Destino dos "restos" da missão Apollo 11 gera polêmica

Philip Bethge

  • Reuters/Nasa

    O astronauta norte-americano Edwin Aldrin caminha pela Lua em julho de 1969

    O astronauta norte-americano Edwin Aldrin caminha pela Lua em julho de 1969

Sacolas de urina, “botas espaciais”e outros objetos não são apenas lixo, dizem arqueólogos

A Califórnia declarou que os restos da missão Apollo 11 são um recurso histórico estadual – para a alegria daqueles que seguem a jovem profissão de arqueólogo espacial. Eles temem que o lixo e os equipamentos das jornadas dos Estados Unidos à Lua possam um dia acabar à venda na eBay caso não sejam protegidos. 

Existe uma lei não escrita nos parques nacionais dos Estados Unidos: leve de volta tudo aquilo que você trouxer. No entanto, quando visitaram a Lua, os norte-americanos não tiveram tanta consideração com a natureza. Os astronautas Buzz Aldrin e Neil Armstrong deixaram para trás mais de cem objetos quando partiram da Lua em 21 de julho de 1969, às 17h54, horário da Terra. Entre os objetos estavam quatro sacolas de urina, várias sacolas para enjoo provocado pelo voo, uma câmera fotográfica Hasselblad, botas lunares e uma escada para descer da espaçonave ao solo lunar.

A missão foi historicamente significante. Mas será que as sacolas de urina também são?

Os preservacionistas históricos da Califórnia acham que sim. Eles classificaram recentemente os restos da missão Apollo 11 deixados no chamado Mar da Tranquilidade como “Recurso Histórico”. A designação fortalece uma disciplina acadêmica que até agora era considerada irrelevante: a arqueologia espacial. 

“Um local sagrado da história mundial”

“Já é hora de reconhecermos a importância desses locais para a humanidade”, afirma Beth O'Leary, antropóloga da Universidade do Estado do Novo México e co-fundadora do Projeto Legado Lunar. O'Leary e os seus colegas compilaram um mapa que identifica os objetos abandonados no local de pouso, bem como uma lista ampla de lixo da Apollo.

Os arqueólogos espaciais temem que futuras missões, ou possivelmente turistas lunares, possam saquear ou até mesmo destruir esse “local sagrado da história mundial”.

“Já imaginou se alguém passar com um carro lunar sobre a primeira pegada de Neil Armstrong?”, adverte Peter Capelotti, antropólogo da Universidade Penn State, em Abington, no Estado da Pensilvânia. Os objetos das missões humanas à Lua e a Marte necessitam urgentemente de proteção oficial, afirma Capelotti. “Caso contrário teremos que nos preparar para um dia vermos pedaços da Apollo 11 colocados à venda na eBay”.

A amplidão do sistema solar já lembra um museu extraterrestre de tecnologia, com um acervo de milhares de toneladas de lixo espacial. Marte, por exemplo, tem em seu solo uma frota inteira dos legendários veículos robôs Rover. Em 1995, uma sonda do satélite Galileo da Nasa chegou a ser lançada de paraquedas na atmosfera de Júpiter. Porém, ela perdeu rapidamente o seu valor arqueológico quando desintegrou-se a uma temperatura de 150º Celsius e uma pressão de 22 bars. Mesmo que fragmentos individuais da sonda tenham sobrevivido à descida, o planeta gasoso provavelmente os absorveu. 

Cem toneladas de lixo metálico e plástico

As condições são mais favoráveis na Lua, onde cerca de cem toneladas de lixo metálico e plástico aguardam para serem catalogados pelos guardiães da nossa herança cultural. Entre os objetos mais atraentes estão os restos da sonda espacial soviética Lunik 2, que chocou-se contra a Lua a uma velocidade de 12 mil quilômetros por hora, em 1959; dezenas de pequenos emblemas soviéticos descartados pela sonda pouco antes do impacto; o primeiro veículo lunar, levado à Lua na missão Apollo 15, em 1971, e atualmente estacionado próximo à Depressão Hadley; e, finalmente, a bola de golfe que o astronauta norte-americano Alan Shephard lançou a cerca de 300 metros de distância com um taco perto da cratera Fra Mauro, em 6 de fevereiro de 1971 – nada mal para uma tacada dada com uma só mão por uma pessoa que usava um traje espacial desconfortável.

O mais importante, porém, são os restos da lendária missão Apollo 11. Aldrin e Armstrong deixaram para trás uma verdadeira montanha de lixo. O mapa de O'Leary mostra, por exemplo, uma réplica em ouro de um ramo de oliveira bem perto do módulo de pouso, bem como um refletor de laser, um aparelho de medições sísmicas e as desajeitadas “botas espaciais” dos astronautas.

As pegadas dos astronautas na Lua estão mapeadas, assim como a “área de intensa atividade humana” e a “zona de despejo” - também conhecida como depósito de lixo. Tudo está supostamente bem preservado, já que a ausência de uma atmosfera significa que não há movimento de ar na Lua.

Mas por que Aldrin e Armstrong deixaram esse material para trás? “Eles receberam instruções de descartar as coisas que não eram importantes”, explica O'Leary. Os astronautas tiveram que criar espaço de armazenagem para as amostras empoeiradas de solo e as valiosas rochas lunares. A bandeira dos Estados Unidos e as placas já foram criadas para a eternidade, mas na época ninguém pensou em afixá-las com concreto, algo que poderá se mostrar desastroso para esses objetos únicos. 

Uma futura feira para turistas espaciais?

Os arqueólogos lunares temem que o Mar da Tranquilidade acabe se transformando em uma feira para turistas espaciais. Aventureiros ricos poderiam em breve visitar a Lua e, usando os seus trajes espaciais chiques, profanar as sacolas de enjoo norte-americanas.

E o que aconteceria se astronautas chineses decidissem levar o sistema portátil de sobrevivência “A7L” de Buzz Aldrin? Além disso, todos desejarão ser fotografados em frente à bandeira dos Estados Unidos, diz o antropólogo Capelotti.

John Campbell, arqueólogo da Universidade James Cook, da Austrália, também está preocupado com a “coleta descontrolada de amostras” ou mesmo com a “caça ostensiva de tesouros”. “Temos agora realmente um dos sítios mais importantes da história humana”, acrescenta Campbell. “E, infelizmente, ele não conta com nenhuma proteção”.

Mas agora a Califórnia lançou uma campanha para modificar essa situação. Os preservacionistas californianos não estão excessivamente preocupados com o fato de o sítio ficar a cerca de 380 mil quilômetros das fronteiras do Estado. Afinal, dizem eles, muitos californianos estiveram envolvidos na missão Apollo.

O Novo México, a Flórida e o Texas estão cogitando adotar medidas similares. Já os arqueólogos lunares esperam que tudo isso culmine com a transformação do sítio do pouso da Apollo 11 em um monumento nacional e, finalmente, na designação, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), de Patrimônio Cultural da Humanidade. 

Quem é dono da Lua?

Em tal momento, ou mesmo antes, terá sido sido levantada a questão de quem é dono da Lua. O meio vago Tratado das Nações Unidas para o Espaço Exterior, de 1967, declara que “fragmentos espaciais” permanecem sendo propriedade do país que os lançou ao espaço. Por outro lado, os terrenos lunares não podem se tornar propriedade nem governamental nem privada. Isso cria um dilema que precisa ser urgentemente esclarecido. A pegada de Armstrong pertence nitidamente aos Estados Unidos, mas e quanto à poeira lunar na qual a pegada foi feita?

Felizmente, quando se trata de outros objetos, tais disputas são desnecessárias para o futuro visível. A sonda espacial Pioneer 10, por exemplo, passou por Júpiter em 1973 e, a seguir, seguiu uma rota rumo à estrela Aldebarã, na constelação de Touro. Quando ela chegar lá, sem dúvida haverá um choque espetacular, que transformará a Pioneer 10 em um sítio arqueológico de enorme importância.

Mas isto só acontecerá daqui a dois milhões e anos.

Tradutor: UOL

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