"As forças armadas não são aptas a perseguir traficantes", diz FHC

Entrevista conduzida por Jens Glüsing

A violência vinculada às drogas está mais uma vez em ascensão nas América Latina. O ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, 78, disse a “Der Spiegel” que a guerra contra as drogas fracassou e que é hora de se tentar uma nova estratégia: a descriminalização.

Fernando Henrique Cardoso

  • Rafael Andrade/Folha Imagem

    O ex-presidente da república Fernando Henrique Cardoso durante o seminário da Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia, na Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro

Spiegel: Senhor presidente, por que você e os ex-presidentes do México e da Colômbia, Ernesto Zedillo e César Gaviria, querem a liberalização do uso das drogas?

Cardoso: O problema da droga ameaça as democracias latino-americanas. Viciados são um caso de médico, e não de polícia.

Spiegel: Você deseja que seja permitido o uso até mesmo da cocaína?

Cardoso:  Muita gente no Brasil usa drogas. Durante o meu período na presidência, nós destruímos plantações de maconha, mas isso não surtiu efeito. Com um mercado tão lucrativo, sempre há alguém disposto a arriscar tudo. Nós precisamos combater o crime organizado e, ao mesmo tempo, descriminalizar o uso de drogas por parte dos viciados.

Spiegel: Mas isso não faria apenas estimular a demanda por narcóticos?

Cardoso: A única forma de descobrir é tentar.

Spiegel: O governo brasileiro está sequer preparado para lidar com uma onda de viciados?

Cardoso:  Não, e é por isso que isso não pode acontecer da noite para o dia. Se não se reduzir a demanda, a guerra estará perdida. Temos que contra-atacar com educação. Isso é similar à luta contra a Aids: não é possível proibir o sexo, mas dá para torná-lo mais seguro. Tivemos bastante sucesso com isto no Brasil.

Spiegel: Washington gasta bilhões de dólares com assistência militar e policial para combater o narcotráfico na América Latina. Este é um investimento inteligente? 

Cardoso: Quando eu estive na Colômbia em uma visita de Estado, o general que comandava o combate às drogas me disse: embora estejamos matando os traficantes aqui, não conseguimos conter o tráfico. Os lucros são tão imensos que aqueles que matamos são substituídos imediatamente.

Spiegel: As autoridades não tiveram sucesso em destruir os grandes cartéis? 

Cardoso: Atualmente o tráfico de drogas não é mais verticalmente estruturado. Em vez disso, ele opera em pequenas células que podem ser desmontada a qualquer momento. Tais estruturas são muito mais difíceis de combater. Além do mais, os mexicanos substituíram os narcotraficantes colombianos. Os Estados Unidos adotam uma política ambígua: eles proíbem as drogas, mas permitem a venda de armas. Como resultado, as quadrilhas mexicanas cruzam a fronteira para obter armas.

Spiegel: O que você pensa a respeito do uso da força militar contra o narcotráfico?

Cardoso: Quando fui presidente, Washington queria criar um supremo comando militar conjunto para a luta contra as drogas, mas eu jamais aceitei tal coisa. As forças armadas não são aptas a perseguir criminosos.

Spiegel: Até o momento os Estados Unidos defenderam uma política antidrogas dura. O presidente Barack Obama vê as coisas de forma diferente?

Cardoso:  Existem algumas indicações de que sim. A velha abordagem fracassou. O Afeganistão é o melhor exemplo disto. Apesar da presença de tropas dos Estados Unidos naquele país, a produção de ópio está prosperando. E o uso de drogas também não diminuiu nos Estados Unidos, onde praticamente não se importa mais maconha. A maior parte da maconha norte-americana é produzida domesticamente.

Spiegel: Depois dos Estados Unidos, o Brasil é o segundo maior mercado de drogas na América.

Cardoso: Os consumidores de drogas são preponderantemente das classes média e alta. Essas pessoas precisam reconhecer que são parcialmente responsáveis pelos crimes violentos. A cocaína está se transformando em uma droga popular. Em toda sociedade, há uma certa percentagem de viciados que se constitui em uma causa perdida. Muitos outros, no entanto, podem ser salvos. Há pessoas que temos que ajudar.

Tradutor: UOL

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