Teerã tem poucos motivos para temer as sanções

Ulrike Putz

Em Beirute (Líbano)

O Ocidente está endurecendo o tom de suas ameaças contra o Irã, mas até o momento Teerã permanece não impressionado e até mesmo começou a enriquecer o urânio a 20%. Qualquer nova sanção imposta contra o regime de Mahmoud Ahmadinejad provavelmente será tão ineficaz quanto as existentes.

Há uma nova escalada das tensões entre o Ocidente e o Irã, mas será que o Ocidente agirá desta vez? Os Estados Unidos, a Franças, a chanceler alemã Angela Merkel e seu ministro das Relações Exteriores, Guido Westerwelle, estão todos exigindo um aumento da “pressão” sobre o Irã. É hora de novas sanções, eles dizem, para forçar o Irã a ceder a respeito de seu programa nuclear. Se forçados, eles disseram que estão preparados até mesmo a agir independentemente do Conselho de Segurança da ONU, onde a China tem sido teimosa em sua recusa de concordar com medidas punitivas adicionais contra o regime em Teerã.

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As ameaças, entretanto, deixaram o Irã indiferente. Teerã nem mesmo se incomodou em responder. Em vez disso, o país está começando a enriquecer seu próprio urânio.

A indiferença iraniana à possibilidade de sanções há muito é um padrão. No ano passado, a comunidade internacional estabeleceu um prazo para o Irã sentar à mesa para negociações sérias a respeito de seu programa nuclear. Mas o regime do presidente Mahmoud Ahmadinejad permitiu que todo ultimato expirasse e toda vez saiu sem nenhum arranhão.

As táticas dos iranianos são sempre as mesmas. Primeiro, eles dão a impressão de que farão concessões. Mas então eles apenas continuam da mesma forma que antes. Sem uma opção militar, que o Ocidente tem repetidamente descartado, o Irã se sente seguro. E a República Islâmica não está nem um pouco preocupada com sanções econômicas –um sentimento, dizem observadores do Irã, que não é apenas justificado, mas apoiado por décadas de experiência.

Uma história de sanções malsucedidas
Os Estados Unidos impuseram as primeiras sanções contra a recém-criada República Islâmica do Irã em 1979, depois que os revolucionários ocuparam a embaixada americana em Teerã. Em 1995, Washington ampliou suas medidas para incluir um embargo econômico completo. Em 2006, o Conselho de Segurança da ONU impôs as primeiras sanções relacionadas ao programa nuclear iraniano, que foram ampliadas de novo em 2007 e 2008. Os países membros da ONU são proibidos de vender ou entregar bens ao Irã que possam ser utilizados em seu programa nuclear.

Além disso, negócios com o Bank Sepah estatal e outras organizações suspeitas na lista negra da ONU são “restritos” e a venda de grandes sistemas de armas para Teerã é proibida. Em 2008, a União Europeia congelou os ativos do maior banco do Irã, o Melli Bank, e emitiu uma proibição de viagem aos especialistas nucleares e em tecnologia de mísseis iranianos.

Mas essas represálias fizeram pouca diferença na época e têm pouco efeito atualmente. Ao menos esta é a opinião de Djavad Salehi-Isfahani, um acadêmico convidado da respeitada Instituição Brookings, com sede em Washington, D.C., que escreveu um trabalho sobre a eficácia das sanções contra o Irã em setembro. Salehi-Isfahani argumentou que a economia iraniana está de fato fraca, mas o problema se deve à crise financeira internacional e não ao boicote.

Interpretando Teerã de forma errônea
Em 2007, ele escreveu, o Irã apresentava uma taxa de crescimento de 7% e a renda per capita dobrou ao longo dos últimos 10 anos. Serviços básicos como água e eletricidade foram ampliados para atender 95% da população. A saúde e a educação melhoraram e o tamanho da classe média dobrou. A economia só começou a encolher depois que a crise econômica global atingiu o Irã em 2008, trazendo consigo uma queda de 20% na renda nas áreas rurais e 10% de queda nas áreas urbanas.

Salehi-Isfahani escreveu que era interpretar Teerã de forma ainda mais errônea acreditar, assim como muitos defensores das sanções acreditam, que o aumento da pobreza e a estagnação econômica levaram às pessoas às ruas de Teerã em meados do ano passado. “O forte declínio econômico em 2008 sem dúvida contribuiu para a insatisfação”, ele escreveu. “Mas em grande parte, o que esteve em exibição em Teerã após as eleições contestadas foram os frutos dos avanços nos padrões de vida, e não o declínio econômico.”

“O argumento a favor das sanções como ferramenta eficaz de política externa é mais forte quando o país em questão está fervilhando de tensões políticas internas causadas por anos de estagnação ou queda nos padrões de vida, o que as sanções podem intensificar para promover a mudança desejada nas políticas por parte dos governantes do país”, ele continuou. “Esta não é a situação no Irã.”

O embargo à gasolina ‘não é prático’
O mais recente esforço para pressionar o Irã que está sendo discutido é uma possível proibição da venda de gasolina. O país pode ser o quarto maior produtor de petróleo do mundo, mas precisa cobrir 40% de suas necessidades de combustível por meio de importação, porque carece de refinarias para processar o óleo cru. Trita Parsi, presidente do Conselho Nacional Iraniano-Americano, acredita que um boicote à gasolina não seria prático porque exigiria um bloqueio marítimo para ser eficaz –e a medida também exigiria uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Recentemente, o ministro das Relações Exteriores da China, Yang Jiechi, reiterou que Pequim, um membro permanente do Conselho de Segurança, não está preparado para aprovar medidas punitivas adicionais contra o Irã.

O maior problema com as sanções existentes e futuras continua sendo a capacidade de fiscalizar seu cumprimento. Mesmo se um consenso fosse obtido a respeito de medidas mais duras, os observadores temem que teriam pouco impacto. No caso de um embargo à gasolina, “há intermediários suficientes para que o Irã prossiga de modo inalterado”, disse Olivier Jakob, diretor administrativo da consultoria de petróleo suíça Petromatrix para a agência de notícias “Bloomberg”.

Um exemplo recente ressalta a dificuldade de aplicar as sanções. Uma companhia aérea holandesa está sendo julgada nos Estados Unidos por ter entregue tecnologia de aviação americana e peças sobressalentes a clientes iranianos por anos. As transações foram disfarçadas porque as encomendas foram feitas a uma firma europeia, que então fez os pedidos em seu nome. Os bens foram então entregues em Dubai. De lá, a carga era transportada para o Irã.

As autoridades em Washington estão cientes do fato de que os iranianos são mestres em contornar as restrições ao comércio. A secretária de Estado, Hillary Clinton, reconheceu recentemente que o embargo econômico americano contra o Irã está longe ser impermeável, descrevendo as sanções como cheias de brechas.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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