas alemãs mostram que o CDU e o FDP não têm mais a maioria na Renânia do Norte-Vestfália. Se o SPD entrasse na coalizão com o Partido Verde e o Partido da Esquerda –na primeira aliança desse tipo no nível estadual na Alemanha Ocidental –e conseguisse derrubar Rüttgers, provavelmente seria o fim da carreira dele. Mas se Rüttgers conseguir formular outra coalizão CDU/FDP no reduto de esquerda da Renânia do Norte-Vestfália, ele emergirá como estrela de seu partido, provando ser tão eficaz quanto Merkel para atrair antigos eleitores do SPD. A vantagem de Rüttgers sobre Merkel é que ele não está sob suspeita constante de trair os princípios fundamentais do CDU. 

Imagem de homem de família 

As políticas de Rüttgers não são distantes das da chanceler. Por exemplo, diferente de muitos em seu partido, ele defende a expansão do serviço de creche e apoia escolas de turno integral (a maior parte das escolas alemãs termina as aulas em torno da hora do almoço, dificultando o trabalho das mães). Contudo, ele transmite um tipo de tradição de amor antiquado, daquele que preza a família e o lar, o que tem um efeito calmante em muitos partidários do CDU, permanentemente temerosos com a ousada modernização do partido por Merkel. Rüttgers gosta de retratar sua casa em Pulheim, perto de Colônia, como um abrigo aconchegante onde sua família usa chinelos confortáveis e Angelika, sua mulher há 28 anos, dirige um lar amoroso e disciplinado. Sua imagem de homem de família lhe dá uma aura de conservadorismo que agrada a base do partido e que escapa completamente à chanceler. 

Merkel tem que explicar constantemente porque faz parte do CDU, já que é protestante, não tem filhos e foi criada na antiga Alemanha Oriental. Ninguém pensaria em fazer a mesma pergunta a Rüttgers, católico de Renânia, o que dá a ele uma vantagem. Merkel atualmente não tem um concorrente dentro do partido, mas muitos no CDU acreditam que Rüttgers não enterrou totalmente seu sonho de se tornar chanceler. Colegas do CDU da Renânia do Norte-Vestfália dizem que Rüttgers está convencido que Merkel não vai concorrer à chancelaria novamente em 2013. Talvez seja apenas um pensamento positivo, mas também reflete suas ambições. 

O relacionamento entre os dois políticos não é fácil. Durante uma recente visita de Merkel à Renânia do Norte-Vestfália, não ficou claro o quanto Rüttgers faz deferências à chanceler. Quando esta deu um discurso aos líderes locais, o entusiasmo foi tanto que eles a aplaudiram de pé. Um membro da platéia, contudo, permaneceu sentado: Jürgen Rüttgers.

Tradutor: Deborah Weinberg

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