Cartas inéditas de J.D. Salinger são descobertas em Nova York

Marc Pitzke

Em Nova York (EUA)

  • AP Photo/ 'The Lotte Jacobi Collection, University of New Hampshire, Lotte Jacobi

    J. D. Salinger, autor de "O apanhador no campo de centeio"

    J. D. Salinger, autor de "O apanhador no campo de centeio"

Ele era considerado um solitário e misantropo, mas J.D. Salinger, que morreu recentemente, também tinha um lado caloroso e afetuoso. Cartas anteriormente desconhecidas que ele escreveu a um velho amigo do exército, que foram examinadas por “Spiegel Online”, proporcionam imagens fascinantes da vida privada do solitário autor norte-americano.

A carta é curta e lacônica. Seis parágrafos, cuidadosamente datilografados e assinados à mão. O remetente escreve que sente saudade do destinatário, e relata as coisas que ocorreram durante a sua ausência: dois colegas soldados foram feridos, um terceiro soldado deixou o serviço militar e um outro – descrito como um “cara legal” - está em Cuba. O tom do redator da carta oscila entre o sarcasmo e a auto-comiseração. Ele parece deprimido, mas menciona também a possibilidade de em breve tomar um drinque com o destinatário.

Esta é uma carta endereçada a um amigo, mas ela é também muito mais do que isso. O documento, datado de 25 de abril de 1945, é um pedaço da história contemporânea e literária.

Não apenas por ter sido escrito por um jovem soldado que serviu no front alemão, pouco antes do final da Segunda Guerra Mundial. Ou porque o “cara legal”, conforme o escritor diz no decorrer da carta, é o gigante literário Ernest Hemingway.

Na verdade, a importância da carta deve-se à identidade do seu autor: Jerome D. Salinger, o notoriamente solitário escritor norte-americano que morreu em janeiro passado, aos 91 anos de idade. O seu primeiro e único livro, “The Catcher in the Rye” (em português, “O Apanhador no Campo de Centeio”), lançado em 1951, modificou as atitudes de gerações, mas Salinger adotou uma vida isolada pouco depois do lançamento da obra, e não publicou mais nada depois de 1965. Desde a sua morte, pesquisadores estavam debruçados sobre praticamente toda palavra que pudesse ter saído da sua pena.

E foi então que esta carta apareceu. Ela estava guardada e esquecida em um arquivo de um gabinete de trabalho de uma pequena casa no bairro de Queens, em Nova York. Ela é uma das nove cartas particulares escritas por Salinger que sobreviveram durante todas estas décadas aqui, nos arredores da cidade de Nova York. O destinatário das cartas é Werner Kleeman, um ex-colega de exército de Salinger. Os dois lutaram lado a lado na campanha dos Estados Unidos contra a Alemanha de Hitler, desembarcando na Normandia, atravessando as Ardenas, até a Batalha de Hürtgenwald, nas Montanhas Eifel, no oeste da Alemanha, uma das batalhas mais cruentas da guerra.

“Emotivo e caloroso”

“Nós nos tornamos adultos juntos. Tivemos que nos tornar”, disse Kleeman a “Spiegel Online”, falando sobre o período que passou com Salinger. “Eu conhecia Jerry como pouca gente”.

Mas as biografias de pós-guerra dos dois homens são bem diferentes. Um acabou fazendo tratamento psicológico e mais tarde galgou, com os seus escritos, o panteão da literatura. O outro desapareceu no anonimato da Nova York metropolitana, onde abriu um pequeno negócio de decoração de casas. Mas a amizade continuou. Kleeman, que apesar dos seus 91 anos de idade ainda sente-se “bastante em forma” e mora sozinho, é um dos últimos amigos vivos de Salinger, embora só tenha conhecido o verdadeiro significado desse fato depois que o escritor morreu. Foi quando Kleeman, que é viúvo, lembrou-se das cartas e as retirou dos seus arquivos.

Até então, pouquíssima gente sabia da existência dessas cartas, que “Spiegel Online” teve a oportunidade de ler e analisar minuciosamente. Elas proporcionam uma rara visão do mundo isolado de Salinger, preenchem lacunas na história da sua vida, expõem o lado privado dos mitos em torno do seu personagem – e revelam a maneira surpreendentemente calorosa como ele manteve uma antiga amizade da época da guerra, mesmo muito tempo após ter desaparecido da vida pública.

Isso, por si só, é uma surpresa, em se tratando de um homem que sempre foi visto como um difícil misantropo. “Ele era um grande solitário”, escreveu o crítico britânico Ian Hamilton na sua famosa monografia, “In Search of J.D. Salinger” (“Em Busca de J.D. Salinger”), citando um ex-aluno do escritor. “Não creio que ele tenha se dado aos outros, e ele também não achava que os outros tinham muito valor a lhe oferecer”. O trabalho de Hamilton, lançado em 1988, atualmente com as edições esgotadas e, não obstante, uma obra fundamental nos dias de hoje, ajudou a modelar a imagem de Salinger como sendo um desajustado. Um outro contemporâneo citado por Hamilton descreve Salinger da seguinte forma: “De maneira geral, ele não tinha amigos nem companheiros”.

As cartas de Kleeman contradizem essa impressão. Nelas, Salinger soa melancólico, e quase gentil. Ele fala ao amigo a respeito do seu novo cão filhote, um husky. Em 1961, ele escreve que ficou “entristecido” devido ao suicídio de Hemingway. Ele reclama do fato de os filhos crescerem e descreve-se como um “saco de tristeza perene”. “Ele era muito humilde”, diz Kleeman sobre Salinger. “Ele era emotivo e caloroso”.

Valor estimado de US$ 60 mil

As cartas, redigidas com uma máquina de datilografar e assinadas com um “Jerry”, “Seu, Jerry” ou “Tudo de melhor, Jerry”, abrangem um período que vai de 1945 a 1969. Na primeira carta, escrita durante a guerra, Salinger identifica o endereço do remetente simplesmente como “Alemanha”. O endereço do remetente na maioria das outras cartas é “Windson, Vermont”, onde ficava a agência de correio do vilarejo vizinho de Cornish, no Estado de New Hampshire, onde Salinger morou a partir de 1953.

Declan Kiely, o diretor da Biblioteca Morgan, um museu em Nova York que exibirá algumas das cartas de Salinger a partir desta semana, elogiou as cartas de Kleeman e está convencido de que elas são genuínas. Ele calcula que elas valham pelo menos US$ 60 mil (R$ 108 mil). “Nós adoraríamos ter estas cartas”, diz Kiely. Kleeman, que vive com uma pensão de ex-combatente, por ora trancou o seu tesouro em um cofre de banco.

O legado escrito de Salinger é relativamente pequeno – e cuidadosamente protegido. Todas as cartas que eram conhecidas até agora são mantidas nos arquivos da Biblioteca do Congresso, bem como em algumas universidades dos Estados Unidos, incluindo Harvard e Princeton. Salinger considerava a sua vida privada tão importante que ele registrou os direitos autorais dos conteúdos das suas cartas, um registro que tem validade mesmo após a sua morte. Por esse motivo, as cartas não podem ser totalmente transcritas, embora qualquer pessoa possa lê-las. “Através delas, Salinger volta à vida”, afirma Kiely.

 O lado oculto de Salinger

O estilo de Salinger é imediatamente reconhecido: a sua sagacidade seca, a sintaxe elegante e o ritmo claro. Ao contrário de outras cartas que emergiram no passado, em sua maioria dirigidas a artistas, editores e amantes, as cartas endereçadas a Kleeman revelam um lado em grande parte oculto de Salinger – o de ex-combatente. Isso é algo que só um colega ex-combatente é capaz de entender. “Nós dois passamos pelo inferno”, afirma Kleeman. “Isso une as pessoas”.

Salinger escreve sobre as cicatrizes emocionais deixadas pelo front, mas fala também de amigos que perdeu. Nomes do seu antigo regimento aparecem com frequência. E Salinger menciona repetidamente a perspectiva de sair para beber com o velho camarada de guerra, ou pelo menos de os dois comerem juntos “um grande e gorduroso almoço” para falarem sobre os velhos tempos. Na última carta, no entanto, datada de 23 de fevereiro de 1969, ele anuncia o seu isolamento auto-imposto, e diz ao amigo que não deseja mais “voltar para lugar algum em carne e osso”.

“Ele era meio desajustado”

Para Kleeman, as cartas também ressuscitaram o seu próprio passado de aventuras. Mesmo sem a amizade com Salinger, o passado dele proporcionaria material suficiente para um livro. Após crescer em uma família judia alemã em Gaukönigshofen, uma aldeia próxima à cidade bávara de Würzburg, Kleeman (cujo nome ainda era escrito “Kleemann” na época) presenciou a ascensão dos nazistas ao poder. Ele foi levado para o campo de concentração de Dachau e mais tarde libertado, fugiu para Nova York, ingressou no exército e tornou-se cidadão dos Estados Unidos. Ele participou da invasão da Normandia, o Dia D, em 1944.

Salinger e Kleeman conheceram-se em março de 1944, em Devonshire, no sul de Londres, onde os aliados estavam se preparando para a invasão. Os dois serviram na mesma unidade, o 12º Regimento da 4º Divisão de Infantaria. Kleeman era intérprete, e Salinger atuava na inteligência militar dos Estados Unidos. “Eu percebi imediatamente que ele era meio desajustado”, conta Kleeman. “Ele recusava-se a amarrar os cordéis do seu capacete. Ele só fazia o que queria”.

Salinger, na época com 25 anos de idade, estava no início da sua carreira literária. Ele já havia publicado os seus primeiros contos. Ele ingressou no exército dos Estados Unidos em 1942. Havia até agora pouca informação disponível sobre o período passado por Salinger no exército, e especialmente sobre os últimos anos da guerra. “As poucas cartas que temos de 1944 e 1945 são bastante enigmáticas”, escreveu o biógrafo Ian Hamilton após meses de pesquisas frustrantes. Ele afirmou que Salinger continuava sendo “uma silhueta”.

“Todos estavam com medo”

Kleeman pode agora conferir um caráter de carne e osso a essa silhueta. Na época, ele mantinha um contato próximo com Salinger. O futuro escritor era discreto, recorda Kleeman. Ninguém usava etiquetas com nomes, e por isso a primeira pergunta que ele fez a Salinger foi: “Como você se chama?”. Eles logo tornaram-se amigos – o que contradiz os relatos de que Salinger era muitas vezes condescendente e distante para com os seus camaradas de guerra. Ao contrário, diz Kleeman, Salinger estava simplesmente preocupado com os seus escritos. “O Apanhador no Campo de Centeio” estava tomando forma naqueles meses.

Salinger passou duas semanas inteiras cuidadosamente tornando o seu jipe a prova d'água, antes dos desembarques do Dia D, enquanto um Kleeman boquiaberto observava. “Ele fez um trabalho perfeito, assim como as suas histórias”, diz Kleeman. Em outras ocasiões, os dois tiveram longas conversas sobre os seus medos da invasão. “Havia uma pressão enorme”, conta Kleeman. “Todos estavam com medo”. Os horrores da guerra mais tarde tornar-se-iam um tema recorrente em várias das histórias de Salinger.

Os dois soldados atravessaram juntos o Canal da Mancha. Foi uma travessia tenebrosa rumo ao desconhecido, diz Kleeman. Ele não gosta de falar a respeito do desembarque na Praia Utah, na Normandia. Salinger também omite essa experiência extrema nas suas cartas.

Um encontro memorável com Hemingway

Em vez disso, em uma carta que ele escreveu a Kleeman duas décadas mais tarde, Salinger menciona o “negócio de Hurtgenwald”, com uma mistura de pavor e indiferença. Ele está se referindo à Batalha de Hürtgenwald, um famoso massacre sangrento que custou a vida de pelo menos 22 mil soldados norte-americanos. Salinger mais tarde incorporaria os horrores de Hürtgenwald a contos sombrios. Kleeman revela mais um detalhe: o oficial comandante de Salinger era um “grande alcoólatra” que atormentava os seus soldados. “Ele bebia uma garrafa atrás da outra”, afirma Kleeman.

Certa vez, conta Kleeman, o oficial ordenou que Salinger passasse a noite em uma trincheira gelada e coberta de neve. Kleeman diz que deu ao amigo um par de meias que a sua mãe tricotou, bem como um cobertor que pegou no Hotel Atlantique, em Cherbourg.

Kleeman e Salinger também encontraram Ernest Hemingway, que estava viajando como correspondente de guerra, e que eles haviam conhecido antes na França. Os três tiveram um encontro memorável em Hürtgenwald, conforme Kleeman recorda. Eles descobriram Hemingway deitado em um sofá em uma casa que tinha eletricidade produzida por um gerador. Os dois amigos passaram três horas bebendo champanhe em copos de plástico e ouvindo as histórias de aventuras de “Papa”. Kleeman diz que Salinger idolatrava o escritor mais velho.

Salinger também recordar-se-ia daquela cena cinematográfica anos depois. Em uma carta enviada a Kleeman pouco depois que Hemingway suicidou-se em 1961, ele escreve, “Você se lembra?” - em uma referência nostálgica àquela noite em Hürtgenwald.

“Frio com as mulheres”

Depois da guerra, os caminhos dos dois ficaram separados durante anos. A carta de Salinger de 1945, com o carimbo “Serviço Postal do Exército, 29 de abril de 1945”, demorou um ano para chegar até Kleeman, que vinha sendo transferido de um hospital a outro. Quando a guerra terminou, Salinger permaneceu na Alemanha por alguns meses, quando casou-se com uma francesa, Sylvia Welter. Kleeman tem a sua própria hipótese a respeito do casamento, que durou apenas oito meses e que permaneceu cercado de segredos: “As pessoas dizem que ela era nazista. Salinger acabou livrando-se dela. Certa manhã, durante o café, ele disse a ela que caísse fora”.

O seu amigo era “frio com as mulheres”, diz Kleeman. “Ele provavelmente não era o mais romântico dos caras”. Ele foi similarmente frio durante o seu divórcio da sua segunda mulher, Claire, conta Kleeman, e Salinger chegou até a reclamar do fato de a sua filha Margaret ter se casado com “um sujeito negro”.

Mas a amizade de Salinger com Kleeman permaneceu, mesmo depois que as cartas foram deixando lentamente de chegar. Em 1978, após ter adotado uma vida reclusa, Salinger viajou a Nova York disfarçado para participar de uma cerimônia de aposentadoria do ex-camarada soldado. “Ele estava impecavelmente vestido e mostrava-se bastante tímido”, diz Kleeman. Após a cerimônia, Kleeman levou Salinger de carro até um hotel em Manhattan, “muito discretamente, é claro”.

Kleeman também visitou Salinger em New Hampshire em duas ocasiões, em 1958 e em 1983. “Nós passamos horas na varanda conversando”, diz ele. Kleeman recorda-se do “campo muito vasto” em frente à casa de Salinger, da garagem e da escada coberta. “Ele tinha cachorros. Os cachorros latiram e ele veio até a varanda e acenou. Vamos lá, suba”, disse ele.

Apesar de rumores que indicavam o contrário, Salinger parecia “muito feliz”, segundo o seu amigo Kleeman, que confirma um boato antigo: “Ele me mostrou o quarto no qual guardava todos os seus manuscritos”. Após a morte de Salinger, houve especulações de que o autor teria deixado até 15 livros não publicados – um segredo que os herdeiros de Salinger ainda não revelaram.

Uma foto em preto e branco da casa de Salinger em Cornish e as cartas são tudo o que resta da amizade de Kleeman com o famoso escritor. “Isto é a minha vida”, afirma ele com orgulho, segurando uma cópia da carta de 1945.

Ele examina a assinatura, sorri brandamente, e diz: “Um de nós tinha que partir primeiro”.

Tradutor: UOL

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