Estados Unidos quer modernizar armas nucleares antigas espalhadas pela Europa

Otfried Nassauer

  • Leila Gorchev/AFP

    Avião F/A-18 C Hornet decola do porta-aviões americano Kitty Hawk, nas águas do golfo Pérsico

    Avião F/A-18 C Hornet decola do porta-aviões americano Kitty Hawk, nas águas do golfo Pérsico

O ministro de relações exteriores da Alemanha pediu a remoção das armas atômicas guardadas no país, um legado da Guerra Fria, mas alguns em Washington talvez tenham outros planos. O Departamento de Estado dos EUA está requisitando um orçamento de quase US$ 2 bilhões (em torno de R$ 4 bilhões) para modernizar os antigos modelos de armas nucleares norte-americanas, inclusive as mantidas na Alemanha. 

Em uma medida que teria um impacto no futuro das armas nucleares armazenadas na Alemanha e em outras partes da Europa, o Departamento de Energia dos EUA incluiu pedidos em sua última proposta de orçamento para fundos para modernizar partes do arsenal nuclear do país que está ficando velho –uma medida que parece contradizer a visão de um mundo livre de armas nucelares que o presidente Barack Obama anunciou no ano passado. 

De 2011 a 2015, a agência quer alocar cerca de US$ 2 bilhões para a modernização de seu arsenal de bombas atômicas B-61. Algumas dessas armas estão sendo mantidas na Europa, inclusive na base da força aérea alemã em Büchel. No total, a Força Aérea americana tem cerca de 150 bombas estratégicas B-61 em seu arsenal ativo, assim como cerca de 400 modelos não estratégicos e uma reserva de outras 200 bombas não estratégicas. 

As armas restaram da corrida armamentista nuclear durante a Guerra Fria na Europa. O governo alemão está pedindo a remoção das bombas por meio de consultas à Otan. O contrato de coalizão entre os cristãos democratas da chanceler Ângela Merkel e o Partido Democrático Livre (FDP) do ministro de relações exteriores Guido Westerwelle explicitamente afirma que o governo vai pedir a remoção das armas. De fato, a postura pública de Westerwelle em favor da remoção das armas nucleares causou alguma rejeição em Washington. A Alemanha e quatro outros membros da Otan esperam discutir a retirada de aproximadamente 200 armas nucleares que ainda estão sendo guardadas na Europa em uma reunião de ministros de relações exteriores da Otan em Tallinn, no final de abril. Se o pedido de orçamento for aprovado, pode significar maiores obstáculos na remoção das armas. 

Nos EUA, o Departamento de Segurança Nacional Nuclear (Nnsa) é responsável pelo desenvolvimento, construção e modernização das armas nucleares. A agência semi-autônoma faz parte do Departamento de Energia. Ela coordena de perto seus planos com o Pentágono. O diretor do Nnsa, Thomas d’Agostino, e o secretário de defesa, Robert Gates, defendem a ampla modernização das armas nucleares dos EUA assim como a infra-estrutura industrial que as sustenta. Eles já serviram sob o ex-presidente George W. Bush e defenderam tanto a modernização das antigas armas nucleares assim como o desenvolvimento de uma nova de geração, a chamada Ogiva de Substituição Confiável (RRW). 

Estudo de viabilidade 

A proposta de orçamento da Nnsa primeiro prevê um estudo de viabilidade para as opções de modernização para as “mais antigas armas nucleares em estoque”, as B-61. O estudo deve estudar as possibilidades de uma “extensão da vida” dos componentes das bombas “nucleares e não nucleares” –assim como para “reutilizar” o “pit”, os componentes nucleares do centro da bomba. 

Além disso, as armas –que podem ser transportadas pelo Tornado Europeu ou pelo americano F-15E e o caça F-16 C/D- seriam adaptadas para torná-las compatíveis com a próxima geração de caças capazes de levar bombas atômicas, tais como o americano Joint Strike Fighter. Após o término do estudo de viabilidade e a seleção dos componentes da modernização, seria iniciado o Programa de Extensão da Vida. O programa é o maior item de linha para o orçamento proposto da Nnsa 2011 e terminaria com o desenvolvimento de uma nova arma nuclear: a modificação 12 da B-61. 

O plano não é inteiramente novo. O Congresso já aprovou um orçamento inicial de US$ 32,5 milhões para 2010. O dinheiro permite um estudo inicial da modernização da B-61. O Congresso contudo, também estabeleceu condições para a aprovação de qualquer soma além da quantia e deixou claro que teria a decisão final de qualquer trabalho para modernizar os componentes nucleares. Um ano depois, o Nnsa está dando prosseguimento aos planos. O trabalho preliminar agora foi transformado em um projeto de bilhões de dólares que está recebendo a mais alta prioridade. 

De cinco variedades de bombas para duas modernas 

É um movimento ágil dos defensores da modernização das armas nucleares norte-americanas. Atualmente, há cinco versões da bomba B-61. Duas são usadas como armas para bombardeiros estratégicos: o Modelo 7 e o destruidor de abrigos nucleares Modelo 11. Três outras são armas nucleares táticas ou não estratégicas que também estão sendo empregadas em países da Otan. As armas guardadas na Europa são dos modelos mais antigos da B-61, Modelos 3 e 4, assim como o modelo 10, mais recente, que é usado como reserva e empregado nos EUA. O Modelo 10 tem ogivas modificadas construídas após os mísseis Pershing II terem sido destruídos como resultado do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Médio (INF). 

Sob o programa de modernização, os cinco modelos existentes seriam transformados em duas modificações da arma: o Modelo 11, destruidor de abrigos, e o mais recente modelo 12 de vários usos. Essa arma mais nova poderia ser usada a partir de 2018 em bombardeiros estratégicos assim como em caças táticos. 

O projeto, porém, ainda tem que ser aprovado. Primeiro o presidente Barack Obama precisa fazer a decisão final de sua “Revisão da Postura Nuclear”. O governo Obama está finalizando o documento que vai descrever os planos do presidente Obama para a futura política de armas nucleares dos EUA e logo vai submetê-lo ao Congresso. 

Disputas pesadas 

As últimas semanas foram marcadas por um debate contencioso sobre o relatório em Washington. Tanto o Departamento de Defesa quanto o de Energia querem manter as portas abertas para uma modernização ampla do arsenal nuclear e possivelmente até para a construção de novas armas. Eles estão atualmente em uma feroz disputa com o vice-presidente Joe Biden sobre se o relatório deve incluir passos práticos para marcar a visão de Obama de um mundo livre de armas nucleares e se o presidente ainda vai deixar aberta a possibilidade de modernizar as armas existentes. No final, será uma questão se o governo Obama vai eliminar publicamente o desenvolvimento de novas armas nucleares e, neste caso, o que o presidente classifica como arma “nova”. 

Hans Kristensen, diretor do projeto de informação nuclear da Academia de Ciência Federal acredita que os pedidos de verbas do Departamento de Energia também fazem parte de um jogo de pôquer por dinheiro. “Em Washington, você tem que exigir muito do Congresso se você quer ter o dinheiro aprovado para suas maiores prioridades após cumprir todos os compromissos normais”, disse ele. 

Kristensen vê o pedido de verbas do Departamento de Energia como um tiro inicial para a próxima rodada na batalha por dinheiro. Ele disse que seria altamente interessante ver “se a modernização das bombas B-61 será aprovada no final... é controverso. No ano passado, o Congresso já observou que o plano também ‘pode manter a porta aberta para novas armas nucleares’.”

Tradutor: Deborah Weinberg

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