"Teremos prazer em dar tudo aos gregos, menos dinheiro", diz líder da coalizão partidária de Angela Merkel

Sebastian Fischer e Severin Weiland

O primeiro-ministro da Grécia, George Papandreou, está depositando as suas esperanças na chanceler alemã Angela Merkel, com quem ele deverá se reunir em Berlim nesta sexta-feira (05/03). Merkel, no entanto, já afirmou que apoio financeiro a esse país endividado não fará parte da agenda. 

Este é um dos assuntos mais delicados em Berlim: ajuda à Grécia. Basta uma palavra errada por parte de um político alemão importante para que os já nervosos mercados financeiros fiquem ainda mais agitados. Assim, os políticos têm se mantido calados e aguardam os acontecimentos.

  • Olivier Hoslet/EFE

    O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, a chanceler alemã, Angela Merkel, o primeiro-ministro grego, George Papandreu, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy durante reunião do Conselho da União Européia, em Bruxelas (Bélgica)

O ministro grego George Papandreou reunir-se-á com a chanceler alemã Angela Merkel nesta sexta-feira em Berlim. Tendo em vista a situação tensa, a reunião promete ser explosiva. Como medida de precaução, Merkel já afirmou que auxílio financeiro não será um tópico da sua agenda.

Em vez disso, a reunião é uma tentativa de garantir que o governo grego cumpra as suas obrigações para recuperar o controle sobre o seu déficit orçamentário por meio de cortes dos gastos. Na quarta-feira, Papandreou anunciou novas medidas de austeridade em Atenas. O clima na Grécia é tenso. Segundo as propostas, salários serão reduzidos, impostos aumentados e o preço da gasolina subirá – medidas que sem dúvida farão com que os sindicatos saiam às ruas para protestar contra o governo socialista recentemente eleito.

O governo em Berlim está consciente da situação difícil do governo grego e tem elogiado os esforços de Atenas, que Merkel chamou de “o passo certo”, afirmando que isso ajudará a fortalecer a confiança dos mercados na Grécia e no euro. Ela observa também que as medidas austeras são inevitáveis.

Merkel e os membros da sua coalizão governamental sabem que o que está em jogo não é apenas a Grécia, mas também a estabilidade do euro. Nas últimas semanas, a moeda comum europeia vem sendo assombrada por temores de uma falência nacional na Grécia, cuja dívida total provavelmente chegará a cerca de 120% do seu produto interno bruto em 2010.

Reunião a portas fechadas

Merkel, o ministro das Relações Exteriores, Guido Westerwelle, o ministro da Economia, Rainer Brüderle e um representante do ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, que atualmente encontra-se hospitalizado, reuniram-se na noite da última terça-feira para uma conversa estritamente confidencial. O objetivo principal da reunião foi evitar a todo custo jogar combustível na fogueira. Os grupos da coalizão parlamentar também não estão falando muito sobre o assunto.

“Nós esperamos que a Grécia implemente medidas por conta própria, e nós devemos isso ao povo da Alemanha”, afirmou na última quarta-feira Birgit Homburger, a líder parlamentar do Partido Democrático Livre (FDP, na sigla em alemão). Ela não quis sequer comentar as especulações quanto à possibilidade de a Alemanha acabar sendo convocada a prestar à Grécia uma ajuda de bilhões de euros. “Nós esperamos que os gregos esforcem-se bastante; atualmente todas as outras questões são irrelevantes”, declarou Homburger.

“No momento”, “atualmente”, “em breve” - são esses os tipos de de expressões vazias com as quais os políticos em Berlim estão tentando ganhar tempo. O governo em Atenas em breve emitirá novos títulos governamentais. Os políticos alemães estão aparentemente aguardando para ver como o mercado reagirá. A União Europeia também concordou quanto àquilo que pretende fazer. A organização em breve anunciará instrumentos concretos para apoiar os países do euro em crise. “Temos que ser solidários com a União Europeia”, disse na quarta-feira, em Bruxelas, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso. “Nós apresentaremos os instrumentos concretos na hora correta”.

Além disso, alguns indivíduos em Berlim suspeitam que antes que a Alemanha e a União Europeia possam agir, Atenas terá que demonstrar ao povo alemão que agiu de forma decisiva. Esta poderá ser a única maneira de justificar qualquer iniciativa de auxílio à Grécia. As pesquisas têm revelado que a maioria dos alemães atualmente se opõe à utilização de dinheiro do contribuinte para ajudar a Grécia.

Cenários alternativos

O que não tem faltado é especulação sobre tal auxílio. Só na semana passada, um porta-voz de Schäuble repeliu boatos de que verbas de auxílio à Grécia seriam removidas do orçamento federal nesta semana. O problema é também de natureza legal. Esse tipo de auxílio é estritamente proibido segundo o Tratado de Maastricht, o que cria um problema para os especialistas em direito. Funcionários do Ministério das Finanças da Alemanha já buscaram maneiras de contornar o problema. Dentre as possíveis abordagens estão as seguintes:

Há algum tempo, circularam boatos a respeito de uma verba de auxílio que seria criada com a contribuição de todos os países do grupo do euro. A Alemanha forneceria cinco bilhões de euros (R$ 12,2 bilhões), correspondentes à sua contribuição ao Banco Central Europeu.

Segundo uma outra ideia que está sendo discutida na União Europeia, bancos estatais contribuiriam com dinheiro caso a Grécia não fosse mais capaz de encontrar compradores, segundo condições aceitáveis, para os seus títulos governamentais em meio às instituições privadas. Isto porque a crise fez com que vários investidores exigissem retornos consistentemente elevados para as suas securities. Na Alemanha, o banco estatal KfW poderia comprar títulos gregos, caso necessário.

O presidente do Deutsche Bank, Josef Ackermann, esteve em Atenas no final da semana passada. Desde então, tem havido especulações em Berlim quanto à possibilidade de que ele tenha estado lá para discutir a criação de um escudo protetor caso o mercado não reaja, conforme se espera, à emissão de bônus.

Também tem havido boatos recorrentes sobre uma intervenção por parte do Fundo Monetário Internacional (FMI, na sigla em inglês). Esta opção é considerada improvável, porque a União Europeia estaria admitindo que é incapaz de lidar com o problema por conta própria.

Finalmente, fala-se do envio de um representante especial da União Europeia à Grécia para monitorar as medidas de austeridades no país.

A especulação pública sobre esse auxílio pode ser inevitável, mas o problema é visto com preocupação por políticos da coalizão governamental em Berlim. “Se nós discutirmos uma ampla gama de modelos hipoteticamente, isso não ajudará ninguém e, acima de tudo, não tranquilizará os mercados”, afirmou Volker Wissing, presidente do Comitê de Finanças do parlamento alemão, o Bundestag, em uma entrevista a “Spiegel Online”. Wissing, que é membro do FDP, opõe-se a uma “ajuda externa prematura” a Atenas, já que, segundo ele, isto seria “um desincentivo absoluto”. 

  • Manifestantes entram em confronto com a polícia durante greve geral em Atenas, na Grécia

Tudo, menos dinheiro

A conservadora União Social-Cristã (CSU, na sigla em alemão), o partido irmão da União Democrata-Cristão (CDU, na sigla em alemão) de Angela Merkel e um integrante da coalizão governamental, assumiu, no entanto, uma posição bem mais dura em Bruxelas. Markus Ferber, um membro do Parlamento Europeu que é diretor do Grupo de Questões Europeias da CSU, rejeita todas as formas de assistência financeira alemã à Grécia. “Nós teremos prazer em dar tudo aos gregos, menos dinheiro”, disse Ferber a “Spiegel Online”. “Bons conselhos, assistência administrativa e diretrizes claras da Europa”.

Jorgo Chatzimarkakis, um alemão descendente de gregos que é membro do Parlamento Europeu pelo FDP, adota uma abordagem um pouco diferente. Ele deseja que a União Europeia comece ajudando a Grécia a ajudar a si própria. O enviado especial da União Europeia desempenharia um papel nesse cenário. O ex=vice-presidente do Banco Central Europeu, Lucas Papademos, está sendo cogitado para ser o emissário europeu. “Por um lado, ele poderia monitorar a situação econômica e financeira, e também gerar confiança na zona do euro”, disse Chatzimarkakis a “Spiegel Online”. “Por outro lado, ele poderia servir como um para-raios para Papandreou dentro da Grécia”.

Se tudo isso não acabar com a especulação em cima da Grécia e do euro, diz o político do FDP, os países da União Europeia poderiam fornecer assistência financeira na forma de garantias de empréstimos ou comprando títulos do governo grego.

Tradutor: UOL

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