"É uma questão de sobrevivência da Grécia", diz o primeiro-ministro grego sobre plano para salvar o país

Todos os olhos estão voltados para a Grécia, enquanto o país tenta desesperadamente reduzir seu déficit de orçamento e dívida pública perigosamente alta. O Spiegel conversou com o primeiro-ministro Georgios Papandreou, 57, sobre a corrupção em larga escala, a evasão de impostos e o esforço para colocar seu país de volta nos trilhos. 

  • Hartmut Schwarzbach/Argus

    O primeiro-ministro grego, Georgios Papandreou, afirma que gostaria de refazer a Grécia em um novo modelo econômico para a zona do euro e para o mundo

Der Spiegel: Senhor primeiro-ministro, o seu país prejudicou o euro e mergulhou a Europa em uma crise séria. Qual é a gravidade da situação para a Grécia?

Papandreou: Nosso maior déficit não é financeiro, e sim de credibilidade. Sabemos que enfrentamos grandes problemas e que, como gregos, somos culpados desses problemas. Erros sérios foram feitos no passado, mas os cidadãos nos elegeram porque queriam mudança. Queremos restaurar a fé na política colocando nossa casa em ordem. 

Der Spiegel: A Grécia falsificou as estatísticas por anos para esconder do resto da Europa sua enorme dívida pública de 271 bilhões de euros (cerca de R$ 670 bilhões) e seu déficit orçamentário de 12,7% do PIB. Como isso foi possível e por que ninguém notou?

Papandreou: É uma boa pergunta que nós também nos fazemos. Demos início a uma investigação parlamentar. Ninguém poderia ter imaginado a extensão dos danos. 

Der Spiegel: Quem é responsável por isso? Apenas o ex-diretor do escritório de estatística do governo, que todo mundo está culpando? Ou a responsabilidade é também de seu predecessor, Kostas Karamanlis?

Papandreou: É claro que não se pode apenas responsabilizar um funcionário do escritório de estatística. Ele era nomeado político do governo anterior. Mas eu não quero julgar antes das investigações serem concluídas. 

Der Spiegel: O senhor também acusou a Comissão Europeia em Bruxelas de ter feito vista grossa.

Papandreou: A UE deveria ter fiscalizado com mais rigor no passado para garantir que o pacto de estabilidade de fato estava sendo observado –também por nós. No futuro, devemos fornecer ao departamento de estatísticas europeu acesso direto aos dados dos Estados membros. Propusemos isso, mas nem todos os países quiseram tanta transparência. 

Der Spiegel: O senhor está tentando culpar a UE para desviar parte da responsabilidade da Grécia?

Papandreou: Não, não é minha intenção dizer como a Europa foi ruim. A UE é uma organização única, mas precisa estudar o caso de perto e ver como houve falha das instituições européias, parte do motivo por algo assim ter acontecido. E não pode acontecer novamente. 

Der Spiegel: Muitos políticos europeus e a mídia criticaram duramente seu país. Alguns estão até pedindo que a Grécia seja excluída da zona do euro.

Papandreou: Posso entender parte das críticas. Mas todos nós temos que tomar cuidado para não conduzir debates artificiais pela imprensa. Por exemplo, muitos políticos recentemente disseram em público que não vão oferecer um plano de resgate à Grécia. Nunca pedimos um plano de resgate. Mas se você diz isso, é como se nós tivéssemos pedido. Informações falsas desse tipo são muito perigosas, dada a situação frágil da economia mundial. 

  • Olivier Laban-Mattei/AFP - 15.dez.2008

    Manifestante aponta armade brinquedo durante protesto em Atenas (Grécia) contra a situação econômica do país e a violência policial do governo local

Der Spiegel: Mas o senhor entende que muitos alemães estão preocupados em ter que pagar pela falta de disciplina grega, particularmente após os fortes cortes sociais na Alemanha?

Papandreou: Entendo os cidadãos alemães, que estão eles mesmos passando por tempos difíceis. Mas não estamos pedindo o dinheiro da Alemanha, mesmo que algumas vezes seja retratado dessa forma. Sabemos que temos que nos ajudar a nós mesmos, assim como a Alemanha fez no passado. Como qualquer outro país, contudo, precisamos poder fazer empréstimos nos mercados sob condições normais, e precisamos do apoio da UE para isso. Se os empréstimos continuarem tão caros, nossa economia não vai funcionar e não poderemos implementar nossas reformas. 

Der Spiegel: O que o torna tão confiante que vai poder superar essa crise sozinho? Seus objetivos são incrivelmente ambiciosos, nenhum país na zona do euro conseguiu algo comparável.

Papandreou: Não acho que seja verdade. A Alemanha tinha metas muito ambiciosas e as alcançou... 

Der Spiegel: ...mas a Alemanha não teve que reduzir seu déficit orçamentário de 12,7% para 3% do PIB em três anos.

Papandreou: Isso de fato é difícil. Mas veja: se nosso país funcionasse bem, teríamos pouco espaço para cortes. Contudo, como há tanto desperdício em toda parte, também podemos economizar muito. 

Der Spiegel: Dê um exemplo.

Papandreou: Em um estudo no ano passado, a Oecd denunciou que os hospitais públicos gregos eram profundamente corruptos e concluiu que poderíamos economizar 30% dos custos, que é enorme. Os hospitais geraram um déficit de 7 bilhões de euros (aproximadamente R$ 17 bilhões) no ano passado. Imagine que quantia inacreditavelmente alta de dinheiro podemos economizar simplesmente introduzindo computadores nos hospitais. Até agora, houve pouco controle sobre a compra de medicamentos e equipamentos. Na Alemanha, um “stent” para cirurgias de coração custa cerca de 500 euros (R$ 1.230). Na Grécia, custa entre 2.000 e 2.500 euros (entre R$ 4.900 e R$ 6.200). O problema está na corrupção. 

Der Spiegel: Por que o Estado grego funciona tão mal?

Papandreou: Infelizmente, a corrupção é ampla nas agências do governo e em empresas públicas. Nosso sistema político promove o nepotismo e o desperdício de verbas. Isso minou nosso sistema jurídico e a confiança no funcionamento do Estado. Uma das consequências é que os cidadãos não pagam impostos. 

Der Spiegel: Em outras palavras, vocês praticamente têm que refazer o país todo. Como propõe fazer isso?

Papandreou: Temos que ver a crise como uma oportunidade para fazer as reformas necessárias. Já fizemos decisões importantes. Por exemplo, vamos reduzir os salários dos funcionários públicos, aumentar a idade de aposentadoria e aumentar o imposto sobre combustíveis. Estamos planejando uma reforma tributária que vai impor mais carga a quem ganha mais. Isso aumenta a justiça e nos permite combater a evasão de impostos.

Der Spiegel: Isso tudo parece bom. Mas como pretende combater a corrupção, o nepotismo e o emprego ilegal, problemas profundamente arraigados na sociedade grega?

Papandreou: Fazer política também significa educar as pessoas. É importante falar abertamente com nossos concidadãos e dizer a eles quais são nossos problemas e que temos que mudar algo. O povo percebeu nos últimos anos que a corrupção é um grande problema. Agora temos uma oportunidade histórica, com o governo e os cidadãos querendo mudança. 

Der Spiegel: O senhor realmente acredita que pode reeducar seus cidadãos?

Papandreou: Precisamos das duas coisas: palavras claras e medidas concretas. Por exemplo, vamos colocar todas as encomendas e contratos do governo na Internet. Isso vai nos tornar o país mais transparente da Europa. Queremos deixar de ser um mau exemplo e nos transformar em um modelo de comportamento. 

Der Spiegel: Como pretende, por exemplo, convencer os médicos ricos em Atenas a finalmente pagarem seus impostos e pararem de aceitar propinas –as chamadas “fakelaki”- de seus pacientes?

Papandreou: Vejo que você já aprendeu a palavra. De fato investigamos esses médicos. Alguns declaram uma renda anual de apenas 10.000 euros. É chocante. Eles devem esperar avaliações sistemáticas no futuro. Seus pacientes terão que ter recibos, porque as despesas médicas serão dedutíveis do imposto. Precisamos de uma mudança de consciência. Por esta razão colocamos vários exemplos dessas declarações de imposto de renda na Internet. Se vizinhos e pacientes virem como vivem essas pessoas, devem fazer perguntas no futuro. 

Der Spiegel: Outro problema é que um quarto dos trabalhadores gregos trabalha para o governo. O serviço público está inchado. O que poderá fazer para tratar esse problema?

Papandreou: Na Grécia, o serviço público serve praticamente ao mesmo propósito que o escritório de emprego na Alemanha. Isso leva ao nepotismo. Alguém que se torna chefe de departamento ou ministro contrata pessoas que conhece ou que votaram nele. Temos que reintroduzir o princípio da meritocracia. No futuro, o governo só vai contratar pessoas que passaram por um concurso rigoroso. Além disso, apenas um em cada cinco empregos que for esvaziado será preenchido. Já eliminamos de 30 a 40.000 posições temporárias. 

Der Spiegel: Contudo, está se formando uma resistência contra cada uma de suas reformas devido ao peso que colocam nos cidadãos. Uma greve geral está marcada para esta semana que poderá prejudicar o país. Como você pode resistir à pressão das ruas?

Papandreou: Todo mundo sabe que a coisa toda será muito dolorosa. É uma questão de sobrevivência para nosso país. Temos o apoio das pessoas neste esforço e os sindicatos sabem disso. Estou determinado a manter minha posição. 

Der Spiegel: Dois terços dos gregos entrevistados apoiam as medidas de corte de custos, sua popularidade pessoal é alta e o Partido Socialista tem atualmente um índice de aprovação de 48% -o mais alto em décadas.

Papandreou: Isso demonstra a vontade dos gregos de adotarem novas abordagens. É também uma mensagem para a Europa. A Grécia tem grande potencial, em energia verde por exemplo. Se limparmos a corrupção, também vamos atrair investidores. 

Der Spiegel: A Comissão Europeia não parece ter a mesma confiança nas medidas de corte de custos gregas. Quer ver algum progresso até meados de março, ou vai exigir emendas.

Papandreou: Acredito que Bruxelas primeiro quer ver que estamos de fato tomando medidas e que mantemos nossas promessas. Precisamos de tempo agora e vão fazer uma avaliação interna no mês que vem. Já estamos fazendo mais do que a Comissão exigiu. 

Der Spiegel: O senhor ainda está satisfeito com a participação da Grécia na zona do euro? Paul Krugman, prêmio Nobel de economia, descreveu a moeda comum como um erro, pois significa que países como a Grécia não podem mais combater déficits galopantes desvalorizando suas moedas.

Papandreou: O euro permitiu que nossas empresas obtivessem empréstimos baratos. Isso nos ajudou a alcançar crescimento alto de até 5%. Mas o euro também tem suas imperfeições, porque não temos uma política econômica verdadeiramente comum. A crise pode ser um ponto de virada histórico para a União. Temos que pensar sobre o papel que a zona do euro deve ter no futuro. Precisamos de mais cooperação, mais controle e mais consideração das diferentes situações econômicas dos Estados membros. Primeiro de tudo, contudo, temos que resolver nosso problema grego. 

Der Spiegel: É concebível que vocês deixem a zona do euro?

Papandreou: Não pensamos isso, e nenhum parceiro político sério na Europa está pensando nisso. Isso enfraqueceria grandemente o projeto comum. Além disso, quase não é possível em termos práticos. 

Der Spiegel: Três famílias governaram o país por décadas: Karamanlis, Mistotakis e Papandreou. O senhor é o terceiro primeiro-ministro da dinastia de sua família. Isso não é sintomático dos problemas da Grécia?

Papandreou: Em uma democracia, você é eleito pelo povo. Quando eu estava crescendo nos EUA e na Suécia, nunca pensei em me tornar político. Mas durante a ditadura militar, meu avô foi preso seis vezes, e meu pai, duas. Eu tive que me refugiar e não sabia se jamais retornaria à Grécia. Isso marcou minha juventude. Se minha família e meu país não tivessem essa história, talvez eu fosse professor em algum lugar hoje. 

Der Spiegel: O senhor tem uma enorme tarefa à frente. O senhor se sente como Sísifo fazendo uma pedra rolar montanha acima, ou como Hércules limpando os estábulos?

Papandreou: Não me sinto como Sísifo. Não é minha filosofia. Certamente é uma tarefa hercúlea. Acima de tudo, me lembro da Odisseia. Em Homero, os viajantes são transformados durante sua difícil jornada –e nós também precisamos ser um povo diferente quando chegarmos em nosso destino. 

Der Spiegel: Obrigado, primeiro-ministro, por dedicar seu tempo para conversar conosco.

Tradutor: Deborah Weinberg

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