"Isso não é um videogame", diz piloto de avião não tripulado

Mark Pitzke

Em Nova York (Estados Unidos)

O major norte-americano Bryan Callahan não é piloto. Mas enquanto ele está sentado em frente a um monitor de vídeo nos Estados Unidos, o seu avião está voando sobre o Afeganistão. Em uma entrevista a “Spiegel Online”, ele diz como é operar veículos aéreos não tripulados (VANTs), fala das dificuldades em travar uma guerra em turnos e sobre os estresses diários do seu trabalho.

Spiegel Online: Major Callahan, você começou pilotando aviões de caça F-16. Agora você pilota VANTs operados por controle remoto. Quais são as diferenças entre as duas situações?

Major Bryan Callahan: A primeira grande diferença é fazer com que o cérebro entenda o fato de entrarmos em um avião que já está voando e avistando o alvo do outro lado do mundo. A seguir a gente voa por um determinado período e simplesmente passa o controle para uma outra pessoa. Antes, ao voar em um avião comum, eu entrava na sala de controle, era informado sobre a missão, saía pela porta, levantava voo, executava a missão, aterrissava e passava as informações obtidas. Agora eu caminho até o trabalho, basicamente dou um tapinha no ombro de um cara, dou uma olhada rápida no que está acontecendo e dou continuidade ao voo. E, algumas horas depois, uma outra pessoa bate no meu ombro e toma o meu lugar. É muito diferente. Demora um pouco para que nos acostumemos a isso.

Spiegel Online: É mais fácil ou mais difícil?

Callahan: De certa forma, é mais difícil. Quem pilota um caça F-16, está lidando com um avião de alto desempenho, e é responsável por vários armamentos e sensores diferentes. Você levanta voo, e uma hora depois está de volta. É uma operação bastante finita. No caso de um VANT, o indivíduo pode trabalhar em uma determinada operação durante semanas. Isso exige muita coordenação, há várias outras agências envolvidas com as quais ele nunca lidou antes. É um trabalho muito mais interconectado. Um VANT está longe de ter o mesmo desempenho e a robustez de um caça, e quando se está operando um aparelho desses por controle remoto do outro lado do mundo com um pequeno atraso na resposta aos comandos, não é possível dar simplesmente uma espiada pela janela. Isso é um desafio, sob o aspecto mental.

Spiegel Online: E depois disso o indivíduo entra no carro e dirige para casa.

Callahan: De manhã você segue de carro ou de ônibus para o trabalho, opera o VANT durante oito horas, e depois dirige de volta para casa.

Spiegel Online: Não é difícil fazer a transição todos os dias entre a guerra e a vida civil?

Callahan: Sim. Os indivíduos falam bastante sobre isso com as suas famílias. Provavelmente nós estudaremos esta questão durante muito tempo. Antigamente, fazíamos uma guerra 24 horas por dia e sete dias por semana, e quando íamos para casa, estávamos de fato em casa. Agora as coisas são diferentes. Eu vejo os meus e-mails de manhã, corro para assumir o controle do VANT, saio, sigo para a loja da base, como um hambúrguer, vejo novamente os meus e-mails, opero de novo o VANT, vou para casa. É necessário um ajuste para isso.

Spiegel Online: Como é que você lida com isso?

Callahan: Os pilotos são muito bons em compartimentalizar situações. Eles nos ensinam isso desde o início e com frequência. É necessário afastar coisas desse tipo da mente e colocá-las no seu devido lugar. Nós fazemos isso muito bem.

Spiegel Online: O que é que você afasta da mente?

Callahan: Há estresse, mas é diferente. No caso de um caça F-16, trata-se de uma hora ininterrupta de pura adrenalina. Parte disso diz respeito à sobrevivência pessoal, a manter-se controlado e seguro. No caso dos VANTs, temos uma situação que lembra mais uma ação lenta. Mas nós ainda assim nos dedicamos bastante ao que estamos fazendo. Nos concentramos mais do que seria de se esperar de pessoas que estão em Nevada.

Spiegel Online: Como assim?

Callahan: Por exemplo, você está tentando proteger alguns soldados lá embaixo. Você tenta ajudá-los em qualquer situação na qual eles estejam envolvidos. Há casos em que não conseguirmos fazer nada imediatamente, e isso nos dá uma sensação de impotência.

Spiegel Online: A sua próxima segurança física faz uma diferença para você?

Callahan: Pode parecer estranho, mas o fato de estar longe e seguro é um fator meio negativo. Os outros caras estão se expondo, e, para mim, isso ainda é a coisa mais nobre a ser feita. Portanto, eu me sinto como se os estivesse ludibriando. Estou relativamente seguro. Se eu cometer um erro ou deixar de perceber algo, se fracassar em um ataque, vou desejar que eu é que estivesse lá embaixo, em vez deles. Às vezes, eu sinto como se os estivesse abandonado.

Spiegel Online: Quais são exatamente os benefícios dos VANTs?

Callahan: Há vários. Por exemplo, eu posso de fato dar ao comandante das tropas algum tempo para decidir o que fazer. Com um F-16, este período é de cerca de 30 ou 45 minutos, e o comandante pode receber um quadro apenas parcial do que está se passando. Já um VANT surge em cena com uma gama bem vasta de armas, e você tem quatro horas de ação. Portanto, eu não preciso destruir o meu alvo imediatamente. Posso observar o cara, ver quem são os seus amigos. Quando se trata de atacar, eu posso atacar qualquer coisa. Posso fazer com que o comandante de tropas ganhe tempo.

Spiegel Online: Quem toma a decisão de atacar alvos?

Callahan: Isso depende da missão. Na maioria das vezes, é o comandante das tropas em terra que tem a suprema autoridade.

Spiegel Online: Então aqui nos Estados Unidos não se escolhem alvos humanos específicos?

Callahan: Esse não é de fato o modus operandi daquilo que estamos fazendo. Buscar pessoas específicas. A nossa maior preocupação é proteger os nossos soldados em terra.

Spiegel Online: Você acredita que os VANTs algum dia substituirão completamente as tropas?

Callahan: Creio que não. Os VANTs não substituirão os soldados. Isso é um departamento completamente diferente na área de defesa nacional.

Spiegel Online: Mas os VANTs estão se tornando cada vez mais comuns.

Callahan: É verdade. Para a força aérea, os VANTs são agora parte do nosso DNA. Inicialmente não tivemos muito entusiasmo, mas decidimos tentar. E a partir daí a tendência foi crescendo. Atualmente não se vai a lugar algum em que não haja um Predator ou um Reaper. Nós somos parcialmente vítimas do nosso próprio sucesso. Além disso, operamos esses aparelhos em uma guerra que ressalta as vantagens dos VANTs. Neste momento as desvantagens não se constituem muito em um problema. Mas poderão se constituir em futuros conflitos.

Spiegel Online: De que desvantagens você está falando?

Callahan: Por exemplo, não dá para simplesmente inclinar o avião não tripulado e dar uma olhada pela janela. Eu tenho que usar todas esses indicadores externos. Às vezes usamos literalmente um mapa com alfinetes, no computador. Em um F16, eu posso usar os meus olhos. Posso criar aquilo que chamamos de consciência situacional em dois segundos. Conto com a capacidade de atingir um alvo rapidamente.

Spiegel Online: Alguns descrevem a experiência de pilotar VANTs como a transformação da guerra em um videogame.

Callahan: Matar uma pessoa com um VANT não é diferente de matá-la com um avião F-15. É fácil pensar que há diferença, e assim caímos em uma armadilha. Temos plena consciência de que apertarmos aquele botão alguém poderá morrer. Não se trata de um videogame. Levamos isso bastante a sério. É algo que está muito longe de ser um videogame.

Tradutor: UOL

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