Oposição no Irã corre uma maratona, não uma prova de velocidade, diz analista

Gregor Peter Schmitz

Em Washington (EUA)

Após mais de um ano tentando um diálogo positivo com o Irã, os primeiros sinais de descontentamento foram ouvidos dentro do governo Obama. Em uma entrevista para a “Spiegel Online”, o especialista em Irã, Karim Sadjadpour, discute os esforços para a futura diplomacia com um Estado que não cede, sanções e o potencial de um ataque militar. 

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    Karim Sadjadpour, pesquisador e analista com foco no Irã

Spiegel Online: A secretária de Estado americana, Hillary Rodham Clinton, disse recentemente que, à medida que a Guarda Revolucionária ganha mais e mais poder, o Irã está caminhando para uma “ditadura militar”. O senhor compartilha o ponto de vista dela? 

Karim Sadjadpour: O Irã certamente lembra mais uma ditadura militar do que uma república islâmica. Entretanto, eu não diria que a Guarda Revolucionária suplantou o líder supremo Ali Khamenei ou o presidente Mahmoud Ahmadinejad. Eu acho que ambos guiaram a transição do Irã para uma ditadura militar. Khamenei é o comandante-em-chefe da Guarda Revolucionária; ele escolhe a dedo seus principais comandantes e os muda com frequência. Até agora, eu não vi nenhuma evidência da Guarda Revolucionária sendo desleal a ele. 

Spiegel Online: A declaração de Clinton não seria na verdade uma expressão da frustração dentro do governo Obama? Afinal, após outro ano de “diálogo” americano, nenhum progresso foi obtido.

Sadjadpour: Não na questão nuclear. Mas a não disposição do Irã de retribuir os esforços americanos expôs Teerã como o lado intransigente nesta equação –não Washington. A posição americana e europeia nunca foi tão coesa e, em conversas privadas, até mesmo os diplomatas russos e chineses reconhecem isso. Mais importante, o governo iraniano está no meio de sua maior crise existencial desde a revolução de 1979. O engajamento americano exerceu um papel importante no aprofundamento das divisões internas do Irã, tanto entre as elites políticas como entre a população e o regime.

Spiegel Online: Os Estados Unidos agora aparentemente se concentrarão em “sanções direcionadas”, como as restrições às atividades de negócios da Guarda Revolucionária. Esses passos são baseados no entendimento de que “sanções debilitantes” não receberiam apoia da Rússia e/ou da China?

Sadjadpour: A China e a Rússia ainda se opõem instintivamente ao conceito de sanções, mas a intransigência iraniana as deixa sem muitas opções. No meu entender, as sanções do Conselho de Segurança da ONU são mais importantes no aspecto político do que econômico –para projetar unidade internacional e tornar mais difícil para o Irã emoldurar isto como sendo uma luta entre o Islã e o Ocidente.

Spiegel Online: A China no final concluirá que sanções mais duras seriam melhores para ela mesma? Afinal, em caso de um ataque militar contra Teerã, os preços do petróleo subiriam em todo o mundo. Isso seria caro para a China, que é muito dependente de energia estrangeira.

Sadjadpour: Eu acho que a China concluirá no final que os custos potenciais de apoiar sanções diluídas no Conselho de Segurança da ONU são menores do que os custos potenciais de ser a única contrária. Além disso, Teerã não poderia retaliar facilmente, cortando seus laços políticos e comerciais com Pequim. Eles se colocaram em uma posição na qual são incrivelmente dependentes da China.

Spiegel Online: Do ponto de vista do governo Obama, sanções mais duras também não seriam uma tentativa de silenciar as pessoas nos Estados Unidos, que estão defendendo medidas ainda mais agressivas, como um ataque militar?

Sadjadpour: Enquanto a oposição interna no Irã continuar agitada, há menos probabilidade de um ataque militar. Mas se, até 2011, o movimento de oposição perder força e o Irã seguir desafiadoramente em frente –na direção de capacidade de armas– a probabilidade de um ataque aumentará significativamente. Infelizmente.

Spiegel Online: O senhor acha que os americanos considerarão sanções mais abrangentes, como restrições à gasolina? Alguma delas poderia trazer o atual regime iraniano de volta à mesa de negociação?

Sadjadpour: Apesar da pressão do Congresso, eu não acho que o governo Obama buscará sanções mais abrangentes a curto prazo. É uma coisa trazer o Irã à mesa de negociação e outra forçá-lo a cumprir compromissos mais significativos, obrigatórios, que aliviem as preocupações a respeito de suas ambições nucleares. Eu acho a primeira muito possível, mas a segunda muito improvável. Sanções ferirão os líderes iranianos, mas não alterarão seus cálculos nucleares. O país está sendo dirigido por um grupo de linhas-duras que é muito bom em escaladas, mas muito ruins em diminuir a escalada.

Spiegel Online: Sanções mais abrangentes ajudariam ou prejudicariam a oposição –ou o Movimento Verde– dentro do Irã?

Sadjadpour: Sanções mais abrangentes que prejudiquem o povo iraniano seriam contraproducentes para o Movimento Verde. Eu acho que é fundamental não causarmos mal e sanções sobre a gasolina teriam consequências imprevisíveis. Apesar de eu questionar a noção de que sanções unirão as pessoas ao lado do governo –não foi o que aconteceu nas últimas décadas em que sanções foram aplicadas– também é verdade que o Irã enfrentará grandes desafios econômicos nos próximos meses. Sanções mais abrangentes poderiam oferecer para Ahmadinejad um pretexto para sua gestão desastrosa da economia.

Spiegel Online: O senhor ficou desapontado com o baixo comparecimento da oposição no aniversário da Revolução Islâmica, na semana passada? Isso pode ser visto como uma vitória para o regime?

Sadjadpour: Eu não acho que temos um quadro completo do que aconteceu durante o aniversário. Vídeos privados que assisti, assim como imagens do Google Earth, parecem sugerir que o governo exagerou significativamente o tamanho e entusiasmo de suas multidões. Entretanto, eu acredito que foi um erro tático da oposição aumentar demais as expectativas. Eles sabem que estão correndo uma maratona, não uma prova de velocidade, e que o regime teve semanas de preparação visando lotar a praça com pessoas leais e impedir violentamente a presença de simpatizantes da oposição. Ao ser otimista demais, a oposição baixou desnecessariamente o moral de seus simpatizantes.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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