Moscou faz luto pelas vítimas do ataque terrorista contra o metrô

Benjamin Bidder

Moscou declarou na terça-feira (30/03) um dia de luto pelas vítimas do atentado a bomba cometido na segunda-feira no metrô da cidade. A busca pelos perpetradores teve início, e os serviços de inteligência russos acusaram grupos da região do Norte do Cáucaso. Mas é improvável que a promessa do Kremlin de destruir os terroristas torne Moscou mais segura.

Muitos passageiros gritavam ao sair do trem atacado e eles foram escoltado pela polícia através da estação de metrô Park Kultury na manhã da segunda-feira em Moscou. Esses foram os que tiveram sorte – eles passageiros estavam a caminho do centro da cidade.

Do outro lado da plataforma, passageiros que seguiam na direção oposta foram mortos em uma das duas explosões que atingiram o metrô de Moscou na manhã da segunda-feira. Os vagões do metrôs estavam lá, com as portas escancaradas e as janelas destruídas. Não houve tempo para cobrir as faces dos corpos ou remover os mortos.

Os passageiros evitavam olhar para a cena, cobrindo os olhos ou olhando para o chão. Traços de sangue ainda podiam ser vistos no chão, de onde os feridos foram levados pelas equipes de resgate para a saída da estação.

Durante a hora do rush na manhã de segunda-feira, duas bombas, aparentemente detonadas por extremistas suicidas, mataram pelo menos 39 pessoas na estação Park Kultury na parte sul da estação Lubyanka, no centro da cidade. Os passageiros que saem dessa última estação deparam-se com o edifício Lubyanka, que no passado foi a sede da KGB e que atualmente abriga o sucessor do serviço de inteligência soviético, o Serviço de Segurança Federal (FSB). O prédio é um símbolo do poder dos serviços de inteligência – e também da sua impotência.

“Naturalmente pode-se sempre culpar em parte as forças de segurança”, disse a “Spiegel Online” Nikolai Petrov, especialista em Cáucaso e terrorismo da instituição de pesquisa Centro Carnegie de Moscou. “Mas é impossível contar com 100% de segurança”.

Em estado de choque

Na noite de segunda-feira, os trens circulavam novamente no metrô de Moscou e as estações Lubyanka e Park Kultury tinham sido reabertas. No entanto, os habitantes da cidade ainda estavam em estado de choque. A prefeitura de Moscou declarou a terça-feira um dia de luto.

O diretor do FSB, Alexander Bortnikov, disse que os investigadores acreditam que “grupos terroristas vinculados ao norte do Cáucaso” foram os responsáveis pelos ataques. “Fragmentos dos corpos de duas mulheres-bomba foram encontrados mais cedo no local do incidente e exames demonstraram que essas pessoas vieram da região do norte do Cáucaso”, disse ele.

As autoridades acreditam que as supostas mulheres-bomba eram “viúvas negras”, conforme os russos chamam as extremistas suicidas islâmicas tchetchenas cujos maridos ou filhos foram mortos por forças russas. O FSB calcula que havia cerca de 150 terroristas desse tipo em 2004. Essas militantes estiveram envolvidas em vários ataques nos últimos anos, incluindo a tomada de um teatro de Moscou em 2002 e um atentado a bomba, em fevereiro de 2004, no metrô de Moscou, que matou 39 pessoas.

Muitas das mulheres são, no entanto, recrutadas à força. A jornalista russa Yulia Yusik, que viajou à Tchetchênia para pesquisar o fenômeno para o seu livro “As Noivas de Alá”, acredita que apenas uma dentre cada dez “viúvas negras” age por convicção própria. As outras são obrigadas a desempenhar esse papel, diz ela. “As mulheres no Cáucaso não têm o direito à opinião própria e não podem se recusar a obedecer ordens”, disse Yusik a “Spiegel Online”, acrescentando que a sociedade patriarcal as trata como “meros recursos renováveis”.

O ataque da segunda-feira foi o primeiro ocorrido em Moscou desde agosto de 2004, quando uma mulher-bomba detonou a sua carga explosiva na entrada da estação de metrô Rizhskaya. Desde então houve vários ataques graves nas conturbadas repúblicas da Ingushetia, Tchetchênia e Daguestão. Em Moscou, no entanto, as pessoas se sentiam relativamente seguras – em parte porque o então presidente Vladimir Putin proclamou vitória na luta contra os separatistas tchetchenos. Em 2009, o governo declarou a conclusão oficial da “operação anti-terrorista” na Tchetchênia, como um sinal de um suposto retorno à normalidade. Agora, apenas alguns dias antes da Páscoa, o terrorismo retornou à capital russa.

O retorno do terrorismo

Líderes mundiais não demoraram em expressar as sua simpatias. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, condenou o ataque como “horrendo”, e disse que “o povo norte-americano está unido com o povo da Rússia”. O primeiro-ministro britânico Gordon Brown afirmou que está “chocado”, e até mesmo a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a velha rival da Rússia, declarou que faria tudo o que fosse possível para cooperar na luta contra o terrorismo internacional.

O Kremlin está agora buscando os perpetradores. A Rússia combaterá o terrorismo sem hesitação até o fim, declarou o presidente russo Dmitry Medvedev em uma reunião dos líderes das agências de segurança do país, convocada às pressas, enquanto o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, disse que os terroristas serão “destruídos”.

Dúvidas crescentes

Mas, na Rússia, crescem as dúvidas quanto à possibilidade de se vencer uma gerra contra o terrorismo doméstico como essa, apesar de recentes sucessos na luta contra o terror. Nas últimas semanas e meses, as autoridades russas aumentaram significativamente a pressão sobre os separatistas que estão combatendo na região russa do norte do Cáucaso para separarem-se de Moscou e criarem uma teocracia muçulmana. Vários líderes militantes foram mortos por unidades do Ministério do Interior russo e do FSB.

Há apenas um ano, o presidente tchetcheno Ramzan Kadyrov, apoiado pelo Kremlin, disse que tinha certeza de que só restavam “entre 50 e 70” militantes na Tchetchênia, acrescentando que estava “firmemente convencido” de que eles seriam destruídos em um futuro próximo.

Mas a ameaça do norte do Cáucaso continua real, apesar das duas guerras que a Rússia travou na Tchetchênia e dos consideráveis recursos financeiros que o Kremlin forneceu aos seus representantes nas regiões problemáticas nos últimos anos.

Uma nova onda de violência teve início em novembro passado, quando terroristas enterraram um artefato explosivo sob a ferrovia que liga Moscou a São Petersburgo. A bomba fez com que o trem Expresso Nevsky descarrilasse no meio da noite, matando 26 pessoas.

Raízes profundas

“É preciso admitir que muitos dos problemas no norte do Cáucaso não estão relacionados nem ao governo de Boris Yeltsin nem ao de Putin”, diz Nikolai Petrov, do Centro Carnegie de Moscou. “Eles têm raízes mais profundas, por exemplo, na forma como o Cáucaso foi subjugado no passado pelos tsares”.

Por outro lado, observa Petrov, há anos o Kremlin não trabalha no sentido de encontrar uma solução fundamental para o conflito e carece de uma estratégia convincente para lidar com o problema. “Foi importante, especialmente para Putin, ser capaz de exibir rapidamente um sucesso no norte do Cáucaso no final do primeiro mandato”, disse Petrov. “Foi por isso que ele se envolveu com o clã Kadyrov”.

Ramzan Kadyrov assumiu o poder depois que o seu pai, Akhmad, que era o presidente da Tchetchênia, foi assassinado. Ele é conhecido por perseguir brutalmente os seus oponentes e é ele próprio suspeito de desejar maior autonomia para a região. Ele sugeriu recentemente que Moscou não deveria enviar forças policiais de outras partes da Rússia para a Tchetchênia, supostamente devido aos custos envolvidos.

Kadyrov, que é odiado tanto pela oposição moderada quanto pelos islamitas, e que é temido pelos ativistas dos direitos humanos, é atualmente um obstáculo para a maior estabilização e pacificação na região, acredita Petrov. O norte do Cáucaso está frágil como nunca, diz ele. “Há muita gente descontente lá, bem como muitas armas e muitos indivíduos que sabem como usar explosivos”.

“Nós esperamos que ataques como esse no metrô de Moscou não aconteçam novamente”, diz Petrov. “Mas essa é uma expectativa meio ingênua”.

 *Annete Langer contribuiu para esta matéria. 

Tradutor: UOL

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