"Não há uma geração Bento 16"

  • 07.04.2010 - Pier Paolo Cito/AP

    O papa Bento 16 acena para fiéis na Praça de São Pedro, no Vaticano

    O papa Bento 16 acena para fiéis na Praça de São Pedro, no Vaticano

O papa pode usar o Facebook e o Twitter, mas ele ainda não está tão conectado à juventude católica quanto poderia. “Muitos jovens simplesmente não o compreendem”, argumenta Dirk Tänzler em entrevista à “Spiegel Online”.

Spiegel Online: Sr. Tänzler, quando o papa Bento 16 foi escolhido, havia um entusiasmo considerável em torno dele por parte dos jovens católicos. Isso ficou especialmente aparente no 20º Dia Mundial da Juventude organizado pela Igreja Católica em Colônia, Alemanha, em 2005, onde cerca de um milhão de jovens católicos celebraram a missa com o papa recém-escolhido. O que restou desse entusiasmo?
Dirk Tänzler: O Dia Mundial da Juventude foi um grande evento – mas nunca houve esse tipo de popularidade pessoal que o papa João Paulo segundo tinha. Isso está claro. Porque o papa Bento 16 é uma pessoa totalmente diferente, muito mais reservada.

Spiegel Online: Você estava no 20º Dia Mundial da Juventude? E se estava, você comemorou a escolha de “Benedetto”?
Tänzler: Sim, eu estava lá, mas eu geralmente também tendo a ser reservado.

Spiegel Online: Qual é o seu veredito sobre os cinco anos do papa Bento 16?
Tänzler: Ambivalente. Ele levantou algumas questões importantes, mas com frequência elas foram interpretadas de uma forma completamente diferente. Ele é, acima de tudo, um intelectual e transmite essa imagem para os jovens. É por isso que muitos jovens simplesmente não o compreendem. Nesse sentido, João Paulo 2º era muito mais um “mestre de cerimônias”, que usava palavras simples e celebrava com os jovens. Bento 16 parece mais um professor acadêmico, e este é um mundo que é estranho para muitos jovens.

Spiegel Online: Quais são as questões importantes que o papa Bento 16 levantou?
Tänzler: Elas incluem suas posições em relação a assuntos como a justiça, o clima e a criação. Esses temas são importantes para muitos jovens. Na conferência do clima em Copenhague, por exemplo, ele teve uma contribuição significativa e lembrou os participantes da importância da ação em conjunto. E ele sempre chamou a atenção das pessoas para o fato de que Jesus Cristo é mais importante do que ele ou do que a Igreja. Outro ponto importante foi sua encíclica social na qual ele escreveu sobre a justiça hoje e enfatizou o significado do amor.

Spiegel Online: Recentemente, entretanto, os casos de abuso na igreja foram temas mais sérios do que o amor. E embora o papa tenha enviado uma carta sobre os incidentes de abuso aos católicos irlandeses, ele não comentou sobre as acusações na Alemanha. Isso o incomoda?

Tänzler: Teria sido bom se o Santo Padre tivesse mencionado pessoalmente a situação na Alemanha. Mas ele não o fez. E agora devemos olhar para a frente.

“Não acho que acontecerão grandes reformas”

Spiegel Online: Mas este não foi sempre o problema da base Igreja Católica: as pessoas têm que aceitar tudo, mas nada nunca afeta o papa?
Tänzler:
Não há nada de novo e também não é nada surpreendente numa organização global tão grande. Afinal, nós obviamente não temos o número de telefone do papa. Nós discutimos as coisas com os bispos locais e ocasionalmente também recebemos seu apoio.

Spiegel Online: Suas preocupações chegam até Roma?
Tänzler:
Pessoalmente, tenho certeza de que o Vaticano leva a sério as discussões na Alemanha, e as ideias da Associação Alemã da Juventude Católica (BDKJ). Acredito que a necessidade de reconquistar a credibilidade preocupa o Santo Padre tanto quanto nos preocupa.

Spiegel Online: Também levou muito tempo para que o papa Bento 16 comentasse sobre o caso de Richard Williamson, que negava o Holocausto. Nessa era de comunicação acelerada, será que é apropriado que o pontífice demore dias, ou mesmo semanas, para reagir?
Tänzler: Acredito que a filosofia da igreja busque aquilo que é conclusivo e não apenas a companhia da palavra do Santo Padre. Gostaríamos de ouvir algumas palavras de apoio durante o debate sobre o abuso. Mas isso era uma coisa que não fazia parte do pensamento do Vaticano. Mas a sociedade funciona diferente hoje. Seria bom se alguma coisa mudasse nesse sentido.

Spiegel Online: O caso de Williamson pode ser descrito como o maior erro de Bento 16?
Tänzler: De fato este foi um erro muito grande e ele escreveu sobre isso em sua carta para os bispos. Sua intenção original foi diferente do resultado. Foi um erro de administração e mediação. Assim como em outros assuntos, precisamos de tradutores que perguntem: o que de fato o papa quis dizer com isso? Acreditamos que podemos ajudar nisso e estamos dispostos.

Spiegel Online: O papa tem uma boa ligação com a juventude católica?
Tänzler: Ele se encontra com muitas pessoas inclusive jovens. Achamos bom que o Santo Padre esteja tentando se envolver com os meios de comunicação modernos. Que ele está sendo ousado e usando o Facebook e o YouTube por exemplo.

Spiegel Online: Mas não é interativo, ou seja, você não pode se corresponder com ele lá.
Tänzler: Naturalmente os jovens esperam que a comunicação flua dos dois lados. Mas o que vale a pena observar é que uma instituição de dois mil anos de idade como a igreja está testando esses novos métodos de comunicação, e relativamente cedo. Estas são somente as primeiras tentativas, não se pode esperar muito. A sociedade está se desenvolvendo mais rápido do que nunca, e eu acredito que isso não passará despercebido no Vaticano.

Spiegel Online: Que tipo de papel o papa tem para a juventude alemã?
Tänzler: Acima de tudo, os jovens buscam modelos de comportamento em sua própria região. Num nível fundamental, o Santo Padre certamente entraria nesse quadro. Mas sei que nem todos os jovens católicos veem o papa como um exemplo.

Spiegel Online: Por quê?
Tänzler: A maioria dos jovens tem uma ideia diferente de como devem viver suas vidas do que o que o papa pode imaginar para eles. Não há uma “Geração Bento 16”.

Spiegel Online: Você acha que ainda há uma chance de que aconteçam reformas importantes durante o período do papa Bento 16?
Tänzler: Não acho que acontecerão grandes reformas. Mas ele tem algumas questões que lhe são caras, como a unidade dentro da igreja. Ele parece sofrer genuinamente com a divisão. Acredito que ele está estabelecendo silenciosamente um curso de ação que nos levará à união com, por exemplo, a Igreja Ortodoxa.

Spiegel Online: Quais seriam seus desejos num encontro face a face com o papa?
Tänzler: Eu falaria a ele sobre a conexão cada vez mais forte entre os fieis da igreja e a democracia dentro dela. Eu tentaria convencê-lo persuasivamente de que a igreja precisa de um sistema sinodal (nota do editor: um sistema que utilize um conselho da igreja) assim como um sistema hierárquico. Para que ele seja sustentável e confiável, e continue assim.

Spiegel Online: Você às vezes deseja que o papa atual tivesse mais habilidade com mídia, como o papa anterior?
Tänzler: Pessoalmente eu gosto da abordagem de Bento 16. Mas acho que muitos jovens achariam mais atraente se houvesse alguém com quem eles pudessem celebrar.

Spigel Online: Você tem algumas ideias para o papa “ideal”?
Tänzler: Talvez fosse bom ter um papa que tivesse trabalhado em algum lugar pobre da América do Sul, ou em outra região afetada pela pobreza. Essa pessoa teria uma visão de mundo completamente diferente de alguém que já estava na posição de bispo há anos.

Spiegel Online: Levando em conta os acontecimentos das últimas semanas, você chegou a considerar deixar a igreja?
Tänzler: Eu nunca nem considerei esta ideia porque estou convencido de que a igreja e a fé são boas para a sociedade. E porque as pessoas precisam mudar a igreja e a desenvolver. E você só pode fazer isso a partir de dentro.

Tradutor: Eloise De Vylder

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