Reforma da Saúde encobre outros debates globais que precisam acontecer nos EUA

Gregor Peter Schmitz

  • BRENDAN HOFFMAN/EFE

    Barack Obama, presidente dos Estados Unidos da América

    Barack Obama, presidente dos Estados Unidos da América

O pacote histórico de reforma da saúde de Obama é a reforma mais importante que os Estados Unidos veem em décadas e assegurará que 95% dos americanos tenham cobertura. Mas o que é bom para os Estados Unidos pode não ser bom para o próprio presidente e nem para o restante do mundo. A nova lei dominará a discussão às vésperas das eleições de meio de mandato e questões globais importantes serão negligenciadas 

O Chanceler de Ferro da Alemanha, como Otto von Bismarck era conhecido, nunca foi um grande fã da democracia. Bismarck liderou o país de 1871 a 1890 –e preferia manter o processo de governo longe dos olhos públicos. O processo legislativo, como ele já apontou, não era muito diferente do que faz um açougueiro. “Quanto menos as pessoas souberem sobre como as salsichas são feitas, melhor elas dormirão”, ele famosamente disse.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tem uma visão significativamente diferente da democracia do que a de Bismarck, mas a observação do alemão permanece válida. Por mais de um ano, Obama observou sua reforma da saúde tramitar com dificuldade pelo moedor de carne legislativo. Seus adversários políticos cortaram pedaço por pedaço seu projeto político doméstico mais importante –até o próprio Obama ocasionalmente pegou na faca. Na noite de domingo, ela finalmente passou pela Câmara dos Deputados. Mas o avental de Obama ficou cheio de sangue.

Há pouca dúvida de que o pacote de reforma, que garante cobertura de saúde para 95% dos americanos, é algo para entrar para os livros de história. Era um escândalo o fato do país mais rico do mundo por tanto tempo ter oferecido aos seus cidadãos uma proteção tão deplorável contra lesões e doenças. E parece altamente possível que, daqui 10 anos, os americanos considerarão difícil de acreditar que nem sempre tiveram direito a um seguro saúde. Na longa disputa pela aprovação do projeto, Obama se mostrou persistente e combativo. A acusação de que Obama não realizou nada desapareceu com uma única votação na Câmara.

A primeira promessa foi cumprida 

Todavia, ele não pode realmente celebrar a reforma que prometeu por tanto tempo. Desde sua campanha, Obama forneceu duas justificativas básicas para um atendimento de saúde universal. Primeiro, era uma necessidade moral eliminar os riscos à vida por lesões e doenças entre os mais de 40 milhões de americanos sem cobertura de saúde. A segunda justificativa era econômica –os custos em elevação do atendimento de saúde, prossegue o argumento, devem ser colocados sob controle visando reduzir a pressão sobre o orçamento americano.

A primeira promessa foi cumprida –a nova legislação demonstra solidariedade para com aqueles incapazes de arcar com um plano de saúde e com aqueles rejeitados pelos planos de saúde. A segunda promessa, entretanto, foi adiada. O projeto de lei da reforma trata apenas levemente da redução dos custos da saúde e essas medidas voltadas para redução dos custos podem ser facilmente contornadas. Os planos de saúde receberão milhões de novos clientes, mas nenhuma concorrência real. As ações das seguradoras já estão subindo nas bolsas, de forma que elas já são as verdadeiras vencedoras na reforma da saúde americana.

O presidente, em outras palavras, venceu o debate moral, mas está pagando um alto preço. O esforço para introdução das reformas sociais dos anos 60, que forneceram atendimento de saúde aos pobres e idosos, também foi profundamente controversa. E naquela época os republicanos também fizeram grandes esforços para bloquear as reformas. O Congresso, entretanto, aprovou o projeto de lei com maioria clara no final, com votos de ambos os partidos. Desta vez Obama fracassou em conseguir apoio sequer de um único republicano à sua reforma da saúde e as pesquisas mostram que há uma profunda desconfiança por parte da população.

A demonstração de força de Obama, entretanto, lembra a luta pelos direitos civis para os afro-americanos no Sul, durante os anos 60. O presidente democrata Lyndon B. Johnson lutou pela Lei dos Direitos Civis porque acreditava que era a coisa certa a se fazer. Mas o fez com conhecimento claro de que os democratas pagariam um alto preço político.

Preocupação com a reeleição

Obama também deixou claro que está menos preocupado com as consequências políticas e mais em fazer a coisa certa. “Nós nos erguemos acima do peso de nossa política”, ele disse após a aprovação do projeto de lei. “Quando nos vemos diante de uma crise, nós não fugimos dos desafios. Nós os superamos. Nós não evitamos nossas responsabilidades, nós as abraçamos. Nós não tememos nosso futuro, nós o moldamos.”

Entretanto, muitos democratas estão profundamente preocupados com suas perspectivas de reeleição e seguiram apenas de modo hesitante o presidente. É difícil dizer se as eleições de meio de mandato, em novembro, trarão punição ou recompensa pela aprovação da reforma. Uma coisa, entretanto, parece clara: o debate em torno da reforma da saúde está longe de encerrado.

Mesmo durante a votação na Câmara no domingo, os republicanos testaram aquela que provavelmente será sua nova mensagem de campanha. Quem será forçado a pagar pelos US$ 940 bilhões da reforma? Os Estados Unidos podem arcar com essa despesa, ainda mais agora?

Obama rebate dizendo que a reforma pagará a si própria, pois, como ele alega, ela no final economizará dinheiro. Todavia, os bilhões de dólares com os quais ele já está fazendo malabarismo parecem deixar muitos americanos com tontura.

Novos sucessos em dúvida

O debate dominará os próximos meses e sem dúvida terá um impacto sobre outros projetos que Obama planeja lidar. A atenção que o presidente terá que continuar dando à saúde, na verdade, torna novos sucessos ainda mais difíceis.

Todas as demais questões ficarão em segundo plano, particularmente aqueles fora das fronteiras dos Estados Unidos. A missão no Afeganistão: de interesse marginal. A proteção do meio ambiente: adiada. A paz no Oriente Médio: muito distante. Sanções contra o Irã: adiadas. Europa: nem mesmo digna de uma viagem.

A única superpotência global restante agora só olha para o próprio umbigo. A natureza da difícil vitória de Obama significa que pouco mudará no futuro próximo. Agora ele terá que explicar ao país e ao seu próprio partido por que toda a jornada da reforma da saúde valeu a pena no final. Ele terá pouco tempo para outras coisas.

Esse entendimento não deve estragar a celebração da reforma da saúde pelos americanos. Mas o restante do mundo não deve se juntar à festa com o mesmo entusiasmo.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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