Como a máfia ajudou a enviar lixo da Itália para a Alemanha

Alexander Smoltczyk, Andreas Ulrich e Andreas Wassermann

As cortes alemãs vêm lidando com um problema incomum. Mais de 100.000 toneladas de lixo italiano foram enviadas para o Leste da Alemanha, salvando da falência uma estação de tratamento de lixo. Mas o que pode ter sido uma solução para a notória crise de lixo de Nápoles violou a lei. 

Os sacos plásticos cheios de lixo cobriram a Piazza del Plebiscito em Nápoles. Nos subúrbios, pilhas de lixo cresceram como tumores nas estradas e, à noite, o ar ficava pesado com o odor pungente das lixeiras queimando. Mais de 1.100 toneladas de lixo fresco estavam sendo acrescentadas a essas pilhas diariamente. 

O lixo tinha que ser removido, mas como? E para onde iria? Essas eram as questões que preocupavam Lorenzo Miracle, gerente de uma empresa de logística italiana. 

Enquanto isso, as ruas estavam brilhando em Großpösna, uma cidade no Estado da Saxônia, no Leste alemão. Ali fica a Planta de Tratamento de Lixo Central de Cröbern, um monumento à limpeza alemã, que custou ao menos 100 milhões de euros (em torno de R$ 300 milhões) e inclui bacias de tratamento de esgoto e um lago decorativo. É uma das instalações mais avançadas da Europa, uma lixeira do século 21. 

  • Salvatore Laporta/AP

    Crianças tapam o nariz para não sentirem o cheiro do lixo acumulado em Napóles, na Itália

Aparentemente, contudo, a planta de tratamento de Cröbern era maior do que necessário. Os moradores não estavam produzindo suficiente lixo para manter a unidade operando em plena capacidade. Ela precisava de mais lixo. Mas quem proveria isso? Esse era o problema de Konrad Doruch, o procurador de lixo sólido da planta. 

Os dois homens, Miracle e Doruch, tinham algo que o outro desejava. Eles chegaram a um acordo e, no início de abril de 2007, trens de carga lotados com o lixo de Nápoles começaram a correr para o Norte, para Großpösna, quase diariamente. 

“Sem precedentes” 

O acordo parecia beneficiar os dois lados. O único problema era que aparentemente envolvia várias atividades ilegais, inclusive o manuseio não autorizado de lixo perigoso, propinas e formação de quadrilha. 

Infelizmente para Doruch, o procurador de lixo sólido da Saxônia, a polícia italiana voltou-se para ele em uma investigação de grande escala chamada “Operação Ecoballe”. Os investigadores, esperando pegar a máfia napolitana conhecida como Camorra, interceptaram centenas de telefonemas. As empresas ligadas à Camorra administram o transporte ilegal de lixo, tanto na Itália quanto no exterior. 

No final de novembro, os investigadores italianos expandiram seus esforços para o solo alemão. Os promotores e a polícia fizeram buscas na planta de processamento de lixo em Großpösna e em outras empresas de reciclagem na Saxônia e no Estado vizinho de Saxônia-Anhalt. As autoridades buscavam qualquer coisa associada ao lixo sólido vindo da Itália, inclusive documentos das remessas, contratos e faturas. A investigação revolvia em torno de 150.000 toneladas de lixo sólido que tinham sido transportadas para a Alemanha em 200 trens de carga, que aparentemente nunca deveriam ter tido permissão para cruzarem os Alpes. 

O escândalo ítalo-germânico de exploração do lixo fornece luz para uma indústria crescente. De acordo com investigações da Polícia Criminal Federal alemã (BKA), até dois milhões de toneladas de lixo doméstico já foram lançados ilegalmente nas lixeiras e antigos aterros sanitários alemães. “A extensão das atividades de especulação com o lixo sólido é quantitativa e qualitativamente sem precedentes” e foi totalmente subestimada por agências governamentais e políticos, de acordo com um estudo interno da BKA conduzido com a meta de colocar acordos duvidosos de lixo sólido na agenda da próxima conferência de ministros de meio-ambiente em junho. 

Lixo doméstico ilegal 

O caso da planta de tratamento de Cröbern demonstra que nem sempre são empresas de demolição e operadores de aterros suspeitos que tratam a lei e a ordem da mesma forma que tratam do lixo. Até mesmo empresas semi-estatais foram suspeitas de agir ilegalmente em circunstâncias extremas. 

As circunstâncias de fato eram extremas em abril de 2006, quando políticos locais na cidade de Leipzig reuniram-se para discutir a crise enfrentada pela operadora da planta de tratamento, a WEV. A empresa, cuja maioria é de propriedade da cidade de Leipzig e entorno, estava em “dificuldades financeiras severas, que poderiam ameaçar sua existência”, segundo a ata da reunião. 

A WEV perdeu 4,5 milhões de euros só em 2005, e era hora da administração apresentar algum plano. Os responsáveis estavam sob pressão, homens como Konrad Doruch, um saxão com um dialeto pronunciado que fez carreira no ramo. A princípio, era responsável pela segurança e proteção contra incêndio na planta de tratamento de lixo e depois foi promovido a diretor de vendas. 

Entre 2003 e 2006, Doruch conseguiu que mais de 200.000 toneladas de lixo sólido fossem enviadas da Itália. Era um material prêmio para a planta em Großpösna, inclusive restos de uma planta de alumínio em Novara e material de isolamento contendo amianto de Verona. As autoridades deram à planta de Cröbern permissão especial para lidar com o lixo perigoso. 

A WEV, perdendo dinheiro e sem suficiente lixo sólido para manter suas operações eficientes, enviou Doruch de volta para a Itália. Desta vez, contudo, ele não procurou lixo industrial do Norte, mas lixo doméstico do Sul, de Nápoles e da região da Campânia, onde a Camorra praticamente controla o setor. 

Se as alegações dos investigadores forem verdadeiras, foi nesse momento que os métodos da WEV se tornaram ilegais. O lixo doméstico da Campânia simplesmente não podia ser exportado para a Alemanha como azeite de oliva ou vinho. 

Desrespeito às leis de tratamento alemãs 

Desde 2005, nem o lixo doméstico alemão pode mais ser jogado em aterros sanitários; tem que ser incinerado ou sujeito a um procedimento complicado, que envolve selecionar e comprimir o lixo e remover o máximo possível de bactérias. As autoridades alemãs somente aprovam a importação de lixo se este for previamente tratado. 

Apesar dessas restrições, os negociantes alemães e italianos de lixo sólido tentaram de qualquer forma. A partir de abril de 2007, trens de carga cheios de lixo doméstico começaram a partir do depósito de Maddaloni-Marcianise a cerca de 30 km ao Norte de Nápoles, para serem descarregados no dia seguinte em Großpösna, a 1.500 km de distância. 

Incidentes menores como o que aconteceu no dia 26 de abril, quando uma unidade especial da polícia nacional italiana conhecida como Carabinieri ordenou a abertura dos contêineres mal cheirosos, não conseguiram deter a conexão de lixo entre a Itália e a Alemanha. 

De acordo com documentos do transporte, os contêineres deveriam conter lixo pré-tratado, ou produtos intermediários na cadeia da reciclagem. Em vez disso, os Carabinieri encontraram lixo doméstico ordinário das cozinhas do Sul da Itália e apreenderam oito contêineres. No dia seguinte, contudo, os trens voltaram a rodar. 

Sob esse sistema, o conteúdo de 7.500 contêineres terminou no Leste da Alemanha. Aparentemente foi um acordo extremamente lucrativo para a WEV, que teria recebido 16 milhões de euros, ou 86 euros por tonelada. Os políticos de Leipzig devem ter ficado contentes, agora que seu projeto de prestígio estava finalmente funcionado. Sua empresa, quase falida há um ano, estava no azul. 

Parece que as autoridades na Saxônia não estavam particularmente interessadas em saber a natureza do lixo sólido que estava sendo processado em suas plantas de tratamento. Os investigadores acreditam que podem provar que o diretor de vendas Doruch simplesmente mentiu sobre o conteúdo de muitos carregamentos e prontamente enviou a maior parte do lixo, um total de 107.000 toneladas, para instalações de tratamento administradas por Andreas Böhme, na vizinha Saxônia-Anhalt. Böhme, especialista em automóveis, não tinha permissão para processar o lixo sólido da Itália, mas tinha uma picadora de lixo. Na Saxônia-Anhalt, o lixo sólido de Nápoles aparentemente foi novamente classificado, desta vez como “lixo mineral selecionado”, que permitia que fosse despejado. 

“Um grupo fixo” de criminosos 

Parte dele acabou em um aterro sanitário na cidade de Freyburg-Zeuchfeld, na Saxônia-Anhalt, que foi praticamente fechado na primavera de 2009, após inspetores ambientais encontrarem 300.000 toneladas de lixo despejado ilegalmente. 

Os promotores acreditam que sabem quem está por trás dos carregamentos de lixo. Desde o início, diz um investigador, um “grupo fixo de criminosos alemães e italianos” planejou “se livrar do lixo da Campânia ilegalmente, porque a maior parte não estava tratada, na região da Saxônia-Anhalt”. 

Böhme nega. Seu advogado, Steffen Segler diz que o cliente tratou o lixo da WEV “da forma adequada”. Konrad Doruch também rejeita as acusações de que estava envolvido em exploração ilegal. Doruch e seu ex-chefe na WEV desde então deixaram a empresa. 

O novo diretor da planta de tratamento de lixo foi contratado em uma firma de auditoria para conduzir uma investigação interna. Os resultados serão apresentados ao Conselho Supervisor da WEV em meados de março. Ainda não está claro se, e quando, os promotores em Leipzig e Halle (capital estadual da Saxônia-Anhalt) vão entrar com ações na justiça. 

Seus colegas em Nápoles parecem estar à frente no caso. No outono de 2008, eles apresentaram um mandado de prisão para Lorenzo Miracle; duas dúzias de autoridades e outros administradores na planta de tratamento foram temporariamente presos. Eles ainda são acusados de envolvimento na exploração ilegal do lixo. 

Esses esforços pareciam ter colocado fim ao trabalho dos traficantes internacionais do lixo. Mas não é bem assim. Em dezembro, outras 100 toneladas de lixo fresco foram descobertas em um aterro na Saxônia-Anhalt. Vieram da Itália. 

Traduzido do alemão por Christopher Sultan e do inglês por Deborah Weinberg

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