A arrogância da liderança chinesa

Erich Follath

  • 21.10.2007 - Frederic J. Brown/AFP

    Encerramento do 17º Congresso do Partido Comunista chinês, no Grande Palácio do Povo

    Encerramento do 17º Congresso do Partido Comunista chinês, no Grande Palácio do Povo

O Ocidente espera que a crescente prosperidade da China também leve à liberalização política. Mas é provável que o contrário também seja verdade. A confiança cada vez maior do Partido Comunista significa que a China poderá se tornar uma encrenqueira no cenário internacional, além de reprimir com mais brutalidade seus dissidentes.

O Partido Comunista da China é onipotente. Ele pode mover montanhas, como fez ao construir a maior indústria hidrelétrica do mundo no Rio Yangtsé. Ele pode construir a maior ferrovia do mundo, como demonstrou ao construir a ligação ferroviária até a capital do Tibete, Lhasa.

Ele pode até mesmo administrar as reencarnações, o que fez ao escolher um homem fiel a Pequim como o segundo maior líder espiritual do Tibete, o Panchen Lama – um feito particularmente impressionante para um partido ateísta que vê a religião como o ópio que corrompe o povo. Os chefes do Partido Comunista tornaram-se espiritualistas por um breve momento para colocar seu homem na vaga de sucessor do dalai-lama, 74. Mas o dalai-lama escolheu seu próprio vice espiritual. E ele também está pensando em selecionar uma mulher para ser sua reencarnação, disse à Spiegel. Além disso, ele não quer fazer a Pequim o favor de morrer logo.

Na última quinta-feira (18/02), o presidente dos EUA Barack Obama encontrou-se com o líder tibetano vencedor do Prêmio Nobel da Paz na Casa Branca. É uma coisa que os seus predecessores também fizeram, assim como os líderes da França e da Alemanha. Normalmente Pequim responderia a um encontro com seus protestos de praxe. As queixas do Partido Comunista contra o envio de armamentos norte-americanos para Taiwan também foram emudecidas no passado porque eles estão cientes de que os presidentes dos EUA são obrigados por lei a ajudar Taiwan.

Mas dessa vez foi diferente Pequim reagiu com uma fúria incomum ao encontro recente com o dalai-lama e à nova negociação de armas entre Washington e Taiwan, e fez ameaças. Companhias como a Boeing poderão ser excluídas dos negócios chineses, e conversas bilaterais entre oficiais militares foram canceladas.

Autoconfiança que beira a arrogância
Há uma nova era glacial entre Pequim e Washington, entre os dois centros que muitos já consideraram inseparáveis, amalgamados na chamada Chimérica ou na nova potência mundial “G-2”. O que deu na China?

Para começar, o governo chinês está repleto de uma autoconfiança que beira a arrogância. Os chineses veem a si mesmos como os vencedores da crise econômica global. O país gerou um crescimento econômico de cerca de 9% em 2009, enquanto a economia russa encolheu 7,9%, a da União Europeia, 4,2%, e a dos EUA, 2,7%. A China ultrapassou a Alemanha e se tornou a maior exportadora mundial e manteve-se na liderança como o país com as maiores reservas em moeda estrangeira.

Os líderes do Partido Comunista regozijam-se em citar as previsões otimistas para a situação econômica de seu país. O vencedor do Nobel de Economia norte-americano Robert Fogel, por exemplo, prevê que em 2040, a China responderá por 40% da produção econômica global, comparado a apenas 14% dos EUA. “Esta será a face da hegemonia econômica”, diz Fogel.

Enquanto alguns nos EUA acreditam que podem lidar com a ascensão da China enquanto potência mundial, a China está sonhando em “arranjar” o declínio dos Estados Unidos. E nesse contexto o Ocidente deveria dizer adeus à sua crença otimista de que o progresso econômico da China levará à sua liberalização política e a transformará num parceiro responsável no cenário mundial. É provável que aconteça o inverso.

Encrenqueira no cenário mundial
A China atua agora como uma nação encrenqueira e provocativa, tanto na conferência climática de Copenhague em dezembro quanto no Conselho de Segurança da ONU, onde é provável que fique sozinha ao resistir a uma nova rodada de duras sanções contra o Irã.

Os especialistas em economia dizem que a moeda chinesa está de 25% a 40% subvalorizada e que isso está baixando artificialmente o preço dos produtos de exportação chineses. Mas os líderes da China não estão considerando revalorizar o yuan. Eles ignoram as queixas de Obama sobre a taxa de câmbio com a mesma indiferença que mostraram ao enviar funcionários de baixo escalão para negociar com o presidente em Copenhague.

A China acredita que pode se dar ao luxo de agir assim. Na África e na Ásia, o autoritarismo de Pequim é visto como um modelo de sucesso a ser copiado.

No país, o Partido Comunista está intensificando seus métodos brutais. Permitiu que um traficante de drogas britânico que parecia mentalmente instável fosse executado, e Liu Xiaobo, um respeitado ativista pelos direitos civis que apenas usou seu direito de liberdade de discurso, foi sentenciado a exorbitantes 11 anos de prisão.

Minorias que lutam pela autonomia como os uighurs e os tibetanos são oprimidas brutalmente. O ressurgimento do nacionalismo Han substituiu todas as outras ideologias e funciona como um cimento que mantém a sociedade unida.

Os líderes de Pequim estão se comportando como os senhores do mundo, tão arrogantes como se pudessem andar sobre as águas. O dalai-lama diz que reza todas as noites pela iluminação dos chineses. Ele sonha com o renascimento de valores chineses como a modéstia e o senso de proporção. Ele pode continuar sonhando.

Tradutor: Eloise De Vylder

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