Aumenta a insatisfação diante da impotência do governo em proteger os russos do terrorismo

Matthias Schepp,

Em Moscou (Rússia)

  • Natruskin Alexander/Reuters

    Parentes e amigos de Anna Permyakova, 35, uma das 39 vítimas do ataque terrorista no metrô de Moscou, na Rússia, participam da cerimônia de seu enterro

    Parentes e amigos de Anna Permyakova, 35, uma das 39 vítimas do ataque terrorista no metrô de Moscou, na Rússia, participam da cerimônia de seu enterro

Após os ataques terroristas da semana passada no metrô de Moscou, os russos estão temendo uma nova onda de violência. Muitos sentem que o Kremlin está impotente diante do terrorismo do Cáucaso e que o governo se empenha mais em proteger o poder que detém do que o povo russo.

Em Nazran, a antiga capital da problemática república da Ingushetia, no Cáucaso, um grande mapa organizacional está pendurado em uma parede nas instalações da FSB, a agência russa de inteligência interna. À primeira vista, ele lembra uma árvore genealógica. Na verdade, ele documenta uma luta de vida e morte.

O organograma mostra 50 células islâmicas clandestinas operando apenas na Ingushetia – uma república que não é muito maior do que Luxemburgo. Elas fazem parte de um movimento rebelde que deseja criar um “emirado caucasiano” na região. Os seus ideólogos sonham com um Estado estritamente muçulmano que vá do Mar Negro ao Mar Cáspio – um Waziristão no Cáucaso.

O tamanho das células varia de dois ou três até cerca de 12 membros cada. O documento mostra os nomes, idades, endereços e números telefônicos dos militantes, bem como as suas características físicas, como queimaduras ou ausência de membros. Algumas das citações incluem fotos de passaporte, enquanto outras só contam com uma fotografia fora de foco. Ramificações do organograma indicam parentes e amigos dos militantes. Cruzes identificam combatentes que já foram mortos.

Faz algum tempo que os agentes de inteligência em Nazran têm uma sensação crescente de que “o terrorismo é como um câncer, e que para cada ativista que nós eliminamos, um novo tumor cresce no seu lugar”.

Assoviando em uma floresta escura
Mesmo antes que duas extremistas suicidas, supostamente do Cáucaso, tivessem matado 39 pessoas e ferido mais de 70 no metrô de Moscou no dia 29 de março, já era evidente para qualquer pessoa que estivesse em frente ao mapa do terrorismo da FSB que os anúncios de vitória do governo na luta contra o terrorismo soavam mais como alguém assoviando em uma floresta escura. Faz quase uma década que o Kremlin anunciou a sua “operação de contra-terrorismo” na Tchetchênia, a república vizinha à Ingushetia. E, até outubro de 2007, o homem forte da Rússia e então presidente Vladimir Putin propalava que o terrorismo não tinha a menor chance, que o número de atentados terroristas estava diminuindo e que haviam sido perpetrados apenas 25 ataques terroristas nos oito meses anteriores – um décimo do
número de ataques registrado em 2005.

Mas, no ano passado, o número de atentados disparou para cerca de 800. Segundo o Ministério do Interior da Rússia e o comissariado presidencial para a região do Cáucaso, cerca de 200 insurgentes foram mortos e 600 presos em 2009. E agora o terrorismo atingiu o coração do país, Moscou, mais uma vez, jogando o Kremlin em uma crise de relações públicas.

O “Che Guevara do islamismo”
Será que todas as medidas de segurança implementadas pelo governo nos últimos dez anos não tiveram valor? A polícia e os serviços de inteligência fracassaram de novo? A nova política para o Cáucaso anunciada por Moscou fracassou antes mesmo que o presidente tivesse sido capaz de iniciá-la? E será que a dupla Putin/Medvedev será obrigada a admitir um fracasso completo, após ter prometido várias vezes – e descumprido a promessa – a mesma coisa para este país de 142 milhões de habitantes: estabilidade e segurança?

Após o ataque terrorista, Nikolai Patrushev, o secretário do conselho de segurança da Rússia, anunciou que haveria “retribuição”, e o primeiro-ministro Putin acrescentou que os culpados seriam “liquidados”. O escritor Vladimir Sorokin classificou a resposta de Putin de gesto automático de um líder político tentando adiar o inevitável: a desintegração ainda maior do império russo.

Os recentes assassinatos de líderes extremistas por serviços de inteligência de Moscou parecem ter provocado a mais recente operação terrorista de grande envergadura. Em 2 de março, 70 soldados de elite da FSB cercaram uma casa na aldeia de Ekashevo, na Ingushetia. Um dos terroristas mais procurados da Rússia e 16 dos seus seguidores haviam se entrincheirado dentro da casa: Alexander Tikhomirov, o homem que investigadores de Moscou da área de contra-terrorismo acreditavam ser o responsável pelo atentado a bomba contra o Nevsky Express, em novembro de 2009. A explosão fez com que o trem, que seguia de Moscou para São Petersburgo, descarrilasse, matando 28 passageiros.

Tikhomirov, um nativo da região siberiana de Buryatia, converteu-se ao islamismo aos 15 anos de idade e mudou o seu nome para Said Buryatsky. Os jornais de Moscou descreveram o militante como o “Che Guevara do islamismo”. As forças especiais mataram o líder terrorista e seis dos seus combatentes, e prenderam dez outros.

As “viúvas negras”
Tikhomirov, também conhecido com Buryatsky, pregava em mesquitas, e era o líder da “escola de shahidins”, ou mártires. Oficiais de inteligência acreditam que ele treinou cerca de 30 pessoas para perpetrarem atentados suicidas a bomba. Como muitos dos shahidins são mulheres, as autoridades de segurança de Moscou mantiveram as viúvas dos insurgentes mortos sob vigilância. Segundo as autoridades, 19 dos 41 terroristas que fizeram mais de 900 reféns em um teatro de Moscou em 2002 eram mulheres. Malisha Mutayeva era uma delas.

A história de Malisha ilustra a espiral de violência e vingança que continua tomando conta do Cáucaso, apesar de o Kremlin alegar o contrário.
A casa da família de Malisha Mutayeva fica na aldeia de Assinovskaya, cerca de 30 quilômetros a oeste de Grozny, a capital da Tchetchênia. A residência é uma cabana na qual o reboco está se desfazendo, e não uma daquelas casas imponentes típicas do Cáucaso.

No início da primeira guerra da Tchetchênia, em meados da década passada, a família ainda vivia em Bamut, uma aldeia e reduto de rebeldes nas montanhas. Mas aviões de caça russos destruíram a casa deles, e mais tarde o noivo de Malisha Mutayeva foi morto por forças de Moscou. Malisha, que à época tinha pouco mais de 20 anos de idade, resolveu que jamais se casaria e, mais tarde, juntou-se aos rebeldes.

Em outubro de 2002, recorda-se a mãe de Malisha, a sua filha despediu-se calmamente dela, fingindo que havia arrumado um emprego em uma república vizinha. Em vez disso, ela viajou para Moscou e juntou-se ao grupo terrorista que mais tarde ocuparia o Teatro Dubrovka, onde 134 reféns e terroristas foram mortos quando o exército e unidades policiais de elite invadiram o prédio.

Moscou vingou-se da família da militante. Forças de segurança prenderam a irmã mais nova de Malisha, Luísa, e a levaram embora no meio da noite. Ninguém mais teve notícias de Luísa. Desde 2002, a organização de direitos humanos “Memorial” documentou 1.303 casos de pessoas que foram sequestradas ou mortas na Tchetchênia, presumivelmente por forças especiais tchetchenas e russas.

Novas vítimas e novos perpetradores
Esses casos ilustram como o ciclo da violência no Cáucaso produz constantemente novas vítimas e novos perpetradores.
De fato, na sexta-feira passada, investigadores russos disseram acreditar ter identificado Dzhennet Abdurakhmanova como sendo uma das mulheres-bomba que perpetraram os ataques no metrô de Moscou. Segundo o jornal russo “Kommersant”, Abdurakhmanova era a viúva de 17 anos de idade de Umalat Magomedov. As autoridades acreditam que ele era um dos comandantes de um batalhão rebelde chefiado por Doku Umarov – um jihadista e ex-separatista tchetcheno que se auto-define como o “emir do Emirado do Cáucaso”, e que luta pela criação de um Estado independente baseado no código de leis islâmicas charia. Ele teria assumido responsabilidade pelos ataques de 29 de março.
Enquanto isso, no último domingo, o jornal “Novaya Gazeta” citou um homem do Daguestão, Rasul Magomedev, que teria alegado ter identificado a filha desaparecida de 28 anos de idade, Mariyam Sharipova, nas fotos dos suspeitos de terem cometido os atentados suicidas. Magomedev disse que a sua filha, uma professora primária, havia desaparecido sem deixar traços no dia dos atentados cometidos no metrô de Moscou.

Enquanto o primeiro-ministro russo Vladimir Putin recorreu integralmente ao uso da força para “aniquilar os terroristas na latrina” quando foi presidente, o seu sucessor, Dmitry Medvedev, anunciou uma política “moderna” para o Cáucaso. A princípio, parecia que a abordagem dele romperia o ciclo de violência e vingança. O novo líder do Kremlin enfatizava a necessidade de melhorar o padrão de vida na região pobre a fim de que esta produzisse menos terrorismo.

As plantas delicadas da mudança política voltam a secar
Mas foi só em janeiro que Medvedev nomeou Alexander Khloponin para ser o seu enviado especial à região do Cáucaso. Esse homem de 45 anos de idade não trazia no currículo passagens pela comunidade de inteligência nem pelas forças armadas. Antes de ingressar na política, Khloponin era um dos principais executivos da Rússia, como diretor da maior empresa produtora de níquel do mundo. Em outras palavras, ele é um homem que conhece economia.

Oligarcas também têm sido pressionados para investir na região em crise, especialmente aqueles que fugiram para o exterior devido a uma disputa empresarial e que agora esperam uma passagem de volta para a Rússia. Um deles já aceitou a oferta; ele pretende construir um hotel de luxo na capital tchetchena e transformar a vila de Argun, que fica nas montanhas e é um ex-reduto rebelde, em um resort de saúde.
Com os pedidos contínuos de uma abordagem mais dura por parte de Moscou, parece provável que os atentados contra o metrô farão com que as delicadas plantinhas da mudança política voltem a secar.

O Conselho da Federação da Rússia, que é composto de parlamentares das 83 regiões deste país vasto, já está pedindo a reinstituição da pena de morte, que não é aplicada desde que essa punição foi temporariamente suspensa em 2006. O ministro do Interior, Rashid Nurgaliyev, ordenou às forças de segurança que intensifiquem a proteção de “infraestruturas críticas” como metrôs, usinas de geração de energia elétrica e bases militares. E uma divisão inteira de tropas do Ministério do Interior vêm patrulhando as ruas de Moscou desde os ataques terroristas de 29 de março.

Apesar desses esforços, ataques cuidadosamente planejados voltaram a sacudir o Cáucaso na última quarta-feira, quando dois atentados suicidas a bomba foram perpetrados na cidade de Kizlyar, no Daguestão. Doze pessoas morreram, incluindo o chefe de polícia da cidade. E um ataque suicida em frente à chefatura de polícia, na segunda-feira, em Karabulak, na Ingushetia, matou dois policias e feriu um terceiro.

“Os culpados por essa calamidade são Putin e Medvedev”

“Os serviços de inteligência da Rússia são incapazes de proteger a sociedade”, acusou o jornal diário moscovita “Moskovskiy Komsomolets”. “As autoridades estão tão imersas em corrupção e intrigas que elas não têm mais tempo para fazer o seu trabalho real”.

 

“Esses são o serviço de inteligência e a polícia de vocês”, escreveu o colunista Alexander Minkin em uma carta aberta ao presidente Medvedev e ao primeiro-ministro Putin. “Vocês dois são culpados por essa calamidade. O número de policiais no metrô de Moscou tem aumentado constantemente. Mas eles só abordam pessoas mal vestidas e que não têm fisionomia russa. Eles não estão procurando shahidins, mas sim notas de cem rublos”.

De fato, o inchado aparato policial russo encontra-se mais ou menos impotente.

Só o Ministério do Interior emprega cerca de 1,3 milhão de policiais e burocratas, e calcula-se que o número de espiões e funcionários dos serviços de inteligência chegue a mais de um milhão. Entretanto, os terroristas de Moscou aparentemente recorreram a uma rede criada muito antes dos atentados. As ativistas suicidas do Cáucaso contavam com pessoal de apoio que localizou apartamentos para abrigá-las, obteve explosivos e as ajudou a movimentarem-se em Moscou, uma cidade de 11 milhões de habitantes. As autoridades acreditam que ainda há vários militantes suicidas na cidade.

A resposta automática da liderança do Kremlin – endurecer as leis após cada ataque e recorrer a medidas cada vez mais severas – não criou mais segurança, mas reduziu as liberdades civis.

Insatisfação crescente
Putin usou os atentados a bomba contra vários prédios em Moscou e em duas outras cidades no outono de 1999, que resultaram na morte de 307 pessoas, como desculpa para desfechar a segunda guerra da Tchetchênia. A tragédia de 2001 no Teatro Dubrovka provocou a censura da NTW, a última estação de televisão independente do país. E, após a crise dos reféns da escola de Beslan, em setembro de 2004, Putin aboliu o direito popular de eleição de governadores – para “fortalecer a unidade da nação”.

O Kremlin apertou continuamente os parafusos da segurança, mas sem resultado. A promessa feita por Putin nesta semana de que os terroristas seriam “arrancados dos esgotos” soou vazia. Embora muitos russos ainda apreciem essa linguagem truculenta, a quantidade de cidadãos insatisfeitos aumenta, o que explica o nível de tensão no campo de Putin.

O clima no governo não tem sido muito bom há semanas. Houve passeatas de protesto em mais de 150 cidades russas. E ainda que o número de manifestantes, cerca de 200 mil em todo o país, possa não ser particularmente significante em um país como a Rússia, os apelos para que Putin renuncie são um fato novo. Os manifestantes estão insatisfeitos com o desemprego crescente, os impostos e taxas elevados, a corrupção policial e a arbitrariedade do sistema judicial. Uma petição na Internet intitulada “Putin tem que sair!” já contava com 22.327 assinaturas, incluindo nomes e profissões, na noite da última quarta-feira, apesar de as autoridades terem tentado limitar o acesso ao site.

A difícil situação da segurança proporciona aos elementos do campo de Putin um pretexto para afirmarem que todos os protestos são anti-patrióticos, e ao mesmo prejudica os esforços iniciais pela liberalização por parte de Medvedev.

“São as tentativas de ensombrecer o clima na sociedade que têm provocado acontecimentos trágicos como os atentados no metrô de Moscou”, afirma Irina Yarovaya, parlamentar do Rússia Unida, o partido de Putin. Após as manifestações anti-Putin, o líder parlamentar do Rússia Unida, que lembra cada vez mais o antigo Partido Comunista da União Soviética, sugeriu sinistramente que existe uma organização central “com a tarefa de desestabilizar a situação política”. Estaria ele se referindo ao grupo de modernizadores em volta do presidente?

Um endurecimento das políticas domésticas parece esta sendo planejado. Os serviços de inteligência e a polícia gostarão da mudança, especialmente depois que Medvedev aposentou recentemente vários funcionários antigos e anunciou uma redução drástica do número de funcionários do Ministério do Interior.

Programas de culinária e filmes históricos
Após os atentados da semana passada, o presidente prometeu também destruir os terroristas e disse que a luta contra eles será travada “até o fim”. Ao mesmo tempo, porém, ele reuniu-se com Ella Pamfilova, a diretora do conselho de direitos humanos do país, que tinha acabado de retornar do Cáucaso. Em um discurso televisado, Medvedev falou a respeito de estratégias para melhorar a situação social naquela região. No entanto, a equipe do seu novo enviado ao Cáucaso, Khloponin, não possui sequer escritórios na região.

“A preservação da autoridade dos líderes russos dependerá inteiramente deles e da sua capacidade de finalmente proteger efetivamente os cidadãos sem transformar o país em um campo de concentração”, declarou o respeitável jornal moscovita “Nezavisimaya Gazeta”.
É improvável que o Kremlin tenha verdadeiramente aprendido uma lição com os ataques sangrentos. Estações governamentais de televisão não perderam tempo em comparar os atentados aos ataques perpetrados contra os trens de passageiros em Madri em 2004 e o metrô de Londres em 2005, como se os atentados de Moscou fossem um ato de terrorismo internacional.

De fato, as estações de televisão que têm vínculos com o Kremlin demoraram várias horas para sequer anunciar o que aconteceu no coração da capital russa na última segunda-feira. Quase todas as estações continuaram a transmitir calmamente os seus programas de culinária e filmes históricos.

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