Eletrodos podem ajudar pessoa em estado vegetativo a se comunicar

Manfred Dworschak

Neurologistas estão empregando eletrodos no cérebro para tentar estabelecer contato com as pessoas em estados vegetativos e minimamente conscientes. Isso pode ser a última esperança para o belga Rom Houben, que está preso em seu próprio corpo há 23 anos. Tentativas para fazê-lo comunicar-se por meio de um teclado falharam.

Dia após dia, Marie-Aurélie Bruno cola eletrodos nas cabeças raspadas de seus pacientes. A neuropsicóloga da Universidade de Liège, na Bélgica, está buscando sinais nas leituras trêmulas da atividade elétrica do cérebro, onde pode haver uma mensagem escondida.

  • 29.12.2004 - João Wainer/Folha Imagem

    Neurologistas usam eletrodos para estabelecer contato com pessoas em estado vegetativo

Os pacientes de Bruno estão em condições classificadas como “estado vegetativo” (EV) e “estado minimamente consciente” (EMC). Na maior parte do tempo, parecem completamente retirados do mundo, apesar dos olhos abertos. Ocasionalmente, um piscar de olhos ou um aperto de mão revela que alguns desses pacientes retêm uma pequena quantidade de consciência. Observar seus cérebros diretamente poderia ajudar a estabelecer um melhor acesso a eles. “Em alguns casos individuais, talvez até possamos estabelecer um canal de comunicação”, diz Steven Laureys, diretor do grupo de pesquisa em Liège.

A técnica que o grupo está usando tem suas origens no laboratório de Niels Birbaumer, um neurologista da Universidade de Tübingen no sudoeste da Alemanha. “Funcionou bastante bem para nós”, diz ele do tratamento que usa em pacientes com a “síndrome de aprisionamento” –ou seja, aqueles que estão comprovadamente conscientes, mas paralisados da cabeça aos pés. Com a ajuda de eletrodos, alguns pacientes podem se comunicar via computador. Uma variedade de letras aparece na tela em rápida sucessão. Concentrando-se rapidamente na palavra “sim”, os pacientes podem indicar a letra desejada. Algumas vezes, conseguem isso em poucos segundos; noutras, demoram um minuto inteiro.

Os pesquisadores em Liège esperam que essa técnica possa ajudar o homem que se tornou seu mais famoso paciente. Após um acidente de automóvel, Rom Houben passou 23 anos em um estado vegetativo persistente, e sua consciência não pôde ser detectada. Para ele, essa técnica pode ser a única chance que terá de se comunicar com o mundo externo.

Comunicação facilitada, mas falsa
A equipe do centro médico de Houben primeiro experimentou usar um teclado que ele poderia operar com o dedo indicador direito, que não é plenamente paralisado. Por um tempo, pareceu uma boa ideia e, após alguma prática, Houben conseguiu digitar bastante rapidamente. Ele fazia muitos erros, mas suas mensagens eram compreensíveis. Contudo, o método exigia a assistência de um terapeuta da linguagem, que ficava atrás dele para apoiar sua mão.

Laureys, o neurologista, disse que tinha eliminado a possibilidade que de fato seria o terapeuta que estava digitando. Mas depois se viu que seus testes não haviam sido suficientemente cuidadosos. Para obter resultados confiáveis é preciso fazer um procedimento bastante extenso. Os pacientes com lesões cerebrais traumáticas sérias nem sempre são capazes de seguir instruções difíceis. Eles também dormem muito e algumas vezes afundam em períodos extensos de delírio. Para eliminar resultados negativos falsos, testes repetidos precisam ser conduzidos ao longo de várias semanas.

Laureys não executou esses testes e, no final, concluiu-se que não era Houben quem digitava. Os testes determinaram que ele não tem força e controle muscular suficiente em seu braço direito para operar o teclado. Em seu esforço para ajudar o paciente a se expressar, a terapeuta da linguagem aparentemente tinha assumido o controle sem perceber. Esse tipo de auto-ilusão acontece toda vez quando esse método –chamado de “comunicação facilitada”- é usado. (Assim, as coisas que Houben disse ao Spiegel para um artigo publicado em novembro de 2009 tampouco foram autênticas.)

No teste mais recente, uma série de 15 objetos e palavras foi mostrada a Houben sem a presença de um terapeuta. Depois disso, ele deveria digitar a palavra correta –mas não conseguiu acertar nenhuma vez.

Isso não necessariamente desacredita todas as experiências de comunicação facilitada. Laureys analisou outro paciente paralisado que respondeu a todas as 15 perguntas corretamente, apesar de ter um dano cerebral comparável. “Isso significa que é realmente necessário verificar caso a caso”, diz Laureys.

Agora, o trabalho com Houben terá que recomeçar, mas uma coisa se sabe: as imagens da sua atividade cerebral revelam que se comporta de forma apenas ligeiramente diferente de um cérebro saudável. Portanto, os pesquisadores estão bastante convencidos que Houben está consciente –e se vêem na posição desesperada de uma equipe de resgate tentando escavar uma pessoa dos destroços.

Tentativas de usar um pedal, que Houben pressionava com o pé direito, também fracassaram. Ele conseguia pressionar o pedal, mas espasmos o impediam de tirar o pé depois. “Simplesmente teremos que encontrar outra forma de chegar a ele”, diz Laureys.

Aprisionado no cérebro
Na semana passada, também ficou claro que o caso de Houben não é isolado. Junto com o neurologista da Universidade de Cambridge Adrian Owen, Laureys fez scans cerebrais em 54 pacientes em EV e EMC. O procedimento, conhecido como ressonância magnética funcional, mostra quais áreas do cérebro estão ativas em tempo real.

Assim, pede-se aos pacientes que se imaginem jogando tênis ou andando em suas casas tão familiares. Imaginar cada uma dessas atividades ativa uma parte diferente do cérebro.

Cinco dos 54 pacientes se provaram capazes de pensar em cada cena quando pedido. Um paciente até conseguiu responder perguntas usando a técnica: quando se fazia perguntas como “Você tem irmãos?”, “O nome de seu pai é Thomas?” ou “O nome dele é Alexander?”- ele deveria se imaginar jogando tênis para “sim” e em sua casa para “não”. A região correta do cérebro acendeu-se a cada vez.

Esse homem em particular tem 29 anos de idade e, como Houben, foi vítima de acidente de carro. Há sete anos ele está em um estado vegetativo –inacessível. Mesmo após sua espetacular mensagem por meio da máquina de ressonância, os pesquisadores ainda não encontraram sinais externos de consciência. Um teste comportamental completo não observou reação alguma dele. De fato, parece estar completamente aprisionado em seu próprio cérebro.

O estudo, publicado no “New England Journal of Medicine”, provocou sensação no mundo todo. Apesar de casos extremos assim ocorrerem raramente, a possibilidade não pode mais ser eliminada para qualquer paciente em estado similar.

Até agora, somente a máquina de ressonância magnética funcional pode oferecer alguma certeza. “Contudo, uma máquina dessas custa US$ 5,5 milhões (em torno de R$ 10 milhões) e pesa cinco toneladas”, diz Birbaumer, pesquisador em Tübingen. “Isso não ajuda na vida diária em um asilo ou em casa.”

Buscando outras formas de comunicação
De qualquer forma, o procedimento foi inteiramente inadequado para Rom Houben, na Bélgica. Uma tentativa terminou sem resultados utilizáveis porque os espasmos impediam que Houben mantivesse a cabeça parada. Para ele, o método que usa eletrodos para registrar as ondas cerebrais –como os usados nos experimentos de Marie Bruno- seria mais adequado.

Os primeiros estudos de Bruno com outros pacientes em estado vegetativo deram resultados razoavelmente animadores. Três de 13 pacientes puderam responder perguntas corretamente com uma frequência suficiente para tornar os resultados estatisticamente significativos. Mesmo assim, a técnica ainda está longe de dar meios confiáveis de comunicação. Além disso, não é fácil colar todos os sensores no lugar certo e calibrar precisamente o equipamento eletrônico. Os eletrodos têm que ser removidos após duas horas de uso, para impedir que a pele úmida fique irritada.

Niels Birbaumer espera ter resultados melhores usando eletrodos secos, que não entram em contato direto com a pele. Em vez disso, são colocados no cabelo da pessoa e podem ser usados pelo tempo que for desejado. Por enquanto, contudo, os sinais que esses eletrodos recebem são pouco claros. “Mas em um ano ou dois, a tecnologia deve estar pronta para os primeiros experimentos”, acredita Birbaumer.

É claro que já existe um método bem melhor, que envolve o implante dos eletrodos diretamente no cérebro. Essa técnica geralmente produz sinais maravilhosamente claros, mas ainda tem seus riscos. Por exemplo, há um perigo constante de infecção, que pode ser fatal em casos extremos. Sob essas circunstâncias, os pesquisadores se veem em um dilema ético difícil. Como diz Laureys: “É permissível furar o cérebro de alguém que não consegue dar seu consentimento?”

Tradutor: Deborah Weinberg

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