Milícias afegãs combatem o Talebã

Susanne Koelbl

Em algumas partes do Afeganistão, nem as forças de segurança do país nem as tropas da Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf, na sigla em inglês) foram capazes de proteger as pessoas comuns. Agora os norte-americanos estão fornecendo armas às milícias locais para que elas possam combater o Talebã. Mas alguns observadores temem que a iniciativa possa levar a rivalidades entre diferentes grupos armados. 

Abdul Gafar não suporta quando o sol se levanta de manhã e tudo o que ele tem para fazer é trabalhar no solo duro de suas plantações e depois voltar para suas mulheres em casa – a paz, em outras palavras. Gafar, um comandante de milícia com pouco mais de 40 anos, cresceu com um Kalashnikov na mão, da mesma forma que outras crianças crescem com kits de Lego. 

Os anos mais tranquilos aqui em Kunduz não foram os melhores para ele: oito invernos sem sentido, sem nada para fazer. Havia, é claro, inúmeros programas de desarmamento, monitorados por representantes do governo na longínqua capital e por especialistas internacionais. Agora seu velho AK-47 está apoiado na parede da sala novamente, para quem quiser ver, e Gafar, que é Pashtun, sente-se forte mais uma vez. 

Os 60 homens sob seu comando patrulham os vilarejos em torno de Kanam-i-Kalan, uma cidade cercada por plantações e pastagens, 18 quilômetros a nordeste da cidade de Kunduz. Gafar se alonga e sorri: “Eu atiro bem, e acerto meu alvo até de noite. Tenho lançadores de foguete e morteiros”. 

O Taleban chega à cidade

No ano passado, no final de março, o Taleban chegou a Kanm-i-Kalan. Os homens, com seus turbantes pretos, circulavam ruidosamente na noite da cidade com suas motocicletas, em grupos de até 20 guerrilheiros. Eles batiam nas portas, com seus Kalashnikov nas mãos, esperando que os moradores preparassem o jantar para eles.

A maioria dos habitantes de Kanam-i-Kalan é Pashtun, como os talebãs. Eles se lembram bem de como a vida era dura e cruel durante o rígido regime dos fanáticos religiosos, antes que os norte-americanos os expulsassem do local em novembro de 2001. A maioria não quer viver sob o domínio dos islamitas radicais nunca mais.

Os principais alvos do Talebã eram antigos companheiros, espiões recrutados (pelo menos dois em cada vilarejo) e jovens soldados alistados. Eles impuseram um imposto religioso chamado “ushr”, cobrando 10% de todos os ganhos agrícolas. Organizaram postos de controle ao longo das estradas e começaram a inspecionar os veículos. 

O governo afegão nunca interveio para colocar um fim a essas atividades. Ele esteve simplesmente ausente. Quando a situação ficou muito perigosa, os poucos policiais deixaram a cidade, o exército afegão não estava disponível e a força militar alemã baseada em Kunduz, a Bundeswehr, estava ocupada com seus próprios problemas. Não havia sobrado ninguém para proteger a população local. 

Então o Talebã assassinou Abdullah i-Sabaz, de Khan Abad, enforcando-o numa árvore por ter protestado contra eles. Os extremistas também assassinaram Mohammed Ismail, um policial do vilarejo vizinho. O bilhete preso em seu corpo dizia: “Nós mataremos qualquer um que apoie o governo”. 

“Essa foi a gota d'água”, diz Gafar. Também foi o dia em que ele abriu seu depósito secreto de armas. Ele as havia escondido dos inspetores da ONU e da Isaf durante anos. Agora, expandiu seu arsenal comprando alguns rifles automáticos. Os anciões de 14 vilarejos vizinhos, representando cerca de 50 mil pessoas, fizeram uma reunião. Eles elegeram comandantes, elaboraram uma estrutura hierárquica e treinaram seus guerrilheiros. Isso aconteceu no verão, e no final de novembro eles começaram a agir. Disseram ao Talebã que eles deveriam sair ou morrer. Os islamitas foram embora. 

Preenchendo o vácuo de poder

As arbakis, ou milícias civis, fazem parte da história afegã tanto quanto as guerras que acontecem no país há mais de 30 anos. Desde 2002, a comunidade internacional vem tentando desarmar sistematicamente as milícias afegãs. Com a ajuda de programas caros, os homens eram incentivados a voltar à vida normal de agricultores, vendedores ou artesãos. Um relatório da ONU do ano passado conclui com orgulho: “Foi visto um excelente progresso (…) em desmanchar grupos armados ilegais (GAIs)”. 

O desarmamento do Afeganistão é um objetivo nobre, mas a realidade é uma história diferente. No ano passado, mais de 2.400 civis foram assassinados a tiros, enforcados, decapitados ou mortos em explosões. Dois terços dessas vítimas foram assassinadas por insurgentes. 

Os homens das milícias costumam ser brutos. Eles fazem suas próprias leis, roubam, bebem e pegam garotas e meninos, dizem as pessoas em Kunduz. Apesar disso, muitos vilarejos estão tentando cuidar de sua própria segurança com auxílio das milícias locais. De repente, homens com Kalashnikovs pendurados casualmente nos ombros e bazucas às costas são novamente bem recebidos em Kunduz, assim como no sul e sudeste do país – em qualquer lugar em que haja uma luta acirrada. 

As milícias ocupam o vácuo que o Estado enfraquecido permitiu que se desenvolvesse, e que mais de 100 mil soldados ocidentais não são capazes de preencher. É uma solução precária, que poderia ser tolerado como algo temporário, desde que o Afeganistão desenvolva um Estado forte no futuro próximo. Se isso não acontecer, as milícias logo levarão a rivalidades armadas entre os vilarejos e a uma cultura sangrenta de gangues. Nesse caso, as arbakis seriam apenas as predecessoras de uma guerra civil. 

Aprendendo com as experiências no Iraque

No distrito de Khan Abad, em Kunduz, as milícias que lutavam juntas contra o Talebã em novembro já se desentenderam. “Logo será cada um por si”, prevê Abdul Mohammed do vilarejo de Aqtash, que vende potes e jarras de plástico na feira local.

Os norte-americanos, entretanto, também veem oportunidades no novo rumo que as coisas tomaram. Representantes do governo local estão até mesmo equipando as milícias com armas e munição, como parte de um programa que o Exército dos EUA chama de “Iniciativa de Defesa Comunitária”. O general Stanley McChrystal, comandante norte-americano da Isaf, vê as milícias locais como aliados potencialmente fortes na luta contra o Talebã. 

Antes de ir para Cabul, McChrystal analisou cuidadosamente os erros cometidos na invasão do Iraque e quais estratégias acabaram resultando numa paz ainda que frágil. Entre elas estavam os “Filhos do Iraque”, milícias sunitas que, depois de anos de guerra, começaram a se voltar contra os terroristas da Al Qaeda em agosto de 2006, eventualmente expulsando-a de seu posto de resistência na província de Anbar. Esses homens conheciam cada canto de seus vilarejos, uma qualidade que, combinada com a superioridade técnica dos norte-americanos, produziu os resultados desejados. 

No Afeganistão, o plano é incorporar as arbakis na aliança ocidental como uma espécie de grupo de soldados de infantaria sem muita organização. Milhares desses homens armados defenderão seus próprios vilarejos. “A ideia é convencer as pessoas a assumirem a responsabilidade pela sua própria segurança”, diz um coronel norte-americano da equipe de McChrystal em Cabul. Suas forças especiais trabalham junto com os comandantes das milícias, e em Kunduz, duas forças já estão perseguindo o Talebã juntas. 

Temores da população

Em Kunduz, o chefe de inteligência regional se ajoelha em frente a um mapa gigante, tão detalhado que inclui até os menores riachos e vilarejos. O general Mohammed Daud Ibrahimi, 43, é um homem com ar poderoso, cabelos espetados e olhos penetrantes. Ele passa os dedos pelo mapa e aponta para onde os insurgentes do Talebã estão localizados: no centro, em Gor Tapa, mais ao sul, em Aliabad, e nas “áreas limpas” no nordeste. O serviço de inteligência afegão, NDS, passou a ser uma espécie de escritório de coordenação para as milícias do norte. 

Hoje, centenas de homens armados que vigiam áreas problemáticas relatam atividades incomuns para a sede do NDS em Kunduz. Isso é, em parte, uma conquista do general Daud. “Em lugares onde eles não eram ativos, convenci os moradores no final do ano passado, vilarejo por vilarejo. Forneci munição, e disse: 'Lutem contra o Talebã vocês mesmos. Foi assim que transformei Kunduz num lugar seguro novamente'.” 

Mas ainda há uma clara discrepância entre os temores da população e as palavras dos funcionários de segurança afegãos que alegam, depois de toda operação, que a região em questão está livre de terroristas. A população sente que o Talebã está apenas se retirando para depois voltar com uma força ainda maior, mesmo após a prisão de um importante comandante do Talebã em Kunduz, Mullah Salam, no Paquistão, há algumas semanas. 

As milícias já tomaram controle da parte norte do país antes. Na época, elas também prometeram proteger a população, e os verdadeiros problemas giravam em torno de quem tinha poder e influência em Kunduz, e quem estavam cobrando tarifas nas estradas e taxas sobre os carregamentos de drogas. Isto aconteceu no começo dos anos 90, depois da retirada das tropas soviéticas. 

A volta dos bons e velhos tempos

Os novos aliados da coalizão ocidental são os mesmos líderes de milícias daquela época, comandantes menores como Abdul Gafar de Kanam-i-Kalan, que celebraram suas primeiras vitórias durante a invasão soviética e preferem a luta à paz. Eles também incluem homens como Mir Alam, um comandante famoso. 

Alam está sentado em sua sala de estar, batendo afetuosamente nas costas de sua filha de dois anos e sorrindo. O guerrilheiro veterano é um dos mais temidos em Kunduz. Ele já foi um dos comandantes que serviram Ahmed Shah Massoud, o maior estrategista da Aliança do Norte, que lutou contra o Talebã. Ele também apoiou o ex-presidente afegão Burhanuddin Rabbani, cujas tropas passaram por todo o país, saqueando, roubando, sequestrando e estuprando. Muitos moradores de Kunduz se lembram dessa época como os piores anos de suas vidas. E agora eles devem ver esses mesmos homens como seus novos protetores? 

Depois da campanha conduzida pelos norte-americanos e seus aliados, Mir Alam foi destituído do poder por algum tempo. Soldados norte-americanos vasculharam sua casa em busca de drogas e armas, e os comandantes do Bundeswehr alemão evitaram qualquer contato oficial. Mir Alam entregou duas mil armas, mas, de acordo com moradores, ele manteve mais três mil escondidas. 

Depois, alguns meses atrás, o chefe de inteligência Daud chamou pessoalmente o veterano guerrilheiro de volta à ativa. Os dois homens estão ligados por estreitos laços de família – a irmã do general é casada com Mir Alam. O antigo e novo chefe de milícia era a melhor alternativa para o general Daud organizar, no ano passado, a campanha defensiva das milícias na região. Mir Alam também tem um contato estreito com as forças armadas dos EUA, e foi até mesmo mencionado como o futuro chefe de polícia de Kunduz.

No final de nosso encontro, Mir Alam posou para fotos no jardim com seus antigos colegas soldados, todos sorrindo, como faziam no passado. Os bons e velhos tempos, que foram qualquer coisa exceto bons para os moradores de Kunduz, aparentemente estão de volta. 

Enayat Najafizada contribuiu com a reportagem.

Tradutor: Eloise De Vylder

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