Documentos confidenciais sobre criminoso nazista podem ser divulgados após 50 anos

Leon Dische Becker

  • AFP

    O passaporte falso com que o nazista Adolf Eichmann entrou na Argentina em 1950 encontrado nos arquivos de uma corte de Buenos Aires

    O passaporte falso com que o nazista Adolf Eichmann entrou na Argentina em 1950 encontrado nos arquivos de uma corte de Buenos Aires

Cinquenta anos depois da prisão do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann pela Mossad israelense na Argentina, detalhes básicos de seus 15 anos como fugitivo continuam sendo segredo do governo. Os arquivos guardados pela agência de inteligência externa da Alemanha, a BND, continuam confidenciais até hoje – supostamente por motivos de segurança nacional. Um jornalista alemão entrou com um processo num tribunal federal pela divulgação dos arquivos.

Cinquenta anos se passaram desde a prisão de Adolf Eichmann, mas a agência de inteligência externa da Alemanha, a BND, ainda espera evitar a divulgação dos arquivos que detalham os movimentos do criminoso no pós-guerra. Um Tribunal Administrativo Federal em Leipzig está examinando quase 4.500 páginas de documentos secretos sobre Eichmann, um dos principais responsáveis pelos planos de Hitler para assassinar os judeus da Europa. O tribunal logo deve decidir se as justificativas do BND para manter os arquivos confidenciais ainda são aplicáveis e estão alinhadas com as leis de liberdade de informação do país.

O tribunal está usando procedimentos fechados “in curia” no qual os três juízes que consideram o caso são as única pessoas que têm acesso aos arquivos.

“O que é especialmente interessante é a grande quantidade de documentos que o governo está escondendo”, diz o advogado Remo Clinger, cuja empresa de advocacia Geulen & Klinger está representando a jornalista Gabriele Weber em seu caso diante do tribunal de Leipzig.

De acordo com a documentação enviada ao tribunal, o BND afirma que o segredo é necessário porque boa parte da informação contida nos arquivos foi fornecida por um “serviço de inteligência estrangeiro” não revelado. Se a informação fosse divulgada, argumenta o BND, isso faria com que outras nações não queiram compartilhar informações de inteligência com a Alemanha no futuro. “Isso afetaria negativamente as cooperações futuras entre serviços de inteligência estrangeiros e as agência de segurança alemãs”, argumentam os advogados do BND. O fato de que os arquivos são confidenciais levantou especulações consideráveis quanto à origem dos serviços de inteligência. O BND esclareceu que as informações não vieram de uma fonte norte-americana, e acredita-se amplamente que elas vieram da Mossad israelense, cujos agentes capturaram Eichmann em Buenos Aires em 1960. Em seguida ele foi levado a julgamento em Israel, onde foi condenado e enforcado.

Níveis até então desconhecidos de conluio

Uki Goñi, um proeminente jornalista argentino e especialista em fugitivos do pós-guerra nazista, tem um interesse especial pelos arquivos do BND e acha que as referências a um serviço de inteligência estrangeiro são uma desculpa para confundir. “Eles poderiam facilmente editar o nome do serviço de inteligência e o nome dos informantes”, disse ele à “Spiegel Online”. “Os arquivos revelariam níveis até então desconhecidos de conluio entre o governo alemão e os nazistas que fugiram do continente para escapar da justiça.

Em seu livro, “The Real Odessa”, que descreve como o regime de Peron ajudou sistematicamente criminosos de guerra nazistas, Goñi documenta como esses criminosos viviam em liberdade em Buenos Aires. Membros do Serviço Exterior Alemão e nazistas visitavam os mesmos estabelecimentos e bebiam no mesmo bar. Os nazistas tampouco escondiam sua ideologia: “eles entravam e usavam sua saudação habitual”, disse Goñi à “Spiegel Online”. Eichmann não sentia necessidade de ficar na surdina naquela comunidade. A embaixada alemã em Buenos Aires deu a sua mulher e filhos passaportes com seus nomes verdadeiros, da mesma forma como haviam concedido um passaporte ao infame médico nazista Josef Mengele.

O advogado Reiner Geulen acredita que a informação mais explosiva contida nos arquivos está relacionada à fuga de Eichmann da Alemanha. “Ele estava bastante eloquente em Jerusalém – ele sabia que ia morrer de qualquer forma”, disse Geulen. De acordo com Geulen, Eichmann explicou em grandes detalhes quem o ajudou a fugir da Alemanha e depois da Europa – informação em que os israelenses estavam muito interessados. “Há bons motivos para acreditar que ele recebeu ajuda de funcionários alemães, italianos e do Vaticano”, diz ele.

“Chegou a hora de abrir os arquivos”

Um dos problemas foi a relutância bem documentada da Alemanha Ocidental em caçar criminosos de guerra nazistas. “Por que você acha que o promotor de Auschwitz e o promotor público de Frankfurt, Fritz Bauer, viajou para Israel para contar sobre o paradeiro de Eichmann em vez de contar para seu próprio governo?”, pergunta Wilhem Dietl, ex-agente da BND e autor de um livro sobre o desaparecimento de Eichmann na Argentina. “Ele não confiava que os alemães quisessem encontrar Eichmann.”

A biógrafa de Bauer, Irmtrud Wojak, concorda. Ela acredita que Bauer relutou em contar sobre o paradeiro de Eichmann para seu próprio governo por causa do número de ex-nazistas no governo. “Por fim, Werner Junkers, um ex-nazista, era o embaixador na Argentina”, escreveu ela. Bauer temia que alguém no governo pudesse avisar Eichmann.

O filho de Adolf Eichmann, Ricardo Eichmann, um arqueólogo de Berlim que expressou repetidas vezes seu desgosto em relação ao pai, concorda com essa visão. “O que quer que esses arquivos digam”, falou ele à “Spiegel Online”, “chegou a hora de abri-los para avaliação acadêmica”.

Reiner Geulen, da Geulen & Klinger, está confiante de que o julgamento em Leipzig terá resultados. “Nós imaginamos que muitos desses arquivos serão divulgados, embora eles possam ser fortemente editados”, disse ele. A decisão deve sair em breve.

O jornalista Goñi, por sua vez, acredita que divulgar a informação fará com que a reputação da Alemanha melhore, e não que ela se suje. “O que quer que o serviço secreto alemão tenha feito nos anos 50 não deveria envergonhar ninguém hoje”, diz ele. “A única coisa que deveria ser embaraçosa hoje é que eles estão tentando esconder essa informação.”

Tradutor: Eloise De Vylder

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