O "Paciente Inglês" gay?: a verdadeira história do explorador do deserto Laszlo Almasy

Christopher Sultan

Durante a 2ª Guerra Mundial, o explorador do deserto Laszlo Almasy transportou agentes nazistas através do Saara numa jornada épica pelas frentes inimigas. Agora a verdadeira história do homem retratado no filme “O Paciente Inglês” está vindo à tona.

Quando era criança, o filho do nobre húngaro costumava ficar olhando para o horizonte no lugar onde nasceu, um castelo na região de Burgenland, na atual Áustria. Ele sempre desejava o inatingível.

Aos 14 anos, ele construiu uma espécie de asa-delta para voar no céu, mas a invenção quebrou.

Depois, em 1930, Laszlo Almasy partiu para encontrar o oásis perdido de Zarzura. O lugar mítico é mencionado nos livros de tesouro árabes e na coleção de histórias conhecida como “Mil e Uma Noites”, onde é conhecido como “Cidade de Bronze”.

O pioneiro explorou 2 milhões de quilômetros quadrados do Saara. Ele pesquisou a terra, desenhou mapas e viajou para lugares no mar de areia “que nenhum olho humano havia visto”. No remoto Wadi Sura, ele encontrou até arte rupestre em abrigos da Idade da Pedra – uma descoberta sensacional.

Mas ele nunca encontrou Zarzura.

Não há dúvidas de que Almasy foi um homem que seguiu seus desejos. Mas quem era esse aventureiro, instrutor de aviação e agente nazista que os beduínos chamavam reverentemente de Abu Ramla, ou Pai da Areia?

Melodrama distorcido de Hollywood
Os diários de Almasy desapareceram. Os relatos que ele escreveu para a rede de espionagem alemã foram capturados pelos ingleses e agora estão guardados a sete chaves no Museu Imperial de Guerra em Londres.

O monumento que Hollywood ergueu para ele apresenta uma imagem distorcida. O Almasy mostrado no melodrama “O Paciente Inglês” morre com uma overdose de morfina como um herói que se decepcionou com uma mulher e estava determinado a morrer.

Na verdade, o explorador morreu de disenteria amebiana em 1951. E ele tinha pouco interesse em mulheres. Cartas de amor foram encontradas recentemente entre os documentos que ele deixou para trás. Almasy, que era integrante da Unidade Alemã na África, escreveu-as para um soldado chamado Hans.

O Instituto Heirich Barth para Estudos Africanos em Colônia também têm algumas correspondências íntimas escritas pelo aventureiro gay, mas não quer publicar as cartas. Um funcionário revelou, entretanto, que “príncipes egípcios estavam entre os amantes de Almasy”.

Novos detalhes também surgiram sobre seu feito mais corajoso. Em 1942, Almasy traficou agentes alemães para o Egito ocupado pela Inglaterra numa empreitada conhecida como “Operação Salam”. Para completar a jornada, ele dirigiu 4.200 quilômetros através do Saara oriental. Um relato sobre suas experiências durante a guerra na África, que Almasy escreveu em húngaro, foi publicado agora em alemão pela primeira vez.

Uma jornada épica
De acordo com o relato, Almasy trabalhou para a “Divisão de Brandemburgo”, uma famosa unidade da agência militar de inteligência alemã que perpetrou ações de sabotagem atrás das linhas inimigas. Em pouco tempo ele recebeu uma missão delicada: traficar espiões para o Nilo por terra.

A jornada começou em maio de 1942, quando o grupo deixou o oásis de Jalo em dois caminhões roubados e dois Chevrolets. Primeiro eles queriam avançar diretamente para o leste, através do terreno mais intransponível. Entretanto, encontraram uma zona morta de areia movediça e depósitos de sal. Os veículos afundavam o tempo todo na areia, e quando dois dos motoristas ficaram doentes com diarreia, o grupo decidiu voltar.

Na segunda tentativa, poucos dias depois, o comboio de agentes foi para áreas remotas do interior da Líbia, desviando em direção ao Nilo apenas nas proximidades de Kufra, no sudeste da Líbia. “O terreno é terrível”, observou Almasy.

Em determinado momento, o grupo entrou no campo de visão dos ingleses. “Estou observando os inimigos com meus binóculos”, escreveu Almasy. “Eles estão rezando”. Depois disso, ele corajosamente esvaziou os tanques de gasolina do inimigo.

Depois de uma jornada difícil, o grupo finalmente chegou à estrada de trem próxima à cidade egípcia de Asyut. Os espiões, Hans Eppler e Peter Stanstede, desceram e continuaram em seu caminho para o Cairo, onde ficaram incógnitos no bairro de prostituição da cidade. Eles esconderam seus transmissores de rádio no bar de um barco sobre o Nilo.

Mas como essa jornada épica teve sucesso? É sabido que Almasy tinha um depósito com combustível, água e comida para a viagem de volta. Ele descreveu o local como uma “profunda caverna numa rocha íngreme, um verdadeiro esconderijo de um ladrão”.

Várias tentativas foram feitas ao longo dos anos para encontrar esse esconderijo e agora uma expedição austríaca finalmente o descobriu no sul do Egito.

Perigosa operação militar
Os austríacos encontraram baterias de carro empoeiradas e câmaras de pneu na caverna, assim como latas de gasolina, garrafas de bebida e “duas latas de carne enlatada do Brasil e uma lata de leite condensado”, disse a arqueóloga Katrhin Kleibl.

Por mais banal que seja o material, ele representa uma das operações militares mais perigosas que aconteceram detrás das linhas britânicas. Almasy foi um brilhante estrategista do deserto, muito embora tenha estado do lado errado durante a guerra.

A missão secreta nunca causou muitos danos. Os agentes alemães transmitiram informações a partir de Cairo durante várias semanas, mas então seu transmissor quebrou. Foi o próprio futuro presidente egípcio, Anwar al-Sadat, que fazia parte do movimento de resistência contra a ocupação britânica na época, que correu para consertar o transmissor.

Mas Sadat logo percebeu que havia algo de estranho em relação à situação. Em suas memórias, ele escreveu que os espiões haviam desmontado deliberadamente o transmissor para que pudessem se divertir, sem interrupções, com “duas prostitutas judias”.

Tradutor: Eloise De Vylder

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