"Você não precisa arriscar a vida para contar uma boa história", diz vencedor do prêmio World Press Photograph

Ulrike Putz

O fotógrafo freelancer italiano Pietro Masturzo, 30, venceu o prestigiado prêmio World Press Photo com a sua fotografia de mulheres participando de protestos noturnos no terraço de uma residência de Teerã. Ela fala a “Spiegel Online” sobre os riscos do trabalho e se defende das acusações de que foi um covarde por não fotografar as manifestações de rua.

Spiegel: Após as eleições iranianas em junho de 2009, houve manifestações e rebeliões quase diariamente nas ruas de Teerã. Por que você fotografou os telhados, e não a ação ocorrida nas ruas?
Pietro Masturzo:
Não havia nenhuma outra alternativa. Três dias antes da eleição eu fui preso, juntamente com um outro colega italiano. Após ter sido libertado, ficou claro para mim que era extremamente perigoso fazer novas coberturas nas ruas de Teerã.

Spiegel: Por quê? O que aconteceu?
Masturzo:
Eu viajei para o Irã - um país que me fascinava desde que eu era estudante - como turista. Chegando lá uma semana antes das eleições, eu sabia que teria que ter cuidado porque poderia ser perigoso ficar nas ruas tirando fotografias sem possuir um visto de jornalista. Mas como fotógrafo eu esqueço alegremente desse tipo de perigo.

  • Pietro Masturzo

    Foto do italiano Pietro Masturzo mostra mulher protestando em um terraço da capital iraniana
    após as eleições presidenciais de junho de 2009

Spiegel: O que aconteceu quando você foi preso?
Masturzo:
Certa noite, antes das eleições, eu estava com alguns colegas na Rua Valiasr. Nós tirávamos fotografias de apoiadores do líder oposicionista Mir Hossein Mousavi em frente a um grande poster do aiatolá Ruhollah Khomeini. De repente, vários membros da Basij, a milícia voluntária controlada pelo Estado, nos cercaram com motocicletas. Eles nos perguntaram o que estávamos fazendo e por que tirávamos fotografias, e a seguir nos levaram até o posto policial. Lá eles revistaram o nosso equipamento e confiscaram os nossos cartões de memória digital. Eles me questionaram sem parar: quem era eu? Por que eu estava fazendo propaganda contra a república islâmica? Eu tentei convencê-los de que era turista e de que estava viajando para Persépolis, um local turístico popular, no dia seguinte.

Spiegel: Você disse que ficou detido pelas autoridades durante três dias. Você teve que dormir em uma cela?
Masturzo:
Naquele momento eu e o meu colega estávamos hospedados em um hotel. Os basijs nos levavam de volta ao hotel todas as noites, e depois nos pegavam novamente às sete da manhã para nos conduzir a diversos postos policiais. Três dias depois estávamos livres, sem qualquer acusação.

Spiegel: O que aconteceu mais tarde, nos telhados de Teerã?
Masturzo:
Nos dias que antecederam a eleição, eu conheci muitas pessoas nas ruas de Teerã, de diferentes partes da cidade e de várias camadas sociais. Algumas me convidaram para dormir em suas casas, algo que não é incomum no Irã. Após ter sido libertado, eu comecei a passar cada noite com uma família diferente. Na primeira noite após a eleição, eu comecei a ouvir os gritos de “Allahu Akbar” (“Deus é grande”). Com esse clamor noturno, o povo estava protestando contra os resultados fraudulentos da eleição e as táticas brutais usadas pelas forças de segurança do Estado.

Spiegel: Você percebeu imediatamente que aquele tipo de protesto seria um bom tema para fotografia?
Masturzo:
Sim, já naquela primeira noite eu tinha certeza disso. A família em cuja casa eu estava hospedado passou a metade da noite falando sobre o significado altamente simbólico daquele clamor. Eles me falaram sobre a revolução islâmica ocorrida 30 anos antes e de como, naquela época, o grito de “Allahu akbar” era uma forma de desobediência civil contra o regime. Eu decidi fazer uma série de fotografias sobre o tópico.

Spiegel: As pessoas que você fotografou sabiam que você estava tirando fotos delas?
Masturzo:
Muitas vezes elas não sabiam. As que sabiam que eu estava tirando fotos nas quais elas apareciam me pediam que assegurasse que elas não seriam reconhecíveis nas fotografias.

Spiegel: Quais foram as circunstâncias que cercaram a foto que lhe deu o prêmio?
Masturzo:
Aquilo aconteceu em uma das primeiras noites após as eleições, quando a pressão nas ruas estava quase insuportável. Eu estava com uma família em um bairro bastante conservador da classe operária em Teerã. Conforme fazia toda noite, eu fui até o terraço para procurar oportunidades e, no terraço oposto, vi essas três mulheres usando trajes bem tradicionais. Elas clamavam a Deus em protesto contra os resultados eleitorais. Eu encontrei uma boa posição, na qual fui capaz de manter a câmera estável, e tirei a foto usando uma longa exposição.

Spiegel: Você conseguiu falar com as mulheres?
Masturzo:
Não, eu jamais soube quem eram elas. Eu não sei sequer se conseguiria encontrar o caminho de volta até aquele telhado do qual tirei a fotografia.

Spiegel: No Irã, a decisão de conceder a você o prêmio da World Press Photo foi polêmica. Por quê?
Masturzo:
Houve muita crítica em vários websites pelo fato de eu ter obtido o prêmio tirando uma foto dos telhados, enquanto outras pessoas arriscavam as suas vidas para mostrar as manifestações nas ruas. Muitos jovens iranianos que fotografaram as manifestações nas ruas sob condições bastante arriscadas fizeram objeções à premiação. Por exemplo, um jovem fotógrafo me enviou um e-mail sugerindo que eu só recebi o prêmio por ser ocidental.

Spiegel: Isso deixou você chateado?
Masturzo:
A fotografia pode ser debatida, e não deve haver limites para esse debate. Os colegas iranianos sem dúvida arriscaram-se mais do que eu; eles colocaram as vidas em risco. Mas, quando você conta uma história, é necessário usar também a sua sagacidade. Eu acredito que não é preciso arriscar a vida para contar uma boa história. Eu simplesmente tive uma boa ideia, isto foi tudo. Durante as manifestações em Teerã, vi muita gente com câmeras. Mas quando vi as fotos deles mais tarde na internet ou na televisão, não havia nenhuma dos telhados. De qualquer maneira, eu obtive bastante apoio - muita gente me agradeceu por eu ter mostrado um lado diferente do Irã.

Spiegel: A sua vida mudará agora que você ganhou esse prêmio prestigiado?
Masturzo:
Até agora tem sido difícil ganhar a vida como fotógrafo freelancer. Eu espero que daqui por diante as coisas se tornem um pouco mais fáceis.

Tradutor: UOL

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