Veículos não tripulados mudaram experiência com a guerra, diz especialista

Marc Pitzke

O especialista norte-americano em defesa P.W. Singer, da Brookings Institution, conversa com a “Spiegel Online” sobre o estresse a que estão sujeitos os pilotos dos veículos aéreos não tripulados, bem como sobre o risco de exaustão e colapso emocional. Ele diz que a experiência de guerra como um todo está sendo modificada pela nova tecnologia.

Spiegel Online: Senhor Singer, os veículos aéreos não tripulados (VANTs) estão se transformando na nova forma de combate?

P.W. Singer: Até recentemente, via-se isso como algo de anormal. Mas, hoje em dia, os VANTs e a guerra robótica em geral são na verdade o novo normal. No início usávamos apenas um punhado desses sistemas, mas atualmente temos 7.000 deles voando. E os Estados Unidos não são o único país a operar esses aparelhos. Há VANTs de 43 outros países, incluindo o Reino Unido, a Alemanha e o Paquistão.

Spiegel Online: Estamos entrando em uma nova era?

Singer: Sim. Você pode comparar isto com o impacto da invenção da pólvora, da imprensa e do avião.

Spiegel Online: Algumas pessoas temem que isso transforme a guerra em um videogame.

Singer: Essa afirmação é muito simplista. Estamos presenciando uma mudança na própria experiência da guerra. O ato de ir à guerra envolvia correr grandes riscos. Um dia o indivíduo pode não retornar para casa. Ele pode não ver mais a família. Agora é diferente. Um piloto de VANT me explicou a questão desta forma: você vai à guerra por uma hora, e depois entra no carro e vai para casa, e dentro de dois minutos está sentado na mesa de jantar conversando com os seus filhos sobre o dever de casa. Esta é uma experiência de guerra muito diferente.

Spiegel Online: Um piloto de VANT disse a “Spiegel Online” que ele padece do mesmo estresse e trauma.

Singer: Sim, tudo isso que está acontecendo não significa que não estejamos presenciando todos os tipos de novos fatores estressantes. No início, nós temíamos que os VANTs pudessem fazer com que os operadores deixassem de se preocupar de fato com aquilo que estavam fazendo. Mas a verdade acabou sendo exatamente o oposto. Eles podem se preocupar quase que demais. Estamos presenciando níveis mais elevados de estresse de combate em unidades remotas do que nas unidades no Afeganistão. Descobrimos que houve um aumento significativo de fadiga, exaustão e colapso emocional. Os operadores de VANT também têm uma maior propensão a viver relacionamentos domésticos problemáticos.

Spiegel Online: Qual é a explicação para esse estresse?

Singer: Existem teorias diferentes para explicar isso. Os pilotos de bombardeiros tradicionais não veem os seus alvos. Mas um operador remoto enxerga o alvo de perto, ele vê o que acontece durante a explosão e depois dela. O indivíduo está fisicamente distante, mas ele enxerga mais. Além disso, a guerra com VANTs é travada 24 horas por dia, e 365 dias por ano. A guerra não para no Natal. É como se esses operadores fossem bombeiros e houvesse um incêndio todos os dias. Isso é emocionalmente e fisicamente desgastante. Além disso, muitas unidades estão com menos operadores do que o ideal.

Spiegel Online: A situação não é mais fácil para os operadores de VANT, que voltam para casa todos os dias?

Singer: Não, existe uma desconexão entre a vida cotidiana e o trabalho. Você está na guerra, e dois minutos depois está modificando o ritmo do seu cérebro e pensando em praticar futebol americano com os seus filhos. As unidades de VANT não demonstram tanta coesão quanto as unidades tradicionais. Tradicionalmente, a unidade inteira compartilhava a experiência emocional. Não existe mais aquele “grupo de irmãos”.

Spiegel Online: Mas a questão fundamental não é os operadores de VANT estarem fisicamente em segurança? Isso não alivia o estresse de combate?

Singer: Nem um pouco. Eu certa vez conversei com uma sargento da força aérea que pilotava VANTs. Ela me contou como via soldados dos Estados Unidos sendo mortos no solo. Tudo o que os operadores de VANT podiam fazer era circular acima da batalha e observar. Não havia muito mais a se fazer.

Spiegel Online: Quais as consequências da guerra de VANTs para as nações que operam esses aparelhos?

Singer: Antigamente ir à guerra era uma decisão muito séria. Agora nós sequer necessitamos mais declarar guerra. Não pagamos impostos de guerra, não compramos títulos de guerra. Atualmente podemos fazer a guerra sem ter que lidar com as consequências de mandar os nossos filhos e filhas para uma situação de perigo. Isso também modifica a maneira como os políticos pensam sobre a guerra. As barreiras da sociedade contra a guerra já estavam caindo, e atualmente temos uma tecnologia que acaba de fato com essas barreiras.

Spiegel Online: Nós já passamos pelo ponto a partir do qual não há mais volta?

Singer: O debate está só começando em Washington. Existem paralelos com outros momentos históricos quando não houve mais volta. O automóvel em 1909. Os computadores antes de 1980. A bomba nuclear na década de quarenta. Isso está muito além de uma evolução; trata-se de uma revolução. É algo que acontece muito raramente na história. Esses acontecimentos nos obrigam a formular questões sobre o certo e o errado sobre as quais nunca antes pensamos.

Spiegel Online: Que questões?

Singer: Por exemplo, a questão do relacionamento da população com a guerra. A guerra de VANTs é documentada, baixada pela Internet. Ela é acessível a todos. É possível vê-la no YouTube. Isso está transformando a guerra, para alguns, em um tipo de entretenimento. Os soldados chamam isso de “pornografia de guerra”. Nós podemos ver mais, mas experimentamos menos.

Tradutor: UOL

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