Alemanha quer tirar o atraso na América do Sul

Jens Glüsing e Ralf Neukirch

  • EFE

    O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, recebe o ministro da Alemanha, Guido Westerwelle,no Palácio Itamaraty, em Brasília, durante a visita oficial do diplomata alemão por vários países latino-americanos como Chile, Argentina e Uruguai

    O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, recebe o ministro da Alemanha, Guido Westerwelle,no Palácio Itamaraty, em Brasília, durante a visita oficial do diplomata alemão por vários países latino-americanos como Chile, Argentina e Uruguai

Enquanto o restante do mundo buscava oportunidades de negócios na América do Sul, Berlim permanecia sem fazer nada. Agora, com o ministro das Relações Exteriores, Guido Westerwelle, buscando algo em que possa deixar sua marca, isso pode mudar.

Viagens à América do Sul nem sempre são fáceis. Um dos primeiros alemães a viajar para o continente escapou por pouco de terminar em um caldeirão de sopa. Em 1550, Hans Staden, um mercenário da cidade hessiana de Homberg, foi à América do Sul a pedido dos colonos portugueses. Não longe de onde se encontra hoje São Paulo, ele caiu nas mãos de povos indígenas canibais que queriam transformá-lo em sua próxima refeição. Ele se salvou oferecendo aos nativos seus serviços como xamã.

Nesta semana, 460 anos após Staden, um alemão está visitando o continente de novo. O ministro das Relações Exteriores, Guido Westerwelle, longe de ser um especialista em América Latina, está percorrendo a Argentina, o Uruguai e o Brasil –além de uma breve parada no Chile atingido pelo terremoto– juntamente com uma comitiva diversa. Ele espera transformar a região no foco de sua política exterior.

A abordagem de Westerwelle vem do entendimento de que o Brasil, em particular, está se tornando cada vez mais importante no palco internacional. Mas, como seus antecessores, ele também está buscando um tema de política externa para deixar sua marca. O ex-ministro das Relações Exteriores, Joschka Fischer, se concentrou no Oriente Médio, enquanto seu sucessor, Frank-Walter Steinmeier, se especializou na região do Cáucaso. Ambos buscaram ganhar estatura no palco internacional sem interferência da chancelaria.

Westerwelle está atraído pelo Brasil pelo mesmo motivo. A chanceler Angela Merkel monopolizou as relações da Alemanha com a Rússia, China, Estados Unidos e Israel. Mas ela nunca demonstrou algum interesse real pelo maior país da América do Sul.

A visita fugaz de Merkel
“Nós negligenciamos o Brasil”, reconhece um ex-diplomata alemão. “A Alemanha deu preferência às relações com a China e a Índia, enquanto seu status no Brasil diminuiu”, disse Roberto Abdenur, o embaixador brasileiro em Bonn e posteriormente em Berlim, de 1995 a 2002. Merkel só viajou uma vez à região. A caminho do encontro de cúpula da União Europeia com a América Latina em Lima, há dois anos, ela passou um dia e meio correndo por um país quase 24 vezes maior que o dela. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva gostaria de ter mostrado mais a ela, disseram funcionários do governo brasileiro após a visita fugaz.

O toque pessoal é mais importante na América Latina do que em outros lugares, mas a chanceler fria não é dada a abraços e tapinhas nas costas. Ironicamente, Lula poderia ser um parceiro receptivo para Merkel. Um ex-líder trabalhista, ele tem boas lembranças da Alemanha de seus tempos de sindicalista e tem um relacionamento caloroso com o ex-chanceler Helmut Schmidt.

Os ex-chanceleres Helmut Kohl e Gerhard Schröder também mantiveram fortes laços com o Brasil. Sob Schröder, Berlim e Brasília acertaram uma “parceria estratégica” em 2002, mas que até agora não foi além do discurso.

Berlim demorou cinco meses para nomear um novo embaixador para o Brasil. E as negociações de um acordo de livre comércio entre a União Europeia e o bloco econômico sul-americano Mercosul se arrastam há mais de uma década. Berlim e Brasília nem mesmo conseguiram renovar o tratado de bitributação entre os dois países, que expirou há mais de quatro anos.

Parte da culpa é da arrogância
Economicamente falando, a Alemanha ficou para trás na região. Quando o Brasil privatizou as telecomunicações nos anos 90, empresas espanholas, portuguesas e italianas entraram no mercado, enquanto os alemães estavam concentrados em seus próprios problemas com a gigante de telecomunicações Deutsche Telekom. Eles também perderam a desregulamentação do setor bancário, permitindo que bancos espanhóis ingressassem no mercado. “A Alemanha apenas recentemente reconheceu a importância do Brasil”, diz o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, Miguel Jorge.

Parte da culpa é da arrogância. No passado, os políticos alemães eram rápidos em admoestar os latinos sobre gestão do orçamento e política econômica. Mas, na verdade, alguns países latino-americanos estavam mais bem preparados para lidar com a crise financeira do que os países membros da União Europeia.

Enquanto isso, outras potências econômicas estão se beneficiando com o boom na América Latina. Em muitos países, a China despontou como a parceira comercial mais importante. Paris está bajulando o presidente da Bolívia, Evo Morales, na esperança de obter acesso aos enormes depósitos de lítio do país, um metal utilizado nas baterias dos novos carros elétricos.

Agora é tarde demais
No Brasil, em particular, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, está roubando o show dos alemães. O francês se encontrou com o presidente Lula quatro vezes nos últimos 18 meses, e agora a dedicação de Sarkozy está rendendo frutos. O estaleiro Howaldtswerke-Deutsche Werft ficou de mãos vazias quando o Brasil expandiu sua frota de submarinos, enquanto os franceses foram rápidos em fechar negócios com os brasileiros. Lula também pretende comprar novos aviões militares de Paris.

“Nós não podemos deixar o Brasil para nossos vizinhos europeus”, alertou Karl-Theodor zu Guttenberg quando ainda era o ministro da Economia da Alemanha. Mas agora pode ser tarde demais. Os países do Pacífico, Chile e Peru, estão voltados para a Ásia, a Argentina está voltada para seus próprios interesses, o México está à sombra dos Estados Unidos e o Brasil está cultivando alianças com outros países emergentes.

Até o momento, não há um conceito político por trás do interesse de Westerwelle na América do Sul. Além disso, apenas a chanceler pode iniciar um verdadeiro aprimoramento das relações. Mas Merkel já tem sua atenção quase que totalmente tomada, enquanto tenta manter unida sua coalizão de governo, restando a Westerwelle deixar sua marca na América do Sul.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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