Os guerreiros do regime: Guarda Revolucionária mantém controle do Irã

Dieter Bednarz e Erich Follath

A Guarda Revolucionária do Irã, também conhecida como Pasdaran, é a base mais importante de apoio ao regime. A milícia poderosa reprime protestos, espiona membros da oposição e controla o programa nuclear. Ela é o alvo das novas sanções da ONU.

O grupo de laureados do Nobel, que inclui luminares como Betty Williams e Jody Williams, autor Wole Soyinka, e o economista James Heckman, assim como muitas importantes figuras dos campos de medicina, química e física, fizeram um apelo dramático em um anúncio de uma página publicado no “International Herald Tribune” no dia 9 de fevereiro: “Prezados presidentes Obama, Sarkozy, Medvedev, primeiro-ministro Brown e chanceler Merkel. Quanto tempo podemos ficar parados assistindo esse escândalo se desenvolver no Irã?”

  • Abedin Taherkenareh/EFE

    Durante a comemoração aos 31 anos da Revolução Islâmica no último dia 11, iranianos mostram apoio ao presidente Mahmoud Ahmanidejad

 Em seu apelo, os 44 prêmios Nobel pediram aos líderes mundiais a reagirem às atrocidades do regime iraniano e as suas “ambições nucleares irresponsáveis e absurdas”, com sanções mais duras, e a darem seu total apoio à oposição no Irã. “Eles merecem”, termina a carta aberta. O anúncio foi pago pela fundação de direitos humanos do sobrevivente do Holocausto Eli Wiesel, vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1986.

 Vários políticos reagiram prontamente ao apelo incomum, cada um de sua forma. O secretário de defesa norte-americano, Robert Gates, disse que a única opção que restava era aplicar pressão no Irã, enquanto o ministro de relações exteriores da França, Bernard Kouchner, disse: “Como negociações são impossíveis, restam somente as sanções”. Políticos israelenses e o influente senador independente norte-americano Joe Liberman apoiaram uma solução militar. Parece que o conflito nuclear com Teerã subiu mais um nível.

Gato e rato
A carta foi precedida em uma semana de montanha-russa que começou com a indicação surpreendente do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad de que estaria disposto a negociar. Contudo, quando o ministro de relações exteriores Manouchehr Mottaki estabeleceu novas condições para um acordo, reforçou a impressão da Conferência de Segurança em Munique de que o Irã estava novamente brincando de gato e rato com o Ocidente e planejava dar continuidade ao seu programa nuclear militar suspeito.

 Ahmadinejad suspendeu os esforços de negociação. Ele instruiu seus cientistas a aumentarem o enriquecimento de urânio 3,5%, teoricamente para produzir isótopos para propósitos médicos. Apesar das armas nucleares exigirem urânio enriquecido a 90%, a produção de urânio enriquecido a 20% que agora foi aprovada “leva Teerã um passo mais perto do material físsil em grau de armamento”, diz o especialista norte-americano David Albright, observando que agora falta aos cientistas iranianos “apenas a décima parte do caminho” para fazerem uma bomba.

Será que sanções podem impedir os agitadores iranianos de construírem uma bomba, ou será que o mundo terá que conviver com o Irã como potência nuclear? Os governantes em Teerã já sobreviveram a três rodadas de sanções da ONU sem qualquer efeito aparente, o que suscita indagações de quais seriam sanções “inteligentes” que penalizassem fortemente os representantes do governo enquanto prejudicassem o menos possível o povo iraniano.

 Sob a presidência da França, o conselho de segurança da ONU vai iniciar negociações sobre a questão na próxima semana e deve aprovar as sanções antes do final de março. As perspectivas de envolver Moscou parecem boas, mas a participação da China é questionável, após ter assinado bilhões dólares em acordos de recursos naturais com Teerã.

 O braço armado do regime
A única coisa que está clara é o alvo das sanções. Elas têm a intenção de derrubar uma organização poderosa e envolta em segredo: o Exército dos Guardiões da Revolução Islâmica, Sepah-e Pasdarna-e Enghelab-e Islami, que vem defendendo a teocracia contra seus inimigos - inclusive oponentes domésticos- nos últimos 30 anos. Como um polvo, a Pasdaran, também conhecida como Guarda Revolucionária, tem braços estendidos para todos os centros de poder iranianos. Controla setores econômicos importantes, inclusive a indústria nuclear, e é mais eficaz do que o exército regular. Onde quer que vá, age como um braço estendido do regime.

 A força de elite demonstrou seu poder novamente na última quinta-feira (11) quando caçou incansavelmente membros da oposição que estavam usando a propaganda do governo em torno do 31º aniversário da Revolução para fazer manifestações contra o regime. O líder da oposição Mehdi Karroubi foi atacado. A Pasdaran não tem misericórdia quanto ao legado do falecido aiatolá Ruhollah Khomeini.

Foi o próprio Khomeini, o homem que derrubou o xá, que determinou o estabelecimento da Guarda Revolucionária no dia 5 de maio de 1979. Com esse “exército do povo”, ele quis criar um contrapeso ao militares, que tinham sido patrocinados pelo xá Mohammad Reza. Diferentemente dos soldados, que tendem a ser seculares, os membros Guarda Revolucionária são extremistas religiosos e defensores jurados de seu líder.

 Segunda parte: “Um dos cartéis mais poderosos do mundo”
Mohsen Sazegara, 55, foi aliado próximo de Khomeini e um dos líderes originais da Pasdaran. Atualmente em exílio nos EUA, ele é o dos mais duros críticos da organização. O plano original era estabelecer um grupo de 500 oficiais que liderariam cerca de meio milhão de voluntários, diz Sazegara. Hoje, contudo, a Guarda Revolucionária é muito mais do que apenas uma milícia. “A Pasdaran é uma mistura única de exército, milícia, organização terrorista e máfia -um Estado dentro de um Estado”, disse ele ao “Spiegel”.

 A ascensão da Pasdaran para se tornar o que Sazegara chama de “um dos cartéis mais poderosos do mundo” começou em 1981, sob o comando de Mohsen Rezai, que chefiou a Guarda Revolucionária por 16 anos. O general tirou vantagem da guerra com o Iraque para tornar a milícia um exército auxiliar extremamente bem armado. A organização logo montou seu próprio serviço de inteligência, que coletava informações sobre os críticos do regime e perseguia suspeitos de subversão.

 A Força Quds, nome árabe de Jerusalém, tornou-se lendária e ainda é responsável pelas operações no território inimigo hoje. O presidente Ahmadinejad foi membro da força na guerra contra Saddam Hussein e acredita-se que liderou as operações na região curda. A Força Quds também é suspeita do assassinato de membros da oposição no exterior. O grupo opera com outras organizações extremistas, incluindo a Hezbollah no Sul do Líbano.

 O general mais poderoso do Irã
Desde o início, um homem chefiou a Pasdaran e promoveu sua ascensão ao poder: o aiatolá Khamenei, representante pessoal de Khomeini e seu sucessor, que foi o líder supremo do Irã pelos últimos 20 anos. Ele reconheceu logo que a Guarda Revolucionária poderia se tornar sua fonte mais importante de apoio e garantiu-lhe privilégios desde o início de seu mandato.

 A Pasdaran hoje conta com 125 mil homens, um terço do tamanho do exército. Ainda assim, seu líder, Mohammad Ali Jafari, é indiscutivelmente o general mais poderoso do país. Ele também controla 300 mil reservistas e, mais importante, os fanáticos da milícia voluntária Basij, com cerca de 100 mil membros. Em tempos de crise, contudo, a Basij consegue reunir até um milhão de ativistas. É essa “polícia moral” que, sob o comando da Pasdaran, tem sido mais ativa nos ataques violentos contra oposição desde o último verão.

 O general se tornou a estrutura do regime. Diferentemente de seus colegas no exército regular, Jafari também controla um império econômico gigantesco. A Pasdaran sequestrou brutalmente a economia de seu próprio país, com o apoio de seu líder Khamenei. Ninguém sabe quantas empresas a Guarda Revolucionária já domina, mas o co-fundador Mohsen Sazegara estima que a guarda detenha “mais de 100 empresas diferentes” - desde companhias de exportação de artigos para o lar até fabricantes de peças de automóveis. A Pasdaran teria mais de 500 escritórios de empresas iranianas no mundo todo.

 De acordo com o grupo de oposição no exterior chamado Mujahedeen do Povo do Irã, a Guarda Revolucionária controla mais da metade de todas as importações e quase um terço das empresas de exportação do Irã -o que não inclui seus domínios no ramo lucrativo do petróleo, com lucros anuais estimados em US$ 5 bilhões (em torno de R$ 10 bilhões). Convenientemente, ela também controla o maior porto de contêineres do país, Bandar Abbas, e o aeroporto da capital, Teerã.

 Interesses lucrativos
Um centro lucrativo do conglomerado comercial e industrial da Pasdaran é a Khatam Al-Anbiya, uma empresa de construção que emprega e paga 55.000 membros da Pasdaran e da Basij. A empresa começou seus negócios abrindo estradas e expandindo posições militares na guerra e depois construiu quartéis para o exército e pistas de pouso para a força aérea. Hoje, a Khatam é um conglomerado com cerca de 800 holdings e afiliadas, e com vendas anuais estimadas em US$ 7 bilhões. Na quarta-feira da semana passada, os EUA expandiram suas sanções contra a Khatam para que incluíssem quatro subsidiárias da Khatam.

 Para entrar no altamente lucrativo ramo de petróleo, a Pasdaran não se esquivou de travar pequenas guerras privadas. Empresários iranianos em Teerã ainda se lembram como, em agosto de 2006, a Guarda Revolucionária pegou um navio militar e invadiu a plataforma de perfuração Orizont. A maior produtora de petróleo privada iraniana abandonou o poço e, a partir dali, os lucros do petróleo da Orizont foram diretamente para os cofres da Pasdaran.

 No último outono, os líderes da milícia descobriram como a telecomunicação poderia ser uma área lucrativa. Um consórcio afiliado à Guarda Revolucionária adquiriu uma participação majoritária na Telecom Irã. Como resultado, a guarda hoje controla uma rede fixa, duas empresas de telefonia móvel e um provedor de Internet e hoje está expandindo seu papel em um dos mercados de maior crescimento no país.

 Acima de tudo, contudo, a Guarda dominou a política em um “golpe militar gradual”, segundo o cientista político de Teerã Davoud Bovand. Quando muitos iranianos depositaram suas esperanças para a liberalização ao reformista Mohammad Khatami, que foi presidente do Irã de 1997 a 2005, a Guarda, com a bênção de seu patrono Khamenei, preparou-se para contra-atacar e, em 2005, ajudou Ahmadinejad a se tornar presidente. Em seu primeiro mandato, 5 dos 21 ministérios foram para membros da Pasdaran, e o grupo recebeu contratos lucrativos do governo, inclusive a construção de um duto do Paquistão. No novo governo de Ahmadinejad, os membros da Guarda Revolucionária receberam 13 cargos no gabinete.

 Responsabilidade nuclear
Quem administra a terceira maior reserva de petróleo do mundo é o ministro do Petróleo, Maoud Mir-Kazemi, ex-chefe de logística da Guarda Revolucionária que já exibia pouca aptidão durante seu mandato anterior de quatro anos como ministro do comércio. Acredita-se que a Pasdaran recentemente desviou US$ 7 bilhões da receita e petróleo.

 A Pasdaran também controla um terço do parlamento iraniano, o Majlis. Ali Larijani, presidente do parlamento e ex-negociador nuclear do Irã, foi alto oficial da Guarda Revolucionária, assim como seu sucessor na negociação nuclear, Saeed Jalili. Faz sentido que os dois tenham sido membros da Pasdaran, já que a organização tem uma participação particularmente grande nos projetos nucleares.

 As empresas da Guarda são responsáveis pela construção de túneis secretos, como nas instalações de enriquecimento perto de Qom. Seus cientistas estão enriquecendo urânio, suas tropas de elite estão protegendo as usinas nucleares e seus líderes advertiram os EUA e seu aliado de Israel contra ataques. “Se os caças conseguirem fugir do sistema de defesa iraniano, nossos mísseis de terra vão destruir suas bases antes que pousem”, disse o chefe da força aérea da Pasdaran, Amir Ali Hajizadeh. O programa nuclear secreto do Irã, assunto de recente reportagem do “Spiegel”, é dirigido por Mohsen Fakhrizadeh, alto oficial da Guarda Revolucionária.

 Novas sanções
As sanções da ONU podem ir além das medidas punitivas anteriores afetando pessoalmente altos membros da Guarda Revolucionária -na forma de proibição de viagem para países ocidentais e congelamento de contas bancárias. Sanções contra empresas de propriedade da Pasdaran podem impedir os investimentos urgentemente necessários para a indústria de petróleo, enquanto um congelamento geral dos bancos pode até ameaçar o país. Muitos iranianos já estão esvaziando suas contas e a inflação aparentemente está em 25%.

 No passado, nem novas ameaças de sanções, nem protestos em massa e batalhas nas ruas puderam deter os extremistas em torno de Khamenei e seus partidários. Em seu discurso de propaganda no aniversário da Revolução, Ahmadinejad anunciou desafiadoramente novos sucessos: “Graças a deus”, disse ele, o primeiro lote de urânio já foi enriquecido a 20%.

 

Tradutor: do alemão por Christopher Sultan e do inglês por Deborah Weinberg

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