União Europeia quer impor sanções maciças contra o Irã

Hans-Jürgen Schlamp

Em Bruxelas (Bélgica)

A União Europeia está preparando sanções duras contra os setores financeiro e energético do Irã, segundo uma lista confidencial de propostas elaboradas para os ministros das Relações Exteriores da organização e que foi obtida por “Spiegel Online”. As medidas, que têm como objetivo obrigar o Irã a recuar na questão nuclear, poderão ter um impacto drástico sobre a economia do país.

A declaração dos ministros das Relações Exteriores da União Europeia após a sua reunião em Bruxelas na última segunda-feira soou inofensiva: a UE manteria sua abordagem do tipo “rota dupla”, ameaçando impor sanções econômicas e, ao mesmo tempo, acenando com negociações para impedir que o Irã desenvolva armas atômicas.

Até o momento, no entanto, essa estratégia não funcionou. O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad anunciou na segunda-feira planos para a construção de duas centrais de enriquecimento de urânio, apesar das advertências feitas pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), os Estados Unidos e a Europa. “As potências mundiais não devem se preocupar, já que todas as nossas atividades nucleares são estritamente supervisionadas pelos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA)”, declarou o ministro iraniano das Relações Exteriores na terça-feira (23) em Teerã.

Mas tais garantias não surtem mais efeito com os europeus. A União Europeia deseja intensificar maciçamente a pressão sobre Teerã - e os instrumentos já foram preparados. Por trás dos bastidores, especialistas financeiros e comerciais da União Europeia elaboraram um catálogo confidencial de possíveis sanções. A “Spiegel Online” obteve o catálogo, um “documento não-oficial”, de 13 páginas, “sobre o contexto político e econômico de sanções contra o Irã”.

Os setores financeiro e energético deverão ser alvos
As propostas não têm como objetivo apenas ampliar as sanções já em vigor, tais como os embargos às forças armadas iranianas e a proibição da entrada na Europa dos construtores da bomba de Teerã. Pela primeira vez, a União Europeia está elaborando um programa que atinge toda a economia iraniana. Para maximizar o impacto, os especialistas estão recomendando medidas que atinjam os setores energético e financeiro, nos quais o regime iraniano é particularmente vulnerável, diz o documento.

O Irã é o segundo maior produtor de petróleo do cartel da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), e possui grandes reservas de gás. O petróleo e o gás respondem por cerca de 80% das exportações iranianas. Mas o país não consegue se sustentar por muito tempo sem auxílio internacional. Ele necessita de investimentos estrangeiros para a exploração urgentemente necessária de novos campos de petróleo para substituir as reservas que estão se esgotando. Se esse investimento não for feito, a produção cairá rapidamente.

E, o que é possivelmente pior, esse país rico em petróleo depende muito da importação de produtos petrolíferos como a gasolina e o óleo diesel. Sem a importação de combustíveis, o seu sistema de transportes entraria rapidamente em colapso. O regime iraniano está tentando construir refinarias, mas ele necessita de conhecimento e de capital estrangeiros para fazer isso.

Sanções financeiras pra estrangular as importações
As autoridades da União Europeia acreditam que as sanções financeiras sejam ainda mais efetivas, e apresentaram uma série de opções. A União Europeia poderia, por exemplo, obstruir o acesso de Teerã às reservas monetárias iranianas localizadas no exterior. E o banco central iraniano poderia ser banido do sistema de circulação internacional de dinheiro e crédito. Transferências monetárias entre fronteiras tornar-se-iam praticamente impossíveis e o Irã enfrentaria enormes problemas para pagar pelas suas importações - e isso teria um impacto sobre o suprimento de produtos necessários ao seu programa nuclear.

Uma outra proposta: se as companhias de seguros ocidentais deixassem de garantir os investimentos no Irã, muitos investidores iriam preferir se retirar do país. Se a Europa bloquear as garantias de crédito que são uma parte rotineira do comércio internacional, as remessas de produtos para o Irã ficariam mais arriscadas ou pelo menos significativamente mais caras. O plano da União Europeia recomenda a limitação das relações diplomáticas e outros contatos oficiais com o Irã, uma medida que seria basicamente simbólica, mas ao mesmo tempo significativa, diz o documento.

Os 27 países membros da União Europeia ainda não se decidiram quanto às sanções. Mas os governos europeus estão mais determinados do que nunca a aumentar a pressão sobre o Irã, especialmente depois que a AIEA declarou em um relatório na semana passada que Teerã poderia estar trabalhando agora no sentido de desenvolver um míssil dotado de ogiva nuclear.

Os europeus necessitam de uma decisão por parte do Conselho de Segurança da ONU como uma base legal para as suas novas sanções. Isso só ocorrerá com o apoio da Rússia e da China, que são potências com poder de veto. Mas o Ocidente deseja também garantir o apoio de países como o Brasil, a Turquia e os Estados do Golfo às sanções. Isso faria com que a liderança iraniana encontrasse mais dificuldade em argumentar que está sendo vitimizada por uma “conspiração ocidental” ou pelos “vassalos de Israel”.

Tradutor: UOL

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