A hesitante mudança de postura de Obama quanto à questão das armas nucleares

Marc Pitzke, em Nova York (EUA)

  • Dominique Faget/AFP - 2.abr.2009

    Os presidentes Barack Obama, dos Estados Unidos, e Dmitri Medvedev (à dir.), da Rússia, durante encontro do G20

    Os presidentes Barack Obama, dos Estados Unidos, e Dmitri Medvedev (à dir.), da Rússia, durante encontro do G20

Com a sua nova doutrina nuclear, Barack Obama deseja pavimentar o caminho rumo a um mundo sem armas nucleares. Pela primeira vez, os Estados Unidos estão abandonando a sua antiga ameaça de responder a perigos convencionais com armas nucleares. Mas em se tratando das ameaças representadas pelo Irã, a Coreia do Norte e terroristas, o presidente não apresentou nenhuma solução nova. 

A “noite de cinema” é uma tradição antiga na Casa Branca. Durante décadas os presidentes dos Estados Unidos trazem convidados exclusivos para a sala de projeção da residência presidencial. Geralmente, o repertório inclui os mais recentes sucessos de bilheteria ou antigos favoritos como “Casablanca” ou “A Ponte sobre o Rio Kwai”.

Mas, nessas ocasiões, o atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, vai além dos filmes tradicionais. Na noite da última terça-feira, por exemplo, ele apresentou uma fita que é um verdadeiro golpe contra o alto astral da plateia: “Nuclear Tipping Point” (algo como “O Ponto da Virada Nuclear”), um documentário sobre o terrorismo nuclear – e o sonho de um mundo sem armas nucleares.

Ele convidou quatro veteranos do aparato de segurança externa dos Estados Unidos: os ex-secretários de Estado Henry Kissinger e George Shultz, o ex-secretário de Defesa Bill Perry e San Nunn, um famoso especialista em armamentos e ex-senador. Isso não foi coincidência: “Nuclear Tipping Point” baseia-se parcialmente em entrevistas com os quatro, que juntos lutam há anos pela eliminação de todas as armas nucleares.

Tampouco houve coincidência quanto ao momento escolhido para a exibição do documentário: na terça-feira, Obama apresentou a nova doutrina nuclear dos Estados Unidos. O documento de 72 páginas, há muito aguardado, representa o primeiro passo rumo à implementação de uma visão drástica sobre a qual Obama falou pela primeira vez um ano atrás, na Ponte Charles, em Praga: “Eu declaro claramente e com convicção o compromisso dos Estados Unidos com a paz e a segurança de um mundo sem armas nucleares”, disse ele no discurso proferido contra um fundo pitoresco.

No entanto, conforme ocorreu em relação a tantas promessas feitas por Obama, a única coisa que resultou disso foi um compromisso – um compromisso que de fato não agrada a ninguém. O lema que o presidente adotou: um pouco de paz. 

Romper com o passado

Mesmo assim, a chamada Revisão de Postura Nuclear (NPR, na sigla em inglês) poderá representar uma ruptura com o passado. Com a sua nova doutrina, Obama está procurando reduzir a ameaça nuclear global limitando de forma enérgica e declarada, pela primeira vez, a prerrogativa norte-americana, que data da Guerra Fria, segundo a qual Washington pode usar armas nucleares contra qualquer país a qualquer momento. A partir de agora, segundo a promessa de Washington, os Estados Unidos não ameaçará mais outros países – pelos menos aqueles que não possuem armas nucleares e que são signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear – com um ataque nuclear.

A nova postura representa uma renúncia da ideia de que o poder de dissuasão das armas nucleares também coibiria a produção de armamentos por parte de oponentes dotados apenas de armas convencionais. “O nosso arsenal nuclear também ajuda a impedir que os inimigos usem armas químicas e biológicas”, disse em outubro de 2008 o então secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, em um discurso no Fundo Carnegie para a Paz Mundial. Na época, ele ainda atuava no governo do antecessor de Obama na Casa Branca, George W. Bush. Agora, porém, os termos são mais estritos: contra ameaças convencionais só poderão ser utilizadas armas convencionais, e o espectro das armas nucleares só pode ser invocado contra uma ameaça nuclear.

Essa ameaça nuclear é limitada a um grupo relativamente pequeno de potências nucleares – muitas das quais são aliadas dos Estados Unidos. Segundo a Federação dos Cientistas Norte-Americanos, fazem parte dessa lista, além dos Estados Unidos, o Reino Unido, a Rússia, a França, a China, a Índia, o Paquistão, a Coreia do Norte e (embora o governo israelense adote uma política de ambiguidade) Israel. 

Obama editou pessoalmente o texto

As reações às mudanças promovidas por Obama no setor de armas nucleares eram previsíveis. Para alguns, a estratégia não é suficientemente abrangente. Paul Ingram, diretor-executivo do Conselho Britânico-Americano de Segurança da Informação, diz que a medida representa “uma medida equilibradora não convincente”, e acrescenta: “Não existe nenhuma indicação real da presença das mudanças profundas de pensamento que se fazem necessárias para que se comece a abrir mão do arsenal nuclear”.

Outros, no entanto, reclamaram de que a política que norteia a medida é muito branda. “O sonho do presidente de uma utopia liberal planetária prejudicará a segurança dos Estados Unidos”, advertiu Peter King, o mais importante parlamentar republicano no Comitê do Congresso de Segurança Interna, em uma entrevista ao jornal “The New York Post”.

Mas essa polarização reflete também o debate interno entre o Pentágono, o Departamento de Estado e a Casa Branca. As discussões foram tão acaloradas que a divulgação da revisão nuclear da Casa Branca foi prorrogada por quatro meses. Para que se chegasse a uma formulação com a qual todos pudessem concordar foram necessárias 102 reuniões. A Casa Branca chegou a consultar o Congresso e os seus aliados estrangeiros. E Obama teria editado o texto pessoalmente em várias ocasiões. Um integrante do governo Obama descreveu o processo como algo que “não terminava nunca”. 

Respondendo aos novos tempos

No entanto, não mudou o fato de que, enquanto existirem armas nucleares, será necessária a existência desse tipo de armamento. É verdade que os Estados Unidos se comprometeram a não fabricar nenhuma nova ogiva nuclear, uma posição que Obama aparentemente impôs contra a vontade do seu secretário da Defesa. Mas os norte-americanos estão fazendo a manutenção do seu arsenal existente e deixando-o pronto para ser usado a qualquer momento, ainda que no futuro eles tenham que pensar mais antes de apertar o botão.

A nova doutrina também leva em consideração o fato de que os tempos mudaram. A Guerra Fria entre as antigas superpotências acabou. As guerras de hoje são muito diferentes, envolvendo protagonistas que não são Estados.

“A maior ameaça à segurança global e dos Estados Unidos não é mais uma guerra nuclear entre nações”, disse Obama, “mas sim o terrorismo nuclear perpetrado por extremistas violentos e a proliferação nuclear em um número cada vez maior de países”.

E nenhum arsenal de ogivas nucleares é capaz de conferir proteção contra terroristas. “Se terroristas puserem as mãos em armas ou materiais nucleares, e nós não soubermos sequer o endereço deles, estaremos vivendo um momento muito perigoso”, adverte o secretário de Estado George Shultz no filme “Nuclear Tipping Point”. “Se pensarmos nas pessoas que estão cometendo ataques suicidas e que podem conseguir uma arma nuclear, veremos que elas, por definição, não podem ser dissuadidas”. 

A nova doutrina encorajará as atividades nucleares do Irã?

Mas a nova doutrina é o anúncio do início daquilo que uma autoridade graduada do sistema de defesa dos Estados Unidos que falou durante a apresentação da estratégia, definiu como “uma estação nuclear movimentada”. Nesta quinta-feira (08/04), Obama retorna a Praga para assinar o novo tratado Start de desarmamento nuclear juntamente com o presidente russo Dmitry Medvedev. Depois, no início da próxima semana, 46 chefes de Estado e de governo reunir-se-ão para um encontro de cúpula sobre segurança nuclear em Washington, a convite de Obama.

A doutrina, é claro, é dirigida a dois países que não participarão do encontro: Irã e Coreia do Norte. Como esses dois Estados violaram vários acordos nucleares, especialmente tratados de não proliferação e resoluções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), os Estados Unidos estão se reservando o direito de serem os primeiros a usar armas nucleares em um conflito com esses países.

No entanto, os especialistas duvidam que a posição dos Estados Unidos fará muita diferença para os regimes de Teerã e Pyongyang, especialmente devido ao fato de que tais garantias pouco significariam no caso de um Armagedom nuclear.

“Ninguém sabe o que nós poderíamos fazer em uma crise ou guerra, portanto, as promessas de não usar primeiro armas nucleares são essencialmente vazias”, escreve o cientista político da Universidade Harvard, Stephen Walt, no website da revista “Foreign Policy”, onde ele zomba do relatório NPR, chamando-o de “Nuclear Public Relations” (“Relações Públicas Nucleares”). “Na melhor das hipóteses, essa nova declaração terá pouco ou nenhum efeito”, diz ele. “Na pior das hipóteses, porém, excluir o Irã desta maneira – o que equivale a dizer que o Irã ainda é um alvo nuclear, mesmo que o país não tenha armas nucleares próprias – só dá aos iranianos incentivos adicionais para procurarem obter armas nucleares”. Afinal, todo país que se sente ameaçado deseja possuir o seu próprio elemento de dissuasão.

Nesse caso, a doutrina de Obama é contraproducente? “O governo pintou um alvo nuclear nas costas do Irã”, escreveu Flynt Leverett, da organização Fundação Nova América, e Hillary Mann Leverett, diretora da empresa de consultoria Energia Estratégica e Análise Global, no seu blog sobre o Irã. 

“Tranquilizando os aliados”

Enquanto isso, os analistas europeus provavelmente criticarão a inexistência, na revisão, de um compromisso de retirada das ogivas nucleares norte-americanas do território dos aliados dos Estados Unidos. “Embora o risco de um ataque nuclear contra membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) seja atualmente o mais reduzido da história, a presença de armas nucleares dos Estados Unidos contribui para a coesão da aliança e tranquiliza os aliados e parceiros que se sentem expostos a ameaças regionais”, diz o texto da revisão.

Essa sentença provavelmente frustrará especialmente o ministro das Relações Exteriores alemão Guido Westerwelle, que recentemente pediu a retirada de todas as armas nucleares norte-americanas da Europa. A doutrina Obama agora insere um obstáculo naquela rota. “Qualquer mudança na postura nuclear da Otan só deve ser implementada após uma revisão rigorosa dentro da aliança, e depois de uma decisão dela”, conclui o artigo.

Assim sendo, a doutrina de Obama não resolve o dilema global a respeito das armas nucleares. E isso é algo que o ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, Colin Powell, que quando era um jovem soldado guardava armas nucleares norte-americanas na Alemanha, sabe muito bem. Na era do terrorismo, Powell diz em “Nuclear Tipping Point”, o filme que Obama exibiu na Casa Branca na terça-feira, as armas nucleares são uma ameaça maior do que nunca. “Elas jamais podem ser usadas”.

Mas isso foi durante a noite de cinema.

Tradutor: UOL

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