"Isso é um choque de civilizações", diz Avigdor Lieberman, ministro das Relações Exteriores de Israel

Martin Doerry e Christoph Schult

  • Gil Cohen Magen/ Reuters - 4.mar.2010

    Avigdor Lieberman, ministro das Relações Exteriores de Israel

    Avigdor Lieberman, ministro das Relações Exteriores de Israel

Em uma entrevista a “Der Spiegel”, o ministro das Relações Exteriores israelenses, Avigdor Lieberman, 51, fala sobre as polêmicas políticas do seu país referentes ao assentamento de colonos nos territórios palestinos ocupados, da ameaça representada pelo programa nuclear iraniano e da aparente falta de esperança em relação ao conflito com os palestinos.

 

Mesmo antes de tornar-se ministro das Relações Exteriores de Israel há pouco menos de um ano, Avigdor Lieberman já era conhecido pela sua abordagem de confronto. Por exemplo, este ex-leão-de-chácara de um clube, que nasceu na Moldávia e emigrou para Israel em 1978, ameaçou bombardear a Represa de Assuã, do Egito, e declarou publicamente que desejava que o presidente Hosni Mubarak “fosse para o inferno”.

A popularidade de Lieberman, com o seu pronunciado sotaque russo, é alimentada por duas fontes: os mais de um milhão de imigrantes israelenses que vieram da antiga União Soviética, e que apoiam uma linha de ação dura contra os palestinos; e os colonos judeus na Cisjordânia ocupada, onde o próprio Lieberman reside.

Em se tratando dos assentamentos judeus na Cisjordânia, a posição de Lieberman é flexível. Mas ele se recusa a fazer qualquer concessão quando se trata de preservar as áreas residenciais judaicas que foram construídas em Jerusalém Oriental após a vitória israelense na Guerra dos Seis Dias de 1967. Cerca de 200 mil judeus moram nesta parte anexada da cidade, e a destruição de residências árabes e os novos projetos de construção poderão em breve transformar os moradores árabes em uma minoria naquela área.

No que diz respeito ao conflito em torno de Jerusalém Oriental, o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu está disposto até a irritar o seu aliado mais importante, os Estados Unidos. Após o anúncio feito pelo Ministério do Interior – exatamente durante uma visita a Israel do vice-presidente dos Estados unidos, Joseph Biden - de que os israelenses construiriam 1.600 novas residências em Jerusalém Oriental, as relações de Israel com Washington despencaram para um patamar historicamente baixo. A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, bem como a chanceler alemã Angela Merkel e outros líderes europeus condenaram energicamente as políticas de assentamento de Israel, especialmente devido ao fato de Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Nacional Palestina, ter acabado de concordar em dar início a novas negociações de paz.

Furiosa com o anúncio, a organização radical palestina Hamas conclamou um “dia de ira”, no qual ocorreram enfrentamentos de ruas de Jerusalém, na semana passada, entre forças de segurança israelenses e palestinos.

Temendo que a situação se agravasse ainda mais, o chamado "Quarteto do Oriente Médio" pediu enfaticamente na última sexta-feira que os israelenses e os palestinos iniciassem conversações. O quarteto, que inclui a secretária de Estado dos Estados Unidos, os ministros das Relações Exteriores da Rússia e da União Europeia e o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, também pediu a Israel que cesse imediatamente toda as atividades de assentamento nos territórios ocupados. A fim de impedir que a cisão entre Washington e Jerusalém aumentasse, o enviado dos Estados Unidos ao Oriente Médio, George Mitchell, anunciou que viajaria a Israel no início da semana – uma viagem que ele havia anteriormente cancelado.

Em uma entrevista a “Der Spiegel”, o ministro israelense das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, explica por que o seu país não está pronto para negociar o status quo de Jerusalém, diz por que acredita que a paz não pode ser imposta no Oriente Médio e como sanções mais duras por parte do Ocidente poderiam ser suficientes para “sufocar” o programa nuclear iraniano.


Spiegel: Senhor ministro das Relações Exteriores, na semana em que os palestinos finalmente concordaram em realizar novas negociações de paz, o seu governo anunciou planos para construir mais 1.600 unidades residenciais em um assentamento judaico em Jerusalém Oriental. Vocês provocaram não só os palestinos, mas também o seu aliado mais importante. Por que?

Lieberman: Nós não provocamos ninguém. Eu ouvi todas as condenações a Israel no que diz respeito à chamada Jerusalém Oriental. Na mesma semana 60 pessoas foram mortas em ataques terroristas paquistaneses. Em todos os países à nossa volta há derramamento de sangue e tensão. Mas todo mundo prefere criticar Israel. Eu estou aguardando o dia em que o Bundestag alemão discutirá as violações dos direitos humanos na Arábia Saudita.

Spiegel: Mas nós estamos falando sobre o ministro das Relações Exteriores israelense, e não saudita.

Lieberman: Colocar toda a culpa em Israel é hipocrisia. Nós somos a única democracia no Oriente Médio. O conflito israelense-palestino representa talvez 3% de todos os conflitos na região. Membros do Congresso dos Estados Unidos e senadores norte-americanos nos dizem que, durante as suas visitas aos países do Golfo Pérsico, ao Egito, à Arábia Saudita ou à Jordânia, os seus congêneres árabes só mencionam brevemente os palestinos, e que isso é simplesmente uma insinceridade.

Spiegel: Mas no momento todo mundo está falando sobre Israel. Os Estados Unidos estão culpando o seu governo por prejudicar o processo de paz, e cancelaram uma visita do enviado especial norte-americano George Mitchell.

Lieberman: Mesmo entre os melhores amigos ocorrem erros e mal-entendidos. Nós nunca prometemos que deixaríamos de construir em Jerusalém. Mas o anúncio feito durante a visita do vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, foi um erro – um erro burocrático cometido pelo comitê de construção encarregado do processo.

Spiegel: Então você está criticando apenas o momento em que o anúncio foi feito, e não o plano de expansão dos assentamentos já existentes?

Lieberman: Você tem que entender uma coisa: não se trata de assentamentos. Sessenta e cinco por cento da população judaica de Jerusalém mora nos novos bairros que nós começamos a construir após a Guerra dos Seis Dias em 1967.

Spiegel: Até mesmo os norte-americanos consideram essas construções assentamentos. Eles estão situados além das fronteiras de 1967, e isto é um problema.

Lieberman: Eles estão além das fronteiras de 1967, mas não são pequenas aldeias, e sim bairros municipais com dezenas de milhares de moradores.

Spiegel: Então o problema de vocês é ainda maior!

Lieberman: Não se trata de um problema. Eles são uma parte integrante da nossa capital. Não estamos dispostos a fazer negociações quanto a Jerusalém.


“Nós esperamos que os norte-americanos pressionem os palestinos”

Spiegel: Por um lado você está criticando os palestinos por apresentarem pré-condições, e por outro lado você próprio se recusa a falar sobre um assunto central tão polêmico quanto Jerusalém.

Lieberman: O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fez um discurso na Universidade Bar-Illan, no qual reconheceu pela primeira vez a solução baseada em dois Estados. Essa foi uma decisão difícil para nós; não se esqueça, este é um governo de direita. Segundo, nós reduzimos o número de barreiras policiais nas estradas e melhoramos o acesso e a capacidade de deslocamento dos palestinos. Fazendo isso, nós criamos um crescimento econômico de 8% nas cidades palestinas. Terceiro, nós declaramos uma suspensão temporária dos assentamentos...

Spiegel: … que vocês não cumprem. Recentemente, o ministro da Defesa, Ehud Barak, deu permissão para a construção de 112 novos apartamentos no assentamento de Beitar Illit, no território ocupado da Cisjordânia.

Lieberman: Durante um ano nós fizemos muitas concessões antecipadas, mas apesar disso o mundo inteiro diz: “Sim, isso é bom, mas vocês têm que fazer mais”.

Spiegel: Agora os Estados Unidos estão exigindo mais gestos de Israel após a crise em torno dos assentamentos em Jerusalém. Vocês acatarão essas exigências?

Lieberman: Durante um ano nós fizemos várias concessões aos palestinos. Nós esperamos que os norte-americanos pressionem os palestinos para que estes interrompam as suas atividades anti-israelenses no cenário internacional. Os palestinos têm que retirar os seus processos judiciais contra autoridades israelenses, parar de boicotar os produtos israelenses e acabar com todos os incitamentos. Que incentivos temos para concordarmos em fazer mais concessões?

Spiegel: A perspectiva de assinatura de um tratado de paz com os palestinos não significa nada?

Lieberman: Antes de mais nada nós queremos segurança. A comunidade internacional está cometendo um erro estratégico. Não se pode impor a paz. Primeiro é preciso proporcionar segurança e prosperidade, e depois disso é possível encontrar uma solução abrangente.

Spiegel: Então, segundo o seu ponto de vista, as negociações com o presidente palestino Mahmoud Abbas são inúteis?

Lieberman: Não. Nós precisamos manter vivo o processo político. Conversas são melhores do que nada. O problema é que nós não sabemos a quem Abbas representa. O seu partido Fatah perdeu as eleições em 2006. Em 2007, o Hamas assumiu o poder à força na Faixa de Gaza.

Spiegel: Dezenove anos após o início do processo de paz em Madri, com negociações indiretas, vocês estão novamente fazendo “conversas de aproximação”. O enviado especial dos Estados Unidos, Mitchell, quer fazer de carro o percurso de cinco quilômetros entre Jerusalém e Ramallah. Por que isto tem que ser tão complicado?

Lieberman: Desde o início nós nos mostramos dispostos a manter conversações diretas, fosse em Jerusalém ou em Ramallah. Foram os palestinos que fizeram objeções a isso. E eles sentem-se fortalecidos porque o Ocidente fala constantemente sobre os assentamentos.

 

Spiegel: Você acha que os norte-americanos são ingênuos?

Lieberman: Eu não sei se eles são ingênuos. Eu acredito em fatos, e o fato é o seguinte: apesar dos assentamentos, nós assinamos dois tratados de paz – um com o Egito e o outro com a Jordânia. E, embora tanto Ehud Barak quanto Ehud Olmert estivesse disposto a evacuar a maioria dos assentamentos e promover uma retirada para aquém da fronteira de 1967, os palestinos recusaram-se a assinar. Com os acordos de Oslo nós abrimos mão da metade da Cisjordânia...

Spiegel: …Não foram vocês, mas sim o governo de esquerda do então primeiro-ministro Yitzhak Rabin.

Lieberman: Sim, eu fui contra aquilo e sinto dizer que eu estava certo. Durante 16 anos nós fizemos concessões, mas os palestinos só as rejeitaram. E isto apesar do fato de haver todos esses caras legais do lado israelense: Rabin, Peres, Barak, Olmert, Sharon. Nenhum deles um cara ruim como eu...

Spiegel: Sharon, um cara legal?

Lieberman: Ele evacuou os assentamentos na Faixa de Gaza.

 

“Um conflito nacional... que se transformou em um conflito religioso”

Spiegel: Por que vocês precisam dos assentamentos?

Lieberman: Primeiro, a Judeia e a Samária são o berço de nascimento da nossa nação desde à época bíblica. Mas os assentamentos são importantes também para a nossa segurança.

Spiegel: Os assentamentos? Mas eles na verdade não ameaçam a segurança de vocês?

Lieberman: Não, os assentamentos em volta de Jerusalém, por exemplo, servem como uma cerca de proteção para todos nós.

Spiegel: Mas vocês já construíram um muro que separa Jerusalém da Cisjordânia.

Lieberman: Os assentamentos são como um segundo anel de segurança. Nós precisamos deles. Mas estamos dispostos a negociar a respeito de partes deles.

Spiegel: Você próprio mora em um assentamento: Nokdim, ao sul de Belém.

Lieberman: E eu digo que estou pronto a abrir mão disso. Mas tenho que ter certeza de que existe um parceiro do outro lado da mesa que seja capaz de cumprir o que promete. Segundo a nossa experiência, não há parceiros nem resultados.

Spiegel: Talvez Israel simplesmente não tenha ofertas suficientes?

Lieberman: Existe um equívoco fundamental quanto à natureza desse conflito. Ele teve início como um conflito nacional entre dois povos por um pedaço de terra. Mas ele transformou-se em um conflito religioso. Isso é um choque de civilizações que não pode ser resolvido com um acordo territorial.

Spiegel: Os motivos de Israel são também em parte religiosos. Recentemente o seu governo declarou que a tumba do patriarca bíblico Abraão, em Hebron, é um “patrimônio sionista”. No entanto, aquele também é um local sagrado para os muçulmanos.

Lieberman: Hebron foi a primeira cidade judaica. O rei Davi criou a nossa nação lá. Nós não alteramos o status quo da tumba de Abraão. Os muçulmanos têm livre acesso à mesquita. Esse tipo de tolerância não existe do lado muçulmano. Na semana passada o Hamas conclamou um “dia da ira”, porque nós abrimos a sinagoga Hurva na Cidade Velha de Jerusalém, que foi destruída em 1948.

Spiegel: Então, qual é a sua solução?

Lieberman: No momento não vejo nenhuma solução. Devemos nos concentrar em administrar o conflito. Você enxerga uma solução no Afeganistão? No Iraque?

Spiegel: No Afeganistão menos, no Iraque mais.

Lieberman: Se o Ocidente fracassou em tantas partes do mundo, não se pode esperar que o conflito no nosso canto – dentre todas as regiões – possa ser solucionado. Não se pode conter um tsunami islamita com a construção de uma pequena ilha em algum lugar no meio do oceano. O maior problema é a influência agressiva do Irã.

Spiegel: O Conselho de Segurança da ONU está atualmente discutindo a adoção de novas medidas punitivas contra o Irã. A China e a Índia já anunciaram que se opõem a “sanções incapacitantes”. Sem elas, ainda seria possível impedir que o Irã construísse a bomba nuclear?

Lieberman: O problema não é apenas a Rússia ou a China, mas também a Índia, a Turquia e outros países. Mas seria suficiente se tivéssemos sanções ocidentais duras por parte, por exemplo, da União Europeia, dos Estados Unidos e também do Japão, da Austrália e do Canadá. Isso seria suficiente para sufocar o programa nuclear iraniano.

Spiegel: Você acha que a Alemanha está fazendo o suficiente?

Lieberman: A Alemanha está desempenhando um papel muito positivo. Durante a minha última visita, eu senti pela primeira vez que o governo alemão entende que são necessárias sanções duras contra o Irã. Mas temo que desacordos e uma falta de vontade política no seio da comunidade internacional possam impedir a implementação de sanções reais.

Spiegel: Nesse caso haveria um ataque militar?

Lieberman: Eu não creio que Israel deva assumir a responsabilidade por essa questão. Mas não estamos descartando nenhuma opção.

 

“O Irã está ameaçando o mundo inteiro”

Spiegel: Qual é o maior perigo para Israel: um Irã nuclear ou o apoio de Teerã ao Hamas e ao libanês Hezbollah?

Lieberman: O maior perigo é a indecisão da comunidade internacional. O Irã está ameaçando o mundo inteiro. Não é uma coincidência o fato de eles não comemorarem um “Dia da Independência”, mas sim o “Dia da Revolução Islâmica”. Revolucionários sempre tentam exportar as suas revoluções. Foi isto o que aconteceu no caso dos bolcheviques e também de Che Guevara. Portanto, nós vemos atividades iranianas pelo mundo inteiro: na África, na América do Sul e, é claro, no Oriente Médio. Com o Hamas, o Hezbollah e também com Muqtada al-Sadr, no Iraque. Eles são todos representantes do Irã.

Spiegel: E foi por isso que o comprador de armas para o Hamas, Mahmoud al-Mabhouh, teve que ser assassinado pelo Mossad em Dubai?

Lieberman: Você deve estar assistindo a muitos filmes de James Bond. Eu também vi o vídeo da polícia de Dubai na televisão, mas não há prova nenhuma ali.

Spiegel: Todas as evidências apontam para Israel: os agentes usaram identidades de judeus que migraram para Israel a partir do Reino Unido e da Austrália.

Lieberman: Nós estamos cooperando com o Reino Unido e a Austrália nas investigações. Eles mandaram inspetores de polícia para Israel.

Spiegel: Então você está afirmando que não foi o Mossad?

Lieberman: Nós estamos combatendo o terrorismo todos os dias. Nós tentamos, apesar de tudo, continuar sendo uma democracia com regras claras. Eu espero mais compreensão quanto aos nossos problemas no mundo.

Spiegel: Um dos supostos assassinos usou um passaporte alemão que ele recebeu devido à alegação de que os seus pais eram sobreviventes do Holocausto. A Procuradoria Federal alemã deu início a uma investigação de acusações de assassinato e atividade de espionagem. Israel responderá positivamente a um pedido alemão de ajuda nessa investigação?

Lieberman: Nós ajudaremos o máximo que pudermos. Temos uma cooperação muito estreita entre a Alemanha e Israel, em todos os níveis.

Spiegel: Há uma irritação no serviço de inteligência externa alemão, o BND, porque Israel matou um indivíduo do Hamas enquanto o BND estava negociando com o grupo, a pedido de Israel, a libertação do soldado capturado Gilad Shalit.

Lieberman: Nós apreciamos todos os seus esforços no caso de Gilad Shalit.

Spiegel: No BND comenta-se que o governo israelense recuou no último minuto em relação a uma troca de prisioneiros que estava acertada.

Lieberman: Não farei comentários sobre isso. Nós faremos tudo o que pudermos para encerrarmos esse capítulo altamente sensível.

Spiegel: Parece haver um bom relacionamento entre você e o ministro alemão das Relações Exteriores, Guido Westerwelle. Vocês fumaram um charuto juntos em Jerusalém.

Lieberman: Westerwelle é um político bastante sério. Eu acredito que ele representa a Alemanha com dignidade.

Spiegel: A maioria dos alemães tem uma opinião diferente. Eles acham que Westerwelle comporta-se mais como o líder da oposição do que como ministro das Relações Exteriores. Por que você é sempre percebido como o sujeito ruim?

Lieberman: As pessoas podem escolher entre a mentira doce ou a verdade amarga. Eu digo a verdade amarga, mas muita gente não deseja ouvi-la.

Tradutor: UOL

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