Uma subcultura da Idade da Pedra surge nos Estados Unidos

Philip Bethge

Uma subcultura da Idade da Pedra nos dias modernos está se formando nos Estados Unidos, onde aspirantes a homens das cavernas imitam os seus ancestrais distantes. Eles comem grandes quantidades de carne, banham-se em água gelada e correm descalços. Alguns pesquisadores dizem que as pessoas tinham vidas mais saudáveis na época pré-histórica.

John Durant recebe os caçadores e coletores de Nova York uma vez por mês no seu apartamento na região de Upper East Side. Eles comem beef jerky (espécie de carne-seca) caseiro, aconchegam-se em volta da lareira e trocam receitas de carpaccio com legumes ou de porco selvagem assado.

  • AFP

    Com trinta e oito anos de idade, o francês Erwan Le Corre ensina em seus cursos como os participantes devem rastejar através da vegetação rasteira, além de como fazer jogos com as pedras do tamanho de bolas de boliche e como correr nu pelas florestas

Frequentemente o anfitrião deixa deliberadamente de fazer algumas refeições no dia seguinte. Afinal de contas, os seus distantes ancestrais não passaram um pouco de fome entre uma caçada e outra? Em vez de comer, Durant prefere correr descalço na Ponte do Brooklyn. No inverno, ele participa do evento de natação Coney Island Polar Bear nas águas geladas do Oceano Atlântico.

Este homem de 26 anos de idade e os outros membros do grupo de Nova York que promovem aquilo que eles chamam de “Boa Forma Evolucionária” (EF, na sigla em inglês) fazem parte de uma subcultura em crescimento que busca saúde e felicidade por meio da imitação dos seus ancestrais paleolíticos. Os integrantes deste clã duro na queda de homens da caverna contemporâneos se auto-intitulam “caçadores-coletores” ou “paleos”. A filosofia deles baseia-se na ideia de que o corpo humano está mais bem adaptado para o estilo de vida das pessoas que vagavam pela Terra há dezenas de milhares de anos.

Não é de se surpreender que a dieta desses caçadores-coletores do século 21 seja repleta de carne. Mas eles também praticam alpinismo, corrida e salto, como se ainda vivessem com medo de mamutes vagantes. Alguns até doam sangue como parte da sua existência da Idade da Pedra. Afinal, os seus ancestrais não perdiam muito sangue lutando contra tigres dente-de-sabre e outras feras do gênero?

Sintonizados com o ritmo das estações

“O que as pessoas comiam naquela época? Como é que elas se movimentavam? E o que isso significa para nós hoje em dia?”, questiona Durant. As respostas, sugere ele, são óbvias. Os genes humanos são perfeitos para uma existência nômade; para a vida de um caçador-coletor sintonizada com o ritmo das estações.

“A vida pré-histórica consistia de uma temporada de camping muito longa sem fogão de acampamento nem barras energéticas de cereais para nos ajudar a sobreviver”, explica Arthur De Vany. Este professor aposentado de economia é uma espécie de força propulsora do movimento. “Nós não estamos tentando idealizar o homem da Idade da Pedra”, diz ele. No entanto, ele acredita que a evolução nos permite fazer algumas inferência a respeito de como podemos ter vidas mais saudáveis e felizes.

De Vany e a sua mulher Carmela moram em um pequeno assentamento chamado Washington no deserto do Estado de Utah. A janela da sala deles fica de frente para um campo de golfe de um verde exuberante. “Eu muitas vezes corro um pouco lá de manhã”, diz De Vany, 72. Nos últimos 25 anos De Vany tem seguido um plano que ele próprio elaborou. O corpo dele é como o de um homem atlético de 45 anos. Ele tem 1,85 metro de altura e pesa 95 quilos - “com apenas 8% de gordura corporal”. De Vany consegue lançar uma bola de golfe a 250 metros de distância, e ele gosta de testar os músculos puxando o seu Land Rover por uma corda.

Esses homens da caverna renascidos não se exercitam mais de duas vezes por semana, e fazem isso apenas por uma hora a cada sessão. Ele acredita que esforços contínuos como a corrida podem ser prejudiciais. “Você alguma vez tentou esquartejar um mamute com uma pedra?”, pergunta esse guru da boa forma. A chave para a felicidade à la De Vany reside na atividade física breve, mas intensa.

Ele também impõe para si regras nutricionais estritas. A alimentação paleo tem que consistir apenas daquelas coisas que os nossos ancestrais distantes teriam comido. Muesli? Uma abominação aos olhos deste Fred Flintstone moderno. Espaguete? “Um prato cheio de açúcar”, argumenta De Vany. Ele considera os carboidratos de todos os tipos alimentos infernais. Os seguidores da EF desprezam batatas, chocolate, pizza e pão, bem como leite, queijo e óleos refinados. Em vez disso eles consomem muita caça e peixe, verduras e legumes, grãos e frutas.

Noites geladas sem roupa

“Nós procuramos não apenas comer os alimentos que existiam antes da invenção da agricultura”, explica De Vany. E a diversidade é o tempero da vida. Em determinada manhã Carmela serve peru assado com toucinho no café da manhã. Em um outro dia a refeição é a metade de um abacate.

O ex-professor faz uma ideia bem precisa de como era a vida do homem pré-histórico. “Eu admiro a habilidade e a resistência deles”, fala De Vany com entusiasmo. “Eles eram capazes de sobreviver a noites geladas sem roupa”.

De Vany é um romântico. Mesmo assim, os pesquisadores estão preparados para confirmar algumas das teorias dele. Lynda Frassetto, doutora da Universidade da Califórnia em São Francisco, realizou um experimento no qual submeteu indivíduos saudáveis a uma dieta paleo por apenas dez dias, alimentando-os apenas com carne magra, frutas, verduras, legumes e nozes. Tudo o mais foi totalmente proibido. O resultado foi que a pressão arterial dos indivíduos melhorou e os seus níveis de insulina despencaram.

O pesquisador norte-americano Loren Cordain também defende uma “nutrição mais apropriada para a espécie”. Ele diz que a “dieta média da Idade da Pedra” consistia de algo entre 60% e 80% de gordura e proteína. Cordain alega que as dietas atuais ricas em carboidratos não se adequam à nossa estrutura genética e são a causa das doenças dos países desenvolvidos, como diabete e hipertensão arterial.

“Os indivíduos saudáveis da Idade da Pedra eram mais fortes e bem condicionados do que nós somos hoje”, alega o antropólogo norte-americano John Shea. Ele diz que as pequenas fraturas nos ossos de caçadores-coletores que morreram há muito tempo podem dizer aos pesquisadores muita coisa sobre a vida do homem antigo: “As atividades deles variavam bastante. Quando estavam procurando comida, eles corriam muito. Mas eles provavelmente só caçavam cerca de uma vez por semana”.

Embora a expectativa média de vida daqueles indivíduos fosse muito pequena, ele afirma que isso não se devia à falta de saúde, mas sim a infecções, acidentes e ao alto índice de mortalidade infantil.

Portanto, será que seria de fato uma atitude inteligente rendermo-nos ao nosso passado brutal? Richard Nikoley, de San Jose, na Califórnia, está convencido que sim. O seu website é chamado “Free the Animal” (“Libere o Animal”), e ele já soltou a sua fera interna. Há três anos ele pesava mais de 100 quilogramas. Hoje ele está 30 quilos mais magro. E este homem de 49 anos diz que “nunca se sentiu tão forte”.

Nikoley gosta especialmente de exibir o torso nu. Ele também não tem medo de sofrer devido às suas crenças. “Animais não caçam de barriga cheia”, garante Nikoley. Este empresário já jejuou por 30 horas seguidas entre sessões de exercícios. A sua descoberta: “O meu pensamento nunca esteve mais claro”.

Em Nova York, Durant conheceu recentemente um dos pioneiros do movimento. Erwan Le Corre, de 38 anos, é uma espécie de revivalista da Idade da Pedra. Esse francês pode usar calções esportivos, em vez de tangas de algodão, mas o seu corpo transmite a impressão de que ele seria capaz de lutar com um rinoceronte lanudo.

A academia de exercícios de Le Corre são os terrenos ao ar livre. Quem participar de um dos seus cursos ver-se-á rastejando no solo, arremessando pedras do tamanho de bolas de boliche e correndo semi-nu pela floresta. “Foi fantástico”, diz Durant a respeito da sua recente visita ao campo de treinamento do mestre no México. “Nós subimos em árvores, aprendemos como saltar corretamente e arrastamos troncos de árvores pelo chão”.

A vida do homem moderno é comparativamente entediante. “Eu vejo os homens modernos mais ou menos como ratos de laboratório, vivendo em ambientes protegidos, livres da predação, e contando com um suprimento previsível de comida”, critica De Vany. Roedores engaiolados podem viver em média três vezes mais do que os seus ancestrais selvagens, mas a que preço?

“Há um experimento no qual você pendura um rato em um fio e vê quanto tempo ele consegue se manter lá”, explica De Vany. “Os ratos de laboratório caem logo no chão”.

E quanto aos ratos selvagens? “Eles içam o corpo sozinhos e escapam”.

Tradutor: UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos