Reino Unido vive a sua própria tragédia grega e terá que fazer cortes orçamentários

Marco Evers

  • Stefan Wermuth/Reuters

    O primeiro-ministro britânico Gordon Brown na chegada a sua casa em Londres, na Inglaterra

    O primeiro-ministro britânico Gordon Brown na chegada a sua casa em Londres, na Inglaterra

O déficit orçamentário da Grécia é absurdamente alto. Mas o do Reino Unido é ainda maior. O primeiro-ministro Gordon Brown terá uma tarefa bem definida neste ano eleitoral – e os cortes orçamentários que estão por vir serão dolorosos. 

No momento mais difícil da luta contra Adolf Hitler, o Ministério da Informação britânico – que existiu durante a Segunda Guerra Mundial – encomendou um pôster especial. Com o objetivo de promover a calma no cenário interno, ele mostrava a coroa do rei George VI contra um fundo vermelho, com as palavras “Mantenham a Calma e Sigam em Frente” impressas abaixo da imagem.

A situação jamais se tornou suficientemente desesperadora para justificar o uso do pôster, e os milhões de cópias impressas foram arquivados sem nunca terem sido utilizados. Dez anos atrás, um vendedor de livros descobriu uma única cópia e a pendurou na parede da sua loja. Isso poderia muito bem ter sido o fim da história do pôster, mas o país deparou-se subitamente com crises múltiplas: ataques terroristas, uma crise no setor bancário e, finalmente, a crise econômica e de crédito.

O pôster de um vermelho vivo está atualmente dependurado nas paredes dos gabinetes de vários diretores e membros do parlamento, em quarteis militares e dormitórios de estudantes. Ministérios inteiros o estão utilizando para estimular a moral, e versões emolduradas do pôster estariam até adornando as paredes de 10 Downing Street (residência e gabinete do primeiro-ministro do Reino Unido) e do Palácio de Buckingham.

Só que desta vez não está sendo fácil manter a calma e seguir em frente. A libra esterlina anda mal das pernas. A economia está mergulhada na pior crise desde 1931, e o país por muito pouco não despencou em uma recessão profunda. Os especuladores estão apostando que não haverá uma recuperação econômica. A instabilidade no setor financeiro tem provocado um impacto mais severo nas finanças do governo do Reino Unido do que nas de outros países industrializados. O déficit orçamentário de Londres chegará a 186 bilhões de libras esterlinas (205 bilhões de euros, US$ 280 bilhões, R$ 494,5 bilhões) neste ano – o que representa 12,9% do produto interno bruto do país. 

Ninguém sabe como resolver o problema

Este país, que já foi chamado de “Cool Britannia” (termo usado de meados até o final da década de noventa para descrever a cultura moderna do Reino Unido), está imerso em uma série crise, com um rombo no orçamento ainda maior do que o déficit orçamentário da Grécia, que atualmente é de 12,2%. E ninguém sabe como resolver o problema.

De fato, esse problema tornou-se tão preocupante que a Comissão Europeia disse na quarta-feira (17/03) a Londres que se empenhasse mais em enxugar o seu orçamento, segundo uma cópia de um relatório que foi vazado para a agência de notícias “Reuters” no início desta semana. “A estratégia fiscal delineada no programa de convergência do Reino Unido não prevê a correção do déficit excessivo até o ano fiscal de 2014/2015, conforme recomendado pelo conselho”, afirmou a Comissão Europeia na sua declaração.

Para tornar as coisas ainda mais complicadas, os britânicos irão às urnas daqui a algumas semanas, provavelmente em 6 de maio. O próximo primeiro-ministro terá uma tarefa definida pela frente: reduzir o déficit orçamentário maciço, reestruturar a indústria bancária e reorientar eficientemente a economia. E ele terá que fazer isso tudo com um orçamento limitado.

Ambos os candidatos darão aos eleitores motivos para que estes questionem as suas qualificações para implementar as medidas que se fazem necessárias. O atual primeiro-ministro, Gordon Brown, 59, quando ocupava o seu antigo cargo de chancellor of the exchequer (cargo equivalente ao do Ministro da Fazenda brasileiro) no governo do seu predecessor, Tony Blair, gabava-se de ter acabado para sempre com as oscilações da economia. Entretanto, mal ele recebeu o cargo de Blair e a economia do país despencou.

Brown foi ridicularizado na imprensa, enfrentou revoltas no seu partido e o desprezo da população. Mas ele foi persistente. O primeiro-ministro engoliu as críticas e gradualmente construiu a reputação de um gerente de crise capaz, pelo menos durante a crise econômica global. Pesquisas realizadas nos últimos anos demonstram que, embora poucos britânicos o apreciem, uma quantidade cada vez maior de eleitores está disposta a votar nele mesmo assim. 

Impostos e taxas mais elevados

Parte da imagem robusta de Brown deve-se primariamente ao seu adversário conservador, David Cameron, 43, que faz parte da arrogante classe alta, e cuja atuação como assessor especial do chancellor of the exchequer, durante a queda da libra esterlina em 1992, é considerada a sua única experiência em lidar com dificuldades econômicas. Além do mais, os seus colegas de partido questionam as qualificações de George Osborne, 38, o chancellor of the exchequer designado por Cameron.

O Reino Unido tem pela frente tempos difíceis. Tão difíceis, de fato, que nenhum dos partidos ousou dizer em voz alta aquilo que muitos dos seus membros já sabem. No mínimo, os britânicos podem esperar aumentos de impostos e taxas. “Teremos que fazer muitos sacrifícios”, avisa o economista Carl Emmerson, do independente Instituto para Estudos Fiscais, em Londres. “Os cortes no orçamento serão mais drásticos do que aqueles implementados no governo da ex-primeira-ministra Margaret Thatcher”.

Mais drásticos do que os de Thatcher. Estas palavras ainda hoje provocam um instinto de fuga – fuga para longe dos conservadores. Na década de oitenta, foram montadas nas ruas barricadas em chamas, e a polícia entrou em confronto com manifestantes. Foi uma época que os britânicos não esqueceram.

A Dama de Ferro pode ter defendido medidas austeras, mas os gastos reais do governo continuaram aumentando todos os anos durante o governo dela, com uma única exceção: 1988. Devido ao déficit do orçamento, o próximo governo, não importa quem seja o líder, não terá escolha a não ser reduzir drasticamente os gastos governamentais.

Os técnicos da PricewaterhouseCoopers calcularam que a partir do ano que vem o Reino Unido promoverá cortes orçamentários amplos da ordem de 5% ao ano a fim de reduzir o déficit pela metade até 2014. Mas, como o governo Brown já declarou que os orçamentos para a saúde, o sistema policial e a educação são intocáveis, são de se esperar cortes de até 10% por ano na maioria das outras áreas, segundo a PricewaterhouseCoopers. E a situação poderá piorar ainda mais se não houver uma recuperação econômica forte durante esse período. 

Era brutal

Ainda há desacordos quanto ao momento em que as medidas de austeridade devem começar a ser implementadas. Muitos conservadores querem que elas comecem a vigorar imediatamente, uma posição que foi defendida por 20 economistas proeminentes em uma carta famosa publicada no “Sunday Times”.

Alguns dias depois, os trabalhistas responderam com duas cartas, publicadas no “Financial Times” e assinadas por mais de 60 economistas proeminentes, incluindo dois laureados com o Prêmio Nobel. Eles advertiram que se medidas extremamente austeras fossem impostas agora, elas inevitavelmente reverteriam a frágil recuperação econômica e desencadeariam uma outra recessão.

Independentemente de quando tiver início essa era de cortes do orçamento, ela será brutal. Mais de 100 mil empregos públicos estão seriamente ameaçados, adverte Tony Travers, da Escola de Economia de Londres. Algumas comunidades já estão reduzindo os seus quadros de funcionários, e profissionais que atuam em campos desportivos, bibliotecas e na área social correm risco de desemprego.

Também haverá cortes maciços nos setores de transporte e construção de moradias para a população de menor renda, o que significará mais casas em mau estado, mais buracos nas já péssimas estradas britânicas e novas reduções nos serviços de trens de alta velocidade. As universidades já perderam quase um bilhão de libras esterlinas (R$ 2,7 bilhões) em verbas, e várias instituições de pesquisas políticas e sociais preveem que o orçamento da defesa poderá sofrer uma redução de até 15% até 2015.

O “Independent” classificou esses números de “inconcebíveis” ou até mesmo “ininteligíveis”. Outros dizem que eles são inevitáveis. 

Pagando as dívidas dos bancos

“Os britânicos passarão o resto das suas vidas pagando as dívidas contraídas pelos bancos e por este governo”, afirma Mike Whitby, o prefeito conservador da Birmingham, que acabou de demitir 103 trabalhadores, e que poderá demitir mais 2.000 funcionários públicos municipais neste ano.

A cidade, que atualmente encontra-se altamente endividada, investiu em shopping centers, novos prédios na sua área central e na biblioteca mais espetacular do país, um projeto de 190 milhões de libras esterlinas (R$ 513 milhões). Birmingham decidiu transferir o foco da sua economia para convenções e turismo, bem como expandir o setor de serviços.

Mas mesmo quando os investimentos não foram capazes de gerar novos empregos, a prefeitura continuou injetando dinheiro nos seus projetos ambiciosos. Na folha de pagamento da prefeitura há professores de piano, assessores de dietas, conselheiros de dívidas e seguranças de parques. Birmingham está seguindo o mesmo modelo de serviços públicos que foi adotado em todo o país durante os anos de poder trabalhista, um modelo que se manteve até o início da crise.

Atualmente, o prefeito Whitby, um boxeador amador dono de uma voz estrondosa, admite melancolicamente que a cidade terá que desenvolver novas estratégias, sem o auxílio do governo. Ele está buscando novos investidores na China, na Índia e nos emirados do Golfo Pérsico, e já teve até algum sucesso. No seu gabinete em estilo vitoriano há um carro em miniatura, que ele mostra orgulhosamente aos visitantes. Whitby convenceu fábricas de automóveis chinesas a comprar os ativos residuais da MG-Rover. A velha fábrica da MG na cidade deverá começar a produzir novos modelos no final deste ano. 

“Mais pobre do que se pensava”

Birmingham é um exemplo típico da crise britânica. Em grandes partes do interior país, fora de Londres, em lugares em que no passado as chaminés das fábricas emitiam fumaça, o governo já se tornou o maior empregador. Esse berço da industrialização tornou-se uma região desindustrializada, onde a economia foca-se nos setores bancário e de serviços. A parcela do produto interno bruto relativa à produção industrial já estava em declínio durante o governo Thatcher, mas ela reduziu-se ainda mais sob Blair e Brown.

O Reino Unido está mais pobre do que se pensava”, diz o “Financial Times”. E não há nada em vista que possa proporcionar um suporte confiável ao país.

Brown pretende corrigir esses erros após a eleição. Ele antevê uma nova forma de industrialização, afirmando que 1,5 milhão de empregos de alta qualificação poderiam ser criados nos próximos cinco anos em indústrias estratégicas e voltadas para o futuro, como a de biotecnologia, de energias renováveis, de software e da Internet. O país necessita de engenheiros, e não de malabaristas financeiros, afirma Brown. Mas da forma como Brown diz isso, o seu discurso soa como uma oração feita à beira do leito de um moribundo.

Mas o país não se encontra totalmente sem perspectivas. O Reino Unido possui algumas das melhores universidades do mundo, e poucas nações são tão responsáveis como esta por tantas inscrições de patentes. Parques empresariais e firmas inovadoras de alta tecnologia foram criadas em torno das universidades, e algumas são muito bem sucedidas.

Profissionais talentosos formados em Oxford e Cambridge trabalharão no futuro para essas companhias, e não, como no passado, nos bancos de investimentos de Londres. Mas, embora não haja dúvidas de que tais empresas de fato empregarão muitos jovens, será que este número chegará a 1,5 milhão, conforme prevê Brown?

Alguns designers gráficos inovadores já estão um passo à frente. Eles pegaram o bem sucedido pôster “Mantenham a Calma e Sigam em Frente” da Segunda Guerra Mundial e o adaptaram à situação atual – criando, com isso, um sucesso instantâneo. O novo pôster exibe uma coroa de cabeça para baixo e as palavras: “Agora Entrem em Pânico e Percam o Controle”.

Tradutor: UOL

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