Angela Merkel pode sair vitoriosa na batalha da UE sobre Grécia

Carsten Volkery e Philipp Wittrock

  • ALINA NOVOPASHINA/EFE

    O primeiro ministro grego, Yorgos Papandreu, e a chanceler alemã, Angela Merkel, após encontro para discutir a situação financeira grega, que assusta os mercados

    O primeiro ministro grego, Yorgos Papandreu, e a chanceler alemã, Angela Merkel, após encontro para discutir a situação financeira grega, que assusta os mercados

Por semanas, Merkel ficou praticamente sozinha insistindo que o Fundo Monetário Internacional fosse o salvador da Grécia. Agora, contudo, recebeu o apoio de Paris e pode emergir como vencedora na mais recente rodada do pôquer grego. 

Ela foi chamada de “Madame non” e algumas vezes de “madame nyet”. “Chanceler de ferro”, uma alusão a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher também tinha se tornado popular. Independentemente do que as pessoas a chamaram nas últimas semanas, ficou claro no início desta semana que a fama da chanceler Angela Merkel sofrera recentemente. Ela adotou uma postura solitária em sua batalha contra as demandas do resto da União Europeia de prometer assistência financeira à Grécia endividada, caso haja necessidade. 

Subitamente, contudo, há um novo movimento no jogo de pôquer em torno da Grécia. E parece provável que Merkel emergirá vitoriosa. 

Pouco antes da reunião de cúpula dos chefes de Estado europeus na quinta e sexta-feira em Bruxelas, parece provável que a UE atenda a chanceler em uma questão vital na questão de assistência à Grécia: o governo francês disse que está aberto à inclusão do Fundo Monetário Internacional (FMI) em um plano de emergência para Atenas, uma ideia que Merkel propôs várias vezes recentemente. Dadas as reservas sobre um país da zona do euro buscando ajuda no FMI, a chanceler pode contabilizar a concessão de Paris como um retumbante sucesso. 

A França e a maior parte dos outros países da UE tinham rejeitado há muito a ideia de intervenção do FMI. Mas agora que Merkel aparentemente tem o apoio do presidente Frances Nicolas Sarkozy, como informou o Süddeutsche Zeitung na quarta-feira, o resto provavelmente será mais fácil de convencer. Se a ajuda à Grécia tornar-se necessária, alguns países da UE podem contribuir com empréstimos bilaterais além da injeção financeira do FMI. Nos círculos governamentais em Berlim, houve otimismo cauteloso sobre os “sinais iniciais de várias capitais” que as autoridades podem esperar assistência financeira do FMI. 

Acordo de último minuto 

Os diplomatas ainda estão ocupados definindo os detalhes do acordo, e é possível que seja divulgado antes do início da reunião. Um porta-voz do presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy, disse que pode haver um encontro separado dos 16 países da zona do euro na quinta-feira, com o objetivo de fechar a questão. A proposta veio do presidente francês Sarkozy e do primeiro-ministro espanhol Jose Luis Zapatero. 

O encontro separado também representaria uma acomodação dos desejos da chanceler. Ela vem dizendo há muito que a ajuda a Grécia não será discutida na reunião de cúpula da UE, e o encontro extraordinário de países da zona do euro permitiria que ela mantivesse sua palavra. A Grécia, por sua vez, receberia a promessa pública de apoio que vem pedindo para acalmar os mercados financeiros. De fato, um acordo de último minuto evitaria o que pareceu ser um possível conflito, permitindo que líderes europeus finjam tratar de rotineira reunião de cúpula e se concentrem na estratégia econômica “Europa 2020” da UE. 

O governo alemão já tinha se negado discutir a Grécia em Bruxelas. Segundo as autoridades em Berlim, Atenas não tinha pedido ajuda, então não havia necessidade de discussão. Contudo o governo grego não foi simpático a essa postura. “Se não está na agenda, vamos colocar”, advertiu o primeiro-ministro grego Georgios Papandreou. 

Apesar de ter emitido bônus com sucesso no início do mês, a Grécia ainda não saiu de seu predicamento. Ainda precisa refinanciar US$ 67 bilhões (em torno de R$ 120 bilhões) neste ano e seu fraco grau de crédito significa que os empréstimos serão caros para Atenas. O governo grego insiste que não quer pegar dinheiro da UE. Em vez disso, alega estar meramente interessado em uma demonstração política de solidariedade para impedir os especuladores de apostarem na insolvência grega e assim forçarem o aumento das taxas de juros. 

Cálculo político interno 

Os alemães, por outro lado, referindo-se à declaração de solidariedade emitida pela UE em fevereiro, continuaram estritamente opostos a novas promessas de ajuda, por diversas razões: 

Primeiro, há um cálculo político interno. Apesar de pouco popular na UE, a teimosia de Merkel faz sucesso em casa. A maior parte dos alemães acredita que os gregos devem se virar sozinhos, particularmente após terem enganado outros países da zona do euro por anos. A poucos dias das eleições importantes na Renânia do Norte-Vestfália, o Estado mais populoso do país, Berlim não está disposta a oferecer dinheiro do contribuinte alemão pela estabilidade na Grécia, particularmente com o grau de endividamento que a Alemanha já enfrenta. 

Além disso, em junho, uma decisão da justiça alemã demonstrou que o judiciário alemão está cético quanto ao tratado de Lisboa e à soberania que transfere a Bruxelas. Berlim agora teme que a justiça impeça a ajuda a Atenas. Para começar, a UE proíbe os Estados membros de fornecerem assistência financeira direta aos outros. Além disso, tal medida ia apagar ainda mais os limites entre as nações dentro da UE. Os ministérios de Justiça e do Interior alemães acreditam que há um risco considerável de ação legal. 

Em vez de pacotes de ajuda, Merkel demonstrou preferência por novos instrumentos para assegurar o cumprimento do Pacto de Estabilidade e Crescimento Europeu. Esses instrumentos incluiriam uma dura penalidade para países que excedam as regras de dívida da zona do euro, inclusive possivelmente a expulsão da área de moeda comum. Isso, contudo, ia exigir uma emenda ao tratado de Lisboa, e os anos de disputa em torno do mais recente tratado mostram como seria difícil. 

Finalmente, Merkel acredita que a única opção é envolver o FMI. Ela sente que a proposta do ministro Wolfgang Schäuble de criação de um Fundo Monetário Europeu ainda está distante. 

Advertindo Berlim 

Mantendo-se firme à sua ideia de envolvimento do FMI, Merkel gerou mais tensões em sua batalha contra o resto da Europa. A maior parte dos governos da UE –e seu ministro de finanças, Schäuble –argumentaram que a intervenção do FMI representaria um fracasso por parte da UE. Em vez disso, querem que os problemas de dívida gregos permaneçam em família. O Banco Central Europeu também está com medo de perder sua independência, se o FMI ganhar influência sobre a política orçamentária europeia. 

Preocupações desse tipo levaram o presidente da Comissão Europeia, Jose Manuel Barroso, a intervir recentemente, pedindo várias vezes aos 27 chefes de Estado e governos que concordassem com um mecanismo para um resgate à Grécia na reunião de cúpula. A atual situação, disse ele, não pode continuar. “Estou confiante que a Alemanha fará uma contribuição construtiva para a solução da atual crise”, disse ao jornal alemão Handelsblatt na segunda-feira. 

Essa mensagem tão direta a Merkel foi digna de nota primariamente porque muitos vêem Barroso como pouco mais do que um porta-voz de Berlim. De fato, raramente ele ousa se opor publicamente à chanceler. Contudo, ao advertir Berlim, ele demonstrou como os membros da UE estão descontentes com o curso econômico do governo alemão. Apenas a Holanda se manteve ao lado de Merkel, enquanto o resto da UE –particularmente Itália França e Espanha- ficaram mais ou menos contra ela. 

Agora, há uma solução à vista. Contudo, também parece claro que o encontro especial para a Grécia não vai chegar a uma decisão final sobre a ajuda a Atenas. Merkel não quis desistir de sua posição na terça-feira. Em uma reunião com o grupo parlamentar de sua União Cristã Democrática, ela mencionou que surgiria uma “situação de último recurso” se a Grécia não conseguisse angariar fundos no mercado de capitais. E, no Frankfurter Allgemeine Zeitung, o ministro de finanças, Schäuble, ressaltou que “o fato de uma região monetária resolver o problema de uma parte de sua zona monetária por meio do FMI pode e deve continuar sendo uma exceção.”

Tradutor: Deborah Weinberg

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