Mulheres polonesas têm sucesso na era pós-comunista

Jan Puhl

As mulheres estão revolucionando a sociedade profundamente católica da Polônia. Elas não só encontraram o sucesso econômico, abrindo mais empresas do que suas colegas em qualquer lugar da Europa, mas também estão exigindo seu lugar na política.

Ewa Wieczorek sabe que irá enfrentar duras críticas quando publicar a reportagem em sua revista. Trata-se de uma matéria sobre as guardas femininas no Museu Stalin em Gory, Georgia. Durante o dia, elas tomam conta das camisas e cachimbos do ditador e, durante a noite, sonham que ele virá até suas camas.

Stalin mandou matar quase 200 mil poloneses e a matéria deve desencadear uma enxurrada de cartas ao editor. Mas Ewa Wieczorek, uma mulher de 43 anos de idade com cabelos curtos e ar de menina, está acostumada com as críticas. Ela diz que quer saber o que motiva essas mulheres a continuarem idolatrando um assassino de massas ainda hoje.

Wieczorek é editora-chefe da “Wysokie Obcasy” (“Salto Alto”), a principal revista feminina da Polônia. A revista, publicada aos domingos como suplemento do jornal diário “Gazeta Wyborcza”, pode ser descrita como um cruzamento de uma revista intelectual de cultura com a “Cosmopolitan”. O “Gazeta Wyborcza”, com uma circulação de cerca de 500 mil exemplares, foi o primeiro jornal não censurado do bloco do Leste em 1989.

Oito mulheres editoras escrevem para a Wysokie Obcasy, abordando assuntos que há muito eram tabu na Polônia. Os artigos descrevem pessoas que traem seus cônjuges e mulheres que assumem profissões tradicionalmente masculinas. Elas falam sobre aborto, pornografia e sexo durante a gravidez. Elas escrevem manchetes como “Uma Mulher Não É Uma Lâmpada”, um texto de opinião no qual a autora argumenta que as mulheres não deveriam ter que satisfazer às demandas de sexo, como uma lâmpada que basta ser acesa.

Estes são assuntos que ainda chocam muitas pessoas num país profundamente católico como a Polônia.

"Emancipação-turbo”
A redação fica num prédio minimalista de aço e vidro no bairro de Mokotów em Varsóvia. Persianas de madeira cobrem as janelas e mountain bikes caras ficam estacionadas nos corredores. O sucesso da Wysokie Obcasy é um sinal da imensa mudança social que houve na Polônia desde a queda do comunismo. Nos últimos 20 anos, as mulheres polonesas alcançaram o mesmo que as mulheres ocidentais levaram muito mais décadas para alcançar. Para as mulheres na Polônia, o fim do comunismo se traduziu num tipo de emancipação-turbo.

Segundo as estatísticas, as mulheres polonesas estão entre as mais modernas da Europa. Elas estão estão no comando de uma em cada três novas empresas, deixando a Polônia à frente de muitos outros países da União Europeia. Elas ocupam mais de um terço das vagas médias de gerência, um recorde que é batido apenas pela França, Látvia e Lituânia. E a taxa de natalidade polonesa, que por muito tempo foi uma das mais altas da Europa, é hoje uma das mais baixas, com 1,4 filhos por mulher. “Não estamos mais dispostas a nos amarrar ao papel de mãe”, diz Wieczorek.

A Wysokie Obcasy fala sobre mudanças das quais a própria Wieczorek é um exemplo. Ela tem um filho de 22 anos, de seu primeiro casamento, que pretende frequentar a universidade. Ela se divorciou do pai do menino depois do colapso do bloco soviético, um comportamento escandaloso para os padrões poloneses da época.

Os comunistas não fizeram muita coisa para mudar a imagem tradicional da mulher na Polônia. Depois da guerra, esperava-se que as mulheres tivessem filhos, e depois disso os comunistas as colocaram sentadas em tratores, mandaram-nas para universidades e as fizeram trabalhar em minas.

“Não tinha nada a ver com autorrealização, mas sim com dever”, diz Wieczorek. “A mulher polonesa tem que trabalhar, embora ainda seja a principal responsável para cuidar dos filhos e do lar.”

Mulheres em rede
Quando o bloco soviético entrou em colapso, a antiga ordem caiu, e a transição para o capitalismo destruiu totalmente os antigos papéis. Hoje, muito poucas famílias com mais de um filho podem sobreviver com apenas um salário. Como resultado, muitas mulheres são obrigadas a criar suas próprias empresas, desde agências de tradução até salões de cabeleireiro e lojas. Esses são tipos de negócios mais compatíveis com os filhos, um fator importante num país como a Polônia, onde a pré-escola e o jardim da infância são raros.

Mas as mulheres também ocupam posições-chave hoje em dia. Desde 1999, a Confederação de Empregados Privados é chefiada por uma mulher, Henryka Borhniarz. A prefeita de Varsóvia, Hanna Gronkiewicz-Waltz, professora de direito, comandou o banco nacional do país durante oito anos difíceis de transformação.

Uma mulher também é encarregada da Evip, uma das empresas de consultoria de administração mais bem sucedidas do país. Entre as conquistas da empresa estão introduzir a Coca-Cola, a Shell e investidores da Arábia Saudita no mercado polonês. Apenas dez anos depois da queda do comunismo, um grupo de mulheres de sucesso desenvolveu sua própria rede, o “Clube das 22”.

Os quase dois milhões de poloneses que emigraram nos últimos anos desempenharam um papel importante nessa revolução. A maioria trabalhou na Escandinávia, Grã-Bretanha ou Irlanda, e agora cada vez mais estão retornando à Polônia. Eles incluem mulheres que aprenderam a se virar enquanto estavam no exterior.

Ícone independente
A Dra. Irena Eris, 60, um ícone das mulheres independentes da Polônia, inclina-se para trás numa poltrona de couro em seu escritório no último andar de sua mansão em Pulawska Street. As paredes são pintadas de champanhe, e os móveis são de madeira nobre.

Eris tem um corte de cabelo no estilo da secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton e usa uma blusa cinza com uma saia na altura do joelho. “Muitas mulheres aqui acreditaram por muito tempo que não tinham o direito de serem bem sucedidas”, diz ela, acrescentando que as mulheres polonesas tiveram, por muito tempo, um complexo de inferioridade.

Hoje ela é dona da companhia de cosméticos de maior sucesso na Polônia, e o Wall Street Journal apontou-a como uma das dez executivas mais eficientes da Europa Ocidental e Central. A companhia leva o seu nome, e potes e bisnagas com as palavras “Dra. Irena Eris” impressas hoje podem ser encontrados em milhões de banheiros poloneses. Ela exporta para 20 países, e os cremes Eris para a pele logo se tornarão disponíveis em algumas farmácias Rossman na Alemanha.

Eris formou-se em farmacologia na Universidade Humboldt em Berlim no começo de 1978. Quando voltou à Polônia, o chefe de Estado comunista do país, o general Wojciech Jaruzelski, ordenou a supressão do movimento Solidarnosc. Os poloneses profundamente desapontados se retiraram para a vida privada.

Eris, entretanto, alugou dois quartos no Piaseczno, um subúrbio de Varsóvia, e deixou seu emprego seguro numa empresa farmacêutica do governo. Diz ela: “Eu queria produzir algo especial, e aplicar todo meu conhecimento nisso”. O resultado foi seu primeiro creme facial Dra. Irena Eris.

De suspeita a exemplo
Quando ela introduziu seu produto no mercado, não tinha muito mais do que pickles e cigarros “Sport” nas prateleiras das lojas polonesas. Seu marido transportava os produtos de loja em loja no porta-malas de seu Fiat Polski. Em 1989, ela tinha 12 funcionários, e hoje emprega mais de 800 pessoas. Eris produz cremes e xampus, que fornece para farmácias e lojas de cosméticos. A companhia também tem dois hotéis-spa, incluindo o primeiro spa cinco estrelas da Polônia em Mazuria, com 35 salas, tratamentos ayurvédicos e banhos Cleópatra.

“De repente eu me tornei uma mulher de negócios de sucesso”, disse. “Deixei de ser uma mulher de negócios considerada suspeita e perseguida pelo governo para ser um exemplo – porque eu dei empregos às pessoas e porque sou mulher.” Mas mesmo Eris é a primeira a admitir que embora os antigos papeis de gênero sejam algo do passado, a Polônia ainda está bem longe da igualidade de direitos para as mulheres.

A Igreja Católica e a maioria dos poloneses que moram fora das principais cidades ainda veem o novo papel da mulher como uma afronta à ordem nacional e divina. O catolicismo continua sendo um ingrediente-chave da identidade polonesa. Entre os poloneses, 90% são batizados na Igreja Católica, e muitos estão convencidos de que a única razão pela qual seu país continua existindo é que a fé permitiu que ele prevalecesse diante de governantes estrangeiros alemães e russos.

As leis de aborto na Polônia, que estão entre as mais rígidas da Europa, também são um legado do catolicismo. Elas permitem o aborto em poucos casos excepcionais, incluindo estupro, deformidades severas e risco de vida para a mãe. Entretanto, cerca de 80 a 200 mil abortos são realizados ilegalmente todos os anos. As mulheres de áreas próximas da fronteira alemã viajam para a Alemanha, e na Polônia muitos médicos interrompem a gravidez em troca de dinheiro. Um documentário sobre o assunto está chamando a atenção do público nos cinemas poloneses.

Protestos nas ruas
A escritora Agnieszka Graff, uma das mentoras do movimento das mulheres polonesas, é uma mulher magra e atraente que fala rápido. Ela está acostumada a ser interrompida pelos homens, o que ela detesta.

Ela diz que ficou chocada quando voltou para casa em 1995, depois de estudar nos Estados Unidos e na Inglaterra. “Até no mundo acadêmico, os homens poloneses conversam com as mulheres exclusivamente para flertar. Conversas sérias são impossíveis”. Hoje em dia, diz Graff, os poloneses minimizam a violência doméstica afirmando que pelo menos os homens poloneses ainda cumprimentam as mulheres beijando-as na mão – uma indicação, eles insistem, de um nível de refinamento que falta aos alemães.

Graff decidiu levar sua oposição para as ruas. O primeiro protesto aconteceu há 11 anos, em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, quando 200 mulheres marcharam no Boulevard New World em Varsóvia. A marcha do ano passado atraiu 6 mil mulheres. De acordo com Graff, a ascensão da Polônia para a União Europeia em 2004 foi um passo importante, porque obrigou o país a adotar uma linguagem contrária à discriminação e ao abuso sexual em suas leis trabalhistas.

Graff está satisfeita com o sucesso nos últimos anos. A maior parte do que ela ainda desaprova hoje também se aplica ao resto da Europa. Por exemplo, as mulheres em média ainda recebem menos do que os homens pelo mesmo trabalho, e elas raramente atingem os níveis mais altos nas carreiras que escolheram. Mas Graff também sabe que ainda há forças influentes na sociedade polonesa que veem o novo papel da mulher como uma ameaça e querem evitar quaisquer mudanças nas leis de aborto no futuro próximo.

Voz política
Isso fez com que Graff e muitas outras mulheres demandassem uma voz mais forte na política. Elas querem um sistema de quotas, segundo o qual os partidos seriam obrigados a reservar para as mulheres pelo menos metade dos espaços nas listas eleitorais para as vagas nos parlamentos locais e na câmara baixa do parlamento em Varsóvia, o Sejm. As ativistas já coletaram quase 150 mil assinaturas para apoiar seu movimento.

A direita polonesa vê iniciativas como esta como uma ameaça à harmonia nacional. Bispos argumentam que a mãe polonesa vem zelando pela existência da nação há séculos, e que ela não deveria combater os homens para obter novos direitos agora.

A “paridade”, como é chamada a quota na Polônia, “divide a sociedade mais ainda em grupos”, diz um comentarista do jornal Rzeczpospolita de Varsóvia.

Mas as pesquisas mostram, com surpresa, que a maioria da população – 70% das mulheres e 52% dos homens – é a favor da quota. Sociólogos atribuem isso à má reputação dos membros do parlamento polonês, dominado até agora por homens, que são considerados corruptos e famintos por poder. Muitos poloneses estão aparentemente contando com as mulheres para melhorar a cultura política.

Tradutor: Eloise De Vylder

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