"Até a guerra é boa para o crescimento econômico", diz Noreena Hertz, crítica da globalização

Friederike Ott

Já em 2001 a economista e crítica da globalização Noreena Hertz fazia advertências sobre os bancos excessivamente poderosos, a cobiça sem limites e os mercados não regulados. Falando a “Spiegel Online”, ela explica os limites de uma abordagem que se concentra no produto interno bruto e diz por que o capitalismo se encontra em um ponto de inflexão. 

Spiegel: Doutora Hertz, a gente lê constantemente sobre o quanto a economia de um país cresceu ou encolheu. Por que o produto interno bruto (PIB) é levado tão a sério?

Noreena Hertz: É fácil medi-lo e ele mostra o desempenho de uma nação em relação a outra. Todo país, portanto, mede o seu sucesso econômico pelo PIB. A única exceção é Butão.

Spiegel: Segundo a constituição de Butão, as pessoas não deve ficar mais ricas, e sim mais felizes, a cada ano. O pequeno reino asiático quer atingir essa meta com uma sociedade socialmente igualitária e melhor proteção do meio ambiente. Essa é uma abordagem melhor?

Hertz: Sem dúvida. O PIB mede apenas uma pequena parcela do sucesso econômico. Alguns aspectos realmente importantes são ignorados. Vejamos, por exemplo, a sustentabilidade. É absurdo que um país possa apresentar altos índices de crescimento porque ele conta com muitas indústrias poluentes. A qualidade do ar, a saúde, o progresso feito pelas mulheres, a disponibilidade de creches e a coesão social – todos estes são fatores econômicos importantes. O PIB não revela até que ponto uma economia é inovadora. E ele tampouco diz se os produtos que estão sendo produzidos terão sucesso no longo prazo ou se estarão fora de moda amanhã. Mas, até o momento, não houve nenhum substituto do PIB.

Spiegel: Os especialistas afirmam que o crescimento é importante para a criação de riqueza.

Hertz: Isso nunca foi provado. A economia de um país pode crescer enormemente, e a maioria da população permanecer pobre. A Rússia é um exemplo disso. O país exibe altos índices de crescimento, mas só poucas pessoas se beneficiam disso. Durante mais de 25 anos, a distância entre ricos e pobres vêm crescendo. Não existe correlação alguma entre uma sociedade mais igualitária e o crescimento do PIB. Os motivos pelos quais a economia de um país cresce podem ser também bastante negativos. Por exemplo, as guerras são boas para o crescimento. Os desastres naturais também. O Haiti terá altos índices de crescimento porque, após o terremoto, todo mundo tem que reconstruir.

Spiegel: O presidente francês Nicolas Sarkozy deseja incluir fatores como a felicidade no cálculo do PIB.

Hertz: Sim, essa é uma abordagem absolutamente avançada. Um número cada vez maior de pessoas tem a opinião de que o GDP não é mais adequado porque ele só mede a produção.

Spiegel: E que peso você daria ao PIB?

Hertz: O PIB tem um significado, e sem dúvida deveria ser incluído na equação. Mas nós temos que decidir se queremos avaliar sucesso por meio da medição da riqueza econômica absoluta por si própria, ou se desejamos levar em conta a forma como a riqueza é distribuída e o quanto ela é sustentável.

Spiegel: Você acredita que as principais nações industrializadas usariam menos o PIB para comparar o tamanho das suas economias?

Hertz: É verdade que o PIB é há muito tempo uma medida comum de sucesso. Mas se os políticos quiserem tomar as melhores decisões, eles têm que medir os fatores certos. Um foco tão exclusivo no PIB é algo que está fora de sintonia com aquilo que nós atualmente sabemos que torna uma determinada sociedade melhor ou pior do que outras.

Spiegel: E, no entanto, a conferência sobre mudança climática em Copenhague fracassou principalmente porque países como a China não desejam conter o crescimento.

Hertz: Se alguns países começarem a usar uma modelo alternativo de medição, outros farão o mesmo. Mas você tem razão. Países como a China estão totalmente focados no crescimento. Se crescerem apenas 7% ou 8%, eles consideram tal resultado um fracasso. Mas isto não significa que os outros países também tenham que se concentrar no crescimento do PIB.

Spiegel: Mas todo país – exceto Butão – faz isso. E Sarkozy ainda não colocou as suas palavras em prática.

Hertz: Eu estou convencida de que o capitalismo encontra-se em um ponto de inflexão. A crise financeira só foi possível porque as pessoas estavam demasiadamente concentradas no crescimento, sem perguntarem de onde vinha esse crescimento e qual era o seu custo. A crise foi uma advertência para muita gente que aceitava as regras do velho sistema. E muita gente – desde governantes até acadêmicos, economistas e políticos, mas também o cidadão comum – está começando a questionar se as velhas regras eram de fato justas ou corretas.

Spiegel: Você chama isto de mudança do capitalismo Gucci para o capitalismo cooperativo.

Hertz: No capitalismo Gucci as pessoas acreditavam que os mercados eram totalmente racionais e confiáveis. Os economistas criaram modelos com premissas que pareciam tiradas de histórias em quadrinhos a respeito dos indivíduos, como se estes fossem maximizadores de lucros super-racionais. Eles tentaram descrever um mundo complexo sem prestar atenção na política, na economia e na história. Eles ignoraram tudo isso. Mas, agora, esses economistas estão começando a questionar todos esses fatores. É interessante observar que o Prêmio Nobel não foi dado a um economista tradicional, e sim a Elinor Ostrom, que questiona as premissas fundamentais sobre a economia clássica.

Spiegel: Qual seria a forma assumida pelas companhias no capitalismo cooperativo?

Hertz: Já existem companhias que possuem um modelo empresarial cooperativo. Empresas novas no Vale do Silício ou os fornecedores de software de fonte aberta são apenas alguns dos exemplos. Essas indústrias não são movidas pelo capitalismo Gucci. Elas trabalham segundo princípios que valorizam explicitamente a colaboração, a parceria, as redes de interação social, os relacionamentos e as forças sociais – conceitos que antigamente eram considerados sem nenhum valor econômico. Mas nós vimos que às vezes eles podem ser muito mais bem sucedidos do que os velhos modelos.

Spiegel: Cerca de um ano atrás, você escreveu um ensaio sobre a mudança para um capitalismo cooperativo. Mas, desde então, nada mudou, e os banqueiros estão recebendo de novo bônus financeiros enormes.

Hertz: Existem no momento duas realidades paralelas se desenrolando. Os banqueiros, muitos dos quais não entendem as preocupações das pessoas comuns, vivem em uma realidade. O resto da economia – o resto de nós – vive em uma outra. Afirmar que nada mudou é subestimar as diversas novas inovações que estamos presenciando em pensamentos, realizações e ações.

Spiegel: Os políticos deixaram de intervir?

Hertz: A política é, infelizmente, muito dependente da economia. Nos Estados Unidos, Wall Street apoia os grandes partidos políticos. No Reino Unido, haverá eleições em breve. É provável que o Partido Trabalhista perca, e existem muitos cargos nos bancos que os políticos gostariam de ocupar quando deixassem a política. Além do mais, o setor financeiro no Reino Unido representa uma grande parcela do PIB. Países diferentes respondem de forma diferente à crise. Atualmente fala-se muito sobre a imposição de taxas e impostos aos bancos e sobre outras formas de gerenciamento de riscos. E hoje em dia acredita-se que não há problema em os políticos intervirem nos mercados – uma crença que estava quase desaparecida antes da crise.

Spiegel: Existe uma sensação de que agora é tarde demais?

Hertz: Não. Não é tarde demais para mudanças. Em se tratando de reformar o setor financeiro, por exemplo, o Reino Unido impôs um imposto de 50% sobre os bônus dos banqueiros. A Holanda está estabelecendo um teto para os vencimentos dos banqueiros. Existem reuniões internacionais nas quais se discute como se poderia fazer com que o setor se tornasse menos arriscado. Mas, pensando de forma mais abrangente, o que a crise expôs foram buracos no velho sistema – o capitalismo Gucci. Além do mais, essa ideologia nunca foi integralmente aceita pelas novas potências mundiais emergentes – países como o Brasil, a Índia e a China. E esses países contam agora com uma grande e crescente voz global. Na minha opinião, é muito improvável que o futuro seja como o passado.

Spiegel: E como será o futuro?

Hertz: Estamos entrando em uma era de complexidade, diversidade e colaboração. Essas três tendências determinarão tudo, desde a inovação até as estruturas de propriedade e a forma como o poder é administrado e estruturado. Será um futuro no qual habilidades como o pensamento holístico e a análise crítica serão essenciais, e no qual a compreensão de como gerenciar redes será importante, e onde nós teremos que nos tornar suficientemente resistentes para lidarmos com as mudanças, gerenciá-las e nos prepararmos para quando elas vierem.

Tradutor: UOL

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