A batalha russo-americana pelo Chatroulette

Benjamin Bidder

No final do ano passado, apenas 500 pessoas utilizavam o site lançado por Andrey Ternovskiy. Atualmente o Chatroulette recebe cerca de 1,5 milhão de visitantes por dia. Com bilionários russos lhe oferecendo dinheiro e o Google do outro lado, o adolescente de Moscou precisa tomar uma decisão: Estados Unidos ou Rússia? 

Um carro com vidros escuros encosta ao lado de um adolescente magricela, em um bairro comum no norte de Moscou. Um homem de terno preto abre a porta da limusine. “Você está pronto, Andrey?” ele diz. “Nós estamos interessados no que você está fazendo. Entre!”

Usando calça jeans baggy e com cabelo castanho curto, Andrey Ternovskiy, 17 anos, é um notório aluno gazeteiro; ele falta às aulas o máximo que pode. E ao se sentar no banco traseiro de couro da limusine, ele se pergunta o que o homem – Felix, com o qual só esteve em contato online e por telefone– oferecerá. Um milhão de euros? Talvez três?

Porque Felix representa pessoas que têm dinheiro para gastar. E Ternovskiy tem o que todas as pessoas com dinheiro desejam: uma ideia brilhante.

Uma loteria humana

A ideia lhe ocorreu certa tarde chuvosa no ano passado: Chatroulette.com, um portal de Internet que funcionava mais aleatoriamente do que a função comum de bate-papo online ou a conversa por webcam. O site conecta aleatoriamente pessoas de todas as partes do mundo que estão conversando por webcams online. Uma espécie de loteria humana, por computador. Apesar de ser uma ideia nova, ela revelou ser uma que nem sempre é agradável. Além dos jovens curiosos por conversar com pessoas de outros países e em outros continentes, o site também atrai um certo número de pessoas estranhas e exibicionistas.

Em novembro, Ternovskiy ainda conhecia todos que estavam utilizando seu site –ele o desenvolveu originalmente para si mesmo e seus amigos. Mas logo estranhos começaram a aparecer em sua tela de contatos, estranhos de lugares tão distantes quanto os Estados Unidos e a Coreia, da Cidade do Cabo ou de Berlim. No início de dezembro, o Chatroulette contava com 500 usuários. Em janeiro, eram 50 mil. Atualmente 1,5 milhão de pessoas visitam diariamente o site, diz Ternovskiy. Representantes do Skype, Google e do Yandex, o concorrente russo do Google, estão cortejando Ternovskiy, assim como o magnata de Internet de Moscou, Yuri Milner. Felix, o motorista da limusine preta, está levando Ternovskiy para ver Milner.
O czar da Internet da Rússia

“Vocês devem investir agora”, Ternovskiy disse aos seus pais no final do ano passado, “porque estou expandindo”. Eles lhe deram o equivalente a 8 mil euros, que ele investiu em um pequeno servidor, atualmente funcionando debaixo da mesa de sua mãe. Ele também aluga capacidade adicional em Frankfurt, Alemanha. Mas muito mais é necessário para conquistar a Internet, o motivo para ele ter concordado em se encontrar com Milner.

Felix, o motorista, leva Ternovskiy até o distrito de negócios de Moscou, que é normalmente chamado de Moscow City, a resposta da capital russa a Manhattan. Aqui, no 57º andar de um arranha-céu, ficam os escritórios da empresa de Milner, a Digital Sky Technologies, ou DST.

No final de fevereiro, o empreendedor russo anunciou que estava investindo US$ 1 bilhão no site americano de rede social Facebook, o que o torna seu único grande acionista que não é americano. As estimativas são de que o valor d seus ativos seja de cerca de 500 milhões de euros.
Prestes a ser expulso

Milner e Ternovskiy conversam por uma hora e meia. O multimilionário gostaria de fechar negócio com o adolescente, que não vai à escola há semanas e está prestes a ser expulso. Afinal, Ternovskiy agora é um homem de negócios. Milner deseja comprar 10% do Chatroulette. Ele quer que Ternovskiy dê seu preço, mas o adolescente apenas enrola o empreendedor.

Ainda assim, Milner está determinado a não perder a mais recente tendência online. Com seus serviços de e-mail e redes sociais, o magnata de Internet alega já atrair 70% das requisições de páginas em língua russa para seus sites. Até o momento, ele já conseguiu superar a concorrência estrangeira e o Chatroulette poderia ser a joia da coroa.

Em sua estratégia de negócios, Milner poderia marcar pontos junto ao alto escalão da política russa. O presidente Dmitry Medvedev o nomeou recentemente para um posto em sua comissão para modernização da economia russa, juntamente com quatro ministros do Gabinete e o oligarca Mikhail Prokhorov, que é o homem mais rico da Rússia segundo a revista americana de negócios “Forbes”.
Estados Unidos ou Rússia?

Medvedev, que é um usuário entusiasta de Internet e ocasionalmente um blogueiro, está disposto a quebrar a hegemonia americana no ciberespaço –um plano ambicioso, particularmente considerando que os Estados Unidos são lar de muitos dos líderes de mercado na economia da Internet. O valor combinado do Google, Microsoft e Facebook chega aproximadamente a US$ 500 bilhões, ou cerca de um terço do produto anual da economia russa. Logo, se a Rússia –que conta com mais de 50 milhões de usuários de Internet e conta com um dos mercados que mais crescem– espera tirar a diferença, então ela precisará manter talentos como Ternovskiy em casa.

Mas Ternovskiy não assina imediatamente com Milner. Ele quer pensar na oferta de Milner primeiro. Quanto realmente vale sua ideia? Algumas estimativas a colocam entre 10 milhões e 30 milhões de euros. E ele deve se unir a um parceiro de negócios russo ou a uma empresa americana?

Ternovskiy está sentando em casa em seu pequeno quarto, com menos de 3 metros quadrados. Parcamente mobiliado, há uma mesa, uma cadeira, dois monitores e nenhum pôster nas paredes. Ele checa seus e-mails em uma das telas. Apenas entre os e-mails de ontem, ele recebeu quase uma centena de pedidos de entrevista. Ele não responde a nenhum.

O Chatroulette está rodando em outro computador. A dança arbitrária das pessoas conversando no Chatroulette gira em torno de uma disputa por atenção. Qualquer um que pareça chato ou desinteressante é clicado fora em segundos. E Ternovskiy está trabalhando para manter os “malucos e tarados”, como ele os chama, fora do site.

Sonho adolescente

O jovem russo adora Kevin Mitnick, o lendário hacker americano que teria invadido os sistemas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos uma centena de vezes. Quando Ternovskiy tinha oito anos, sua mãe notou que ele estava passando seu tempo em sites de hackers. Aos 15 anos, ele invadiu os sistemas da autoridade de ensino de Moscou e, se passando por um diretor de escola, conseguiu obter documentos de provas.

“A Internet é o meu mundo”, diz Ternovskiy. “Ela conecta Moscou com o Ocidente.” Seu sonho, ele explica, é ser dono de sua própria empresa do Vale do Silício, a região de alta tecnologia da Califórnia e berço de empresas como Yahoo, Intel e Apple.

A cabeça de Ternovskiy está cheia das coisas que ouviu no escritório de Milner antes de partir. Nós lhe daremos todo o dinheiro que precisar, eles disseram. O que você quer na América? Os impostos são mais baixos aqui na Rússia. E se você decidir ir, nos permita ir com você. Nós o colocaremos em contato com as pessoas certas.

Ternovskiy pega um táxi. Ele tem outro compromisso. Mas ele parece nervoso ao digitar em seu telefone inteligente. Ele planeja viajar nas próximas semanas –sozinho. Sem Felix. O táxi para em frente de uma grande embaixada. Ternovskiy está aqui para pedir um visto –para os Estados Unidos. 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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