"Sinto-me completamente seguro", afirma presidente sudanês

Susanne Koelbl e Volkhard Windfuhr

  • EFE

    O presidente do Sudão, Omar Hassan al Bashir

    O presidente do Sudão, Omar Hassan al Bashir

Em entrevista à Spiegel, o presidente sudanês Omar al-Bashir, alvo de uma ordem de prisão internacional expedida pelo Tribunal Penal Internacional, discutiu a condenação mundial aos crimes de guerra em Darfur, a possível divisão do Sudão e sua relação com o líder terrorista Osama bin Laden.

De acordo com estimativas da ONU, cerca de 300 mil pessoas morreram e pelo menos 2 milhões foram desalojadas de suas casas na região de Darfur, no Sudão, entre 2003 e 2008. Nos anos de tortura e deslocamento forçado, a responsabilidade política era do presidente sudanês Omar al-Bashir, o primeiro chefe de Estado em exercício a ser alvo de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional. O tribunal indiciou Bashir em cinco acusações de crimes contra a humanidade e duas de crimes de guerra.

O presidente do maior país africano, enquanto comandante-chefe das forças armadas, é acusado de ser o responsável pelo bombardeio de inúmeros vilarejos. Ele também é acusado de ter fornecido armas e dinheiro para as milícias árabes montadas conhecidas como Janjaweed, para que, depois dos bombardeios, elas pudessem matar pessoas nos vilarejos, expulsá-las e estuprar sistematicamente as mulheres. Até agora, entretanto, o promotor-chefe Luis Moreno-Ocampo não recebeu o apoio da maioria dos juízes de Haia para processar Bashir por genocídio.

Bashir chegou ao poder num golpe não violento há cerca de 21 anos, e em 1993 foi formalmente confirmado como presidente. Em 2005, ele concordou com um tratado negociado pelo Ocidente, que terminou com décadas de guerra civil no sul cristão e animista do país. Segundo o acordo, o sul decidirá, num referendo em janeiro de 2011, se irá se separar do resto do país. A população deve optar pela independência.

No norte muçulmano, entretanto, Bashir na verdade se beneficiou com o mandado de prisão. A Liga Árabe e a União Africana o apoiaram, e a acusação rendeu a simpatia desafiadora da população. Observadores acreditam que Bashir será confirmado presidente nas eleições de meados de abril.

Em entrevista exclusiva à “Spiegel”, Bashir descreveu as acusações contra ele como “sem fundamento” e “uma conspiração controlada pelo exterior”.

Spiegel: Sr. Presidente, o senhor é o primeiro chefe de Estado em exercício a receber um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade. Além disso, acusações de genocídio estão sendo consideradas contra o senhor. Mais de cem países, ou cerca de metade do mundo, foram solicitados a executar o mandado de prisão. Como o senhor responde a essas graves acusações?

Bashir: Simplesmente não é verdade que cem ou mais países se posicionaram contra o Sudão. Muitas nações africanas estão pedindo que o Tribunal Penal Internacional reconsidere a decisão, e alguns países estão até mesmo ameaçando se retirar do tribunal por causa dela.

Spiegel: Cada vez mais países, incluindo a África do Sul, estão se distanciando do senhor.

Bashir: Temos relações excelentes com a África do Sul. O vice-presidente nos visitou, e agendamos uma visita do presidente depois de nossas eleições em abril. Recebi um convite pessoal da Venezuela, que também aceitarei depois das eleições. Sim, há problemas, principalmente com os países europeus. Mas o comportamento mais estranho vem dos Estados Unidos, que insistem na execução do mandado de prisão, embora nunca tenham reconhecido o Tribunal Penal Internacional.

Frase

Minha popularidade no país subiu inesperadamente por causa deste mandado de prisão

Spiegel: O senhor parece pouco preocupado com sua segurança aqui, apesar dos rumores persistentes de que está sob ameaça de um comando especial que poderia executar a ordem de prisão e levá-lo para Haia.

Bashir: Sinto-me completamente seguro em meu país. Por outro lado, o Tribunal Penal Internacional fez até um serviço para mim, algo que eu jamais teria imaginado. Minha popularidade no país subiu inesperadamente por causa deste mandado de prisão.

Spiegel: Entretanto, crimes horríveis aconteceram na problemática região de Darfur. De acordo com as acusações, o senhor controlava as famosas milícias montadas Janjaweed, que atacaram sistematicamente os vilarejos de Darfur e massacraram seus moradores.

Bashir: Estas acusações não têm fundamento. Desde o início, foi uma conspiração controlada a partir do exterior que apoiou a rebelião em Darfur, política, militar e financeiramente. Primeiro, esses manipuladores estrangeiros apoiaram os rebeldes no sul do Sudão. Então nossas tropas retomaram o controle e o conflito diminuiu. Mas depois eles apoiaram os rebeldes em Darfur, tirando vantagem dos conflitos tradicionais entre fazendeiros e pastores, que ocorrem regularmente durante os períodos de seca.

Spiegel: Mas os estrangeiros não cometeram os massacres em Darfur.

Bashir: É claro que houve crimes, até mesmo crimes horríveis, mas é assim em qualquer lugar do mundo em que grupos armados causam problemas e se opõem ao governo. É obrigação de nossas forças armadas confrontarem os rebeldes. Tudo o que é dito sobre as milícias Janjaweed e seus supostos ataques tem unicamente a intenção de distorcer os fatos.

Spiegel: Sejamos claros quanto a isso: houve crimes de guerra em Darfur. O senhor está dizendo que eles são responsabilidade apenas dos oficiais de baixa patente de seu exército?

Bashir: Nossas forças armadas sempre operam dentro da lei. Qualquer membro do Exército e do governo que infrinja a lei é responsabilizado. Um policial certa vez perseguiu um bando de homens armados e atirou em seu líder, e foi condenado à morte por isso. Em outro caso, um membro das forças de segurança matou um cidadão em Darfur. Ele também foi julgado e executado.

Spiegel: Como comandante-chefe e chefe de Estado, o senhor assume responsabilidade pessoal pelo que aconteceu em Darfur?

Inferno em Darfur: 300 mil crianças morrem por ano no Sudão

Bashir: É um dos meus deveres assegurar que as leis sejam observadas, e sou responsável por tudo o que acontece enquanto exerço esse dever.

Spiegel: Seu país não tem relações diplomáticas oficiais com os Estados Unidos há 12 anos. Entretanto, os norte-americanos também estão interessados no petróleo do Sudão e na estabilidade da região. Os serviços de inteligência dos dois países cooperaram intensivamente em seus esforços contraterroristas durante algum tempo. O serviço de inteligência sudanês usa equipamentos norte-americanos, e seu ex-chefe de inteligência esteve nos EUA diversas vezes. É possível que seu país tenha boas relações com os Estados Unidos secretamente?

Bashir: Os tomadores de decisão nos Estados Unidos, e também o FBI e a CIA, sabem perfeitamente bem que as coisas que são ditas sobre o Sudão não são verdades. Mas poderosos grupos de interesse exercem influência sobre o governo dos EUA. Esta é a única forma de explicar as contradições da posição norte-americana.

Spiegel: O senhor sempre suspeita da influência de Israel por trás de tudo. Mas é o senhor que está ajudando os extremistas palestinos a lutarem contra Israel.

Bashir: Sim, nós apoiamos a luta legítima do Hamas e do Hezbollah contra a ocupação israelense e a resistência contra os invasores norte-americanos no Iraque e Afeganistão, onde o povo foi obrigado a aceitar um presidente.

Spiegel: Existem negociações secretas entre o senhor e os norte-americanos, similares às que aconteceram com o líder revolucionário líbio Moammar Gadhafi, que, depois de abandonar seu programa nuclear e o apoio aos terroristas, deixou de ser um vilão declarado e passou a ser um aliado dos norte-americanos?

Frase

As sanções não estão causando nenhum problema para nós

Bashir: Nosso diálogo com os Estados Unidos é intermediado pelo enviado especial norte-americano Scott Gration. Nós consideramos o ex-general um homem razoável e realista. Companhias norte-americanas comandavam nossas indústrias de petróleo no passado. Mas elas decidiram sair do Sudão. Aparentemente elas pensaram que ninguém tomaria o seu lugar.

Spiegel: Uma delegação econômica da Associação Árabe Alemã fez uma turnê recente pelo seu país. É possível fazer negócios lucrativos no Sudão, mesmo com as pesadas sanções impostas pela União Europeia e, sobretudo, pelos Estados Unidos?

Bashir: Estamos dispostos a cooperar com a economia alemã em todas as áreas, e a proteger projetos alemães se isso for solicitado. As sanções não estão causando problemas para nós. No mesmo dia que a Siemens anunciou que planejava sair do Sudão, assinamos um acordo com uma grande companhia chinesa. No setor do petróleo, assinamos contratos com companhias da China, Índia e Malásia, e esses contratos são significativamente melhores do que os que tínhamos com os EUA. Os norte-americanos ficaram com 70% dos lucros do petróleo, e o governo sudanês recebia apenas 30%. Hoje o governo fica com 70%. Os chineses também estão treinando técnicos e especialistas. A maioria dos engenheiros que trabalham em nosso setor petroleiro são sudaneses.

Spiegel: Por que o senhor ofereceu hospitalidade ao terrorista Osama bin Laden até 1996, por um período de quatro anos?

Bashir: Osama bin Laden foi inicialmente ativo no Afeganistão onde, como mujahedeen, ele desfrutava do total apoio dos norte-americanos. Na verdade, a CIA acompanhava suas operações militares. Depois que os soviéticos se retiraram do Afeganistão, bin Laden veio para o Sudão e construiu o aeroporto em Porto Sudão. O projeto foi financiado pelo governo da Arábia Saudita, e o trabalho foi feito pelo grupo de bin Laden na Arábia Saudita. Em outras palavras, ele não esteve aqui enquanto terrorista, mas como investidor e homem de negócios. Mas então ele começou a ter problemas com o governo em Riad.

Spiegel: … porque extremistas islâmicos se juntaram a ele no Sudão e inflamaram os fieis.

Bashir: Em hipótese alguma nós estávamos dispostos a continuar apoiando bin Laden e seu conflito. Mas ele não voltou para a Arábia Saudita, porque seria levado a julgamento lá. Em vez disso, viajou para o Afeganistão.

Spiegel: O senhor anunciou sua intenção de permitir que o sul rico em petróleo de seu país se torne independente, se for a vontade dos sudaneses. Isso significa que o senhor está se rendendo à pressão internacional?

Bashir: Isso não aconteceu em resposta às pressões de fora, mas, sim, porque percebemos que um evento histórico tão importante só pode ser decidido pelos representantes legítimos do povo. Antes de fazermos o referendo quanto à independência do sul, queremos estabelecer as condições necessárias com as eleições em abril.

Spiegel: Se o referendo determinar a divisão, será que o sul independente continuará satisfeito com apenas 50% dos lucros do petróleo embora três quartos das reservas estejam na região?

Bashir: Esses detalhes serão resolvidos depois do referendo.

Spiegel: De qualquer forma, o norte continuará com a soberania sobre as companhias de petróleo no futuro próximo, porque os oleodutos que vão para o Mar Vermelho passam pelo norte do Sudão, onde também estão localizadas as refinarias.

Bashir: Depois de 50 anos de guerra, concordamos com uma solução pacífica. Todos os que acreditam que não é possível um acordo não violento para o conflito estão errados, não importa o que os sudaneses do sul decidam. Os tchecos e os eslováquios foram os últimos povos a darem o exemplo de uma coexistência amigável e pacífica entre duas nações que antes eram unidas.

Spiegel: A ONU tem seu maior número de pacificadores, mais de 30 mil soldados, estacionados no sul do Sudão. Isso se tornará desnecessário se as negociações com os rebeldes de Darfur também tiverem sucesso?

Bashir: Se a situação no Sudão se estabilizar e a paz for duradoura, as tropas da ONU não serão mais necessárias. Mas se os soldados estrangeiros continuarem no país depois de cumprir sua missão, isso só criará problemas.

Tradutor: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos