Um presidente francês cansado enfrenta duras eleições regionais

Stefan Simons

Em Paris (França)

  • Reuters

    Eleições regionais na França representam teste difícil para o presidente, Nicolas Sarkozy

    Eleições regionais na França representam teste difícil para o presidente, Nicolas Sarkozy

Ele é impopular, está isolado e fez inimigos dentro de seu partido. O presidente Nicolas Sarkozy está tendo dificuldades para encontrar algum sucesso. As eleições regionais em todo o país ameaçam se transformar em uma derrocada do partido ou conservador do líder francês, o UMP.

As viagens presidenciais aos cantos mais distantes deste país fazem parte do plano de Sarkozy: seja na indústria, artes, cultura ou ciência, o líder francês gosta de encontrar o pano de fundo apropriado para anunciar reformas, novos programas e planos de ação. No último domingo, ele anunciou novos subsídios para agricultores dentro de um estábulo em uma feira agrícola. O treinamento profissional e os empregos foram temas apresentados no distrito de Doubs, no leste da França.

O comparecimento presidencial na mesa-redonda deveria simbolizar a estreita ligação de Sarkozy com a população francesa. "Estou feliz por estar aqui", disse Sarkozy, elogiando a região do Franche-Comté (que incluiu o distrito de Doubs) como "a mais importante região industrial da França". Mas apesar de a visita do presidente ter sido cuidadosamente encenada e ocorrido diante de uma multidão educada e receptiva, a visita relâmpago à cidade de Pontarlier, em Doubs, não pareceu exatamente um exercício de liderança política. Em vez de ser visto como vitorioso, Sarkozy pareceu estar ao mesmo tempo demasiado sensível e agressivo.

Quedas recordes nas pesquisas

Há muitos motivos possíveis para o clima ruim: a popularidade do líder francês caiu aos níveis mais baixos nas últimas pesquisas, o desemprego aumentou para 10%, o nível mais alto em uma década, e as pesquisas sobre as próximas eleições regionais que ocorrem neste domingo preveem uma clara e dramática perda para o partido conservador de Sarkozy, a União para um Movimento Popular (UMP).

Além disso, rumores sobre o relacionamento de Sarkozy com sua esposa, Carla Bruni-Sarkozy, estão circulando em Paris. Enfraquecido por suas próprias fragilidades políticas, assim como por um racha em seu próprio partido, Sarkozy não exibe mais a aura de machão que antes possuía, nem mesmo as características de um administrador hiperativo. Em vez disso, alguns dias antes das eleições regionais ele parece cansado de seu cargo.

Mais uma vez, o esforço que ele precisa fazer não é pequeno. As eleições de domingo ocorrem em 26 regiões, com 254 chapas e 1.830 assentos - mais ou menos o equivalente a eleições simultâneas em todos os estados da Alemanha. O poder em 22 órgãos representativos regionais entre o Mediterrâneo e o canal da Mancha está sendo contestado. Até agora a oposição de esquerda governou em todos eles, com exceção da Alsácia e da Córsega. Fora da França, também serão eleitos representantes em Guadalupe, Martinica, Guiana Francesa e Reunião.

Um teste definitivo

O primeiro turno de votação não tem a ver com a indicação de políticos para cargos nacionais, e o voto regional não modificará o claro equilíbrio de poder no Parlamento em Paris. Partidos e políticos simplesmente tentarão se qualificar para uma votação em segundo turno, a se realizar no próximo fim de semana. Mas esse exercício de democracia está sendo considerado um barômetro da popularidade do presidente, assim como um teste definitivo da administração na metade do mandato de Sarkozy.

Como tal, a última parece devastadoramente ruim. Empresas estão fechando, agricultores estão relatando rendas menores e no próximo ano até um milhão de franceses que hoje recebem auxílio-desemprego ameaçam cair na pobreza quando forem transferidos para as listas da previdência. A administração prevê um crescimento de 1,4% do PIB, mas o Banco Central da França reduziu sua previsão de crescimento para apenas 0,4% no primeiro trimestre.

Tradicionalmente, existe insatisfação entre professores, profissionais de cuidados infantis e pais sobre os cortes de empregos de Sarkozy na educação. E esta semana juízes e advogados se manifestaram contra as reformas no sistema judicial. Trabalhadores, pessoas que vivem em áreas rurais e cidadãos conservadores se afastaram de Sarkozy, e sua equipe no palácio do Eliseu parece estar permanentemente em conflito com seus colegas no Hôtel Matignon, onde reside o primeiro-ministro François Fillon. Os políticos conservadores estão sentindo a falta de uma mensagem clara vinda do topo. E quanto ao poder de Sarkozy? "Ele o perdeu", queixa-se um membro de seu partido. "Ele mal consegue controlar suas expressões faciais."

Oposição otimista, até a extrema-direita

O Partido Socialista (PS), de esquerda, deverá se beneficiar da queda de popularidade de Sarkozy mais que qualquer outro. Há apenas algumas semanas, Martine Aubry era considerada uma líder temporária e fraca do PS, mas hoje ela parece estar em alta, o que inspirou a esperança de um retorno do PS que havia sido praticamente declarado morto. Durante a campanha eleitoral houve um impasse inesperado entre a liderança parisiense dos socialistas e um figurão da região do Languedoc, que foi expulso do partido depois de fazer comentários antissemitas. Hoje ele concorre na eleição como independente. Mas a disputa provavelmente vai melhorar a posição de Aubry dentro do partido.

Os comunistas, o Partido da Esquerda e outros menores também estão otimistas. Pesquisas feitas antes do primeiro turno deste fim de semana indicam que os socialistas lideram por uma pequena margem, por isso é provável que os partidos de esquerda menores sejam decisivos para o resultado do segundo turno. É por isso que o Partido Verde francês também está contando com uma repetição de seu sucesso nas eleições para o Parlamento Europeu, onde quase venceu os socialistas.

Até membros do partido de extrema-direita da França, a Frente Nacional (FN), estão otimistas. Marine Le Pen, filha e sucessora do ex-líder do partido, Jean-Marie Le Pen, conseguiu habilmente acrescentar algumas políticas populistas aos tradicionais slogans anti-imigração de seu partido. Durante a campanha eleitoral no distrito de Pas-de-Calais, no norte, ela criticou o crime assim como a mudança da produção francesa para locais no exterior. "Os trabalhadores estão cansados dos comunistas e também não acreditam em uma palavra do que Sarkozy diz", disse Le Pen, fazendo uma previsão de "boas perspectivas" para seu partido na área.

Um eleitorado cansado

Os números poderiam funcionar, especialmente se o comparecimento dos eleitores ficar abaixo de 50% - um resultado que é plausível pelo menos no primeiro turno. Isso também poderá acontecer porque a esperança que foi colocada na mudança política - o tipo de esperança que viu Sarkozy derrotar Ségolène Royal, a candidata socialista para a presidência francesa, com uma maioria de 84% em 2007 - foi derrotada pelo "blues" de meio de mandato. "A ideia de que falta poder à liderança política para combater os problemas da sociedade francesa, e além disso o desemprego, é responsável", diz Brice Teinturier, do instituto de pesquisas TNS Sofres, sobre as atitudes do público francês. "A decepção é equivalente à (antiga) expectativa."

Sarkozy já prevê uma possível derrota eleitoral. Ele disse que haverá uma "pausa" em suas reformas planejadas. Uma reformulação do gabinete, que significaria um novo começo político, não está nas cartas - seria um sinal de que Sarkozy está cedendo. Além disso, ele disse a ouvintes na mesa-redonda em Pontarlier, "este é um problema francês", e não se devem confundir essas questões.

"Eleições locais exigem consequências locais; eleições nacionais exigem consequências nacionais", ele disse.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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