Obama luta por planos de paz ambiciosos

Gregor Peter Schmitz,

Em Washington, D.C. (EUA)

  • Dmitry Astakhov/EFE

    O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, cumprimenta o presidente russo, Dmitry Medvedev, no início da cúpula de segurança nuclear que termina nesta terça-feira (13), em Washington (EUA)

    O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, cumprimenta o presidente russo, Dmitry Medvedev, no início da cúpula de segurança nuclear que termina nesta terça-feira (13), em Washington (EUA)

O presidente Obama atraiu líderes de 47 países para participarem de um encontro de cúpula de dois dias sobre questões de segurança nuclear. Porém, o plano ambicioso do presidente para manter as armas nucleares fora do alcance de determinados indivíduos e para retira-las de outros não conquistou a todos – incluindo membros do próprio governo norte-americano.

Presidentes dos Estados Unidos são capazes de desenvolver planos mais facilmente do que outros políticos. Mas transformar esses planos em realidade é tão difícil para o homem mais poderoso do mundo quanto para os seus colegas menos influentes. Os assessores de Barack Obama aprenderam essa lição mais uma vez em uma entrevista coletiva à imprensa que antecedeu o Encontro de Segurança Nuclear, para o qual Obama convidou líderes de 46 países, e que ocorre em Washington nesta segunda e terça-feira.

Os assessores se empenharam em divulgar a visão resplandecente de Obama de um mundo sem armas nucleares, ou sem o roubo dessas armas, e de um futuro mais pacífico para toda a humanidade. O presidente chegou a aparecer para fazer uma declaração própria: “Nós sabemos que organizações como a Al Qaeda estão no processo de tentar obter uma arma nuclear”, alertou Obama. “Se eles conseguirem, isso representará a maior ameaça à segurança dos Estados Unidos e uma mudança do cenário de segurança deste país e de todo o mundo”.

Mesmo assim, jornalistas que participaram da conferência estiveram menos focados no terrorismo nuclear do que em várias outras questões menores vinculadas à reunião. Por exemplo, como o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, decidiu não comparecer à conferência, supostamente com o objetivo de evitar ter que responder a indagações sobre as armas nucleares israelenses, os repórteres quiseram saber o que esse fato representaria para o processo de paz do Oriente Médio. Eles também manifestaram curiosidade sobre a possibilidade de a presença do presidente chinês Hu Jintao vir a ter algum efeito sobre o atual atrito entre Pequim e Washington quanto à valorização de moeda. E eles também perguntaram se Obama prestaria mais atenção na deterioração das situações políticas na Nigéria e no Quirguistão.

É isso o que ocorre com tais visões: elas começam a ficar nebulosas no que se refere aos detalhes mais práticos do dia a dia – até mesmo em se tratando de presidentes norte-americanos. Mas o Encontro de Segurança Nuclear de Obama, uma espécie de reunião do G-20 hipertrofiada, é histórico até mesmo segundo os padrões de Washington. Nunca antes a capital norte-americana sediou um encontro tão grande de líderes mundiais. Comparações já estão sendo feitas entre essa reunião e a conferência realizada em São Francisco em 1945, que levou à criação das Nações Unidas.

De forma similar, o nível de consenso que deverá haver nesse encontro parece ser tão forte quanto foi o daquela época. “A maioria dos países do mundo, com a exceção da Coreia do Norte, tem interesse em limitar a ameaça reapresentada por iniciativas de contrabando nuclear”, afirmou aos jornalistas Steven Pifer, especialista em controle de armamentos da Brookings Institution, com sede em Washington.

Eliminando o risco do terrorismo nuclear

Juntamente com a proteção dos arsenais nucleares existentes, o principal tópico na agenda da reunião é o controle dos suprimentos de plutônio e de urânio altamente enriquecido em todo o mundo. Conforme disse aos repórteres na semana passada Gary Samore, assessor de Obama sobre limitação da disseminação de armas nucleares: “Esses são os dois materiais que podem ser utilizados para a fabricação de explosivos nucleares. E se formos capazes de controlar esses materiais e negá-los a entidades não estatais, teremos essencialmente acabado com o risco de terrorismo nuclear”.

Os especialistas calculam que são necessários 25 quilogramas de urânio enriquecido para produzir uma pequena bomba nuclear. Mas 1,6 milhões de quilogramas desse material, bem como cerca de 500 mil quilogramas de plutônio, estão espalhados por 40 países em todo o mundo. Para fazer com que os países que não têm armas nucleares reduzam as suas ambições de adquiri-las, países com potencial nuclear bélico têm fornecido grande parte desse material para esses Estados, com fins civis. A organização não governamental Grupo de Trabalho de Materiais Físseis calcula que esse estoque de urânio enriquecido e plutônio seja suficiente para a fabricação de 120 mil bombas nucleares. Especialistas nucleares, como Graham Allison, da Universidade Harvard, chegam até a advertir que uma explosão nuclear em uma cidade norte-americana é mais do que provável até 2014.

Conforme anunciou na sua campanha eleitoral, Obama quer o controle do material perigoso em todo o mundo em um período de quatro anos. Esse desejo harmoniza-se com a sua visão de um mundo sem armas nucleares, uma visão que ele articulou pela primeira vez em Praga, em 2009.

Na semana passada, Obama e o presidente russo Dmitry Medvedev assinaram um tratado de desarmamento naquela cidade, que tem como objetivo reduzir em um terço os arsenais nucleares norte-americano e russo. Em uma revisão da estratégia de armas nucleares dos Estados Unidos anterior à reunião, Obama descartou um primeiro ataque nuclear contra qualquer país que acate às condições expressas no Tratado de Não Proliferação Nuclear.

Exercendo pressão nos bastidores

Até mesmo Obama admitiria que não viverá para ver a sua visão tornar-se realidade. E, apesar da sua promessa de criar um “plano concreto” durante a reunião de cúpula desta semana em Washington, ninguém está esperando que ela resulte em qualquer decisão altamente significativa.

Da mesma forma, discussões a respeito de como lidar com as ambições nucleares do Irã também exigem muito mais tempo do que essa conferência tem a oferecer. Não obstante, até junho, Obama ainda espera que a comunidade global implemente sanções mais duras contra o regime em Teerã. Com essa finalidade, o presidente está usando a reunião como uma oportunidade de manter conversações individuais com líderes mundiais, como a chanceler alemã Angela Merkel. Mas tempo é um fator fundamental: conforme adverte o influente senador Joe Lieberman, se houver um ataque militar contra o Irã ou se aquele país obtiver armas nucleares, isso poderia neutralizar completamente os esforços de Obama para o desarmamento nuclear.

E as opiniões a respeito dos perigos do contrabando nuclear também divergem bastante em todo o mundo. Mas não há dúvida de que algum progresso foi feito. Quando Obama viajou à Rússia, à Ucrânia e ao Azerbaijão com um jovem senador em 2005, ele ficou chocado com a notória falta de segurança presenciada nas instalações de armas nucleares. Desde então, os silos nos ex-países soviéticos tiveram a segurança consideravelmente reforçada. Os Estados Unidos também fizeram investimentos maciços no sentido de ajudar que os seus aliados, como o Paquistão, implementem melhores medidas de segurança para os seus arsenais. E equipes especiais norte-americanas tem fiscalizado o urânio e o plutônio nas instalações nucleares civis de outros países há anos.

“Coisa de filmes de Hollywood”

Apesar dessas preocupações, muitos países ainda não levam particularmente a sério a ameaça do contrabando nuclear. Conforme disse Gregory Schulte, ex-embaixador dos Estados Unidos na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), com sede em Viena: “Muitos países do Oriente Médio não enxergam essa ameaça, e consideram a obsessão norte-americana uma 'coisa de filmes de Hollywood'”.

Até mesmo a visão ampla de Obama de um mundo sem armas nucleares é recebida com ceticismo em várias regiões do mundo. Afinal, dizem os céticos, mesmo com as recentes reduções que foram anunciadas, a grande maioria das armas nucleares do mundo ainda estará localizada nos Estados Unidos e na Rússia. E esses são também os países que tentaram durante década decidir quem teria ou não permissão para possuir armas nucleares.

Além do mais, os candidatos a potência nuclear podem constatar o quanto é efetivo possuir uma arma nuclear. O mundo só leva a Coreia do Norte a sério por causa da sua bomba, argumentam os norte-coreanos, enquanto que o Iraque certamente não teria sido atacado caso houvesse prova concreta de que o país já possuía armas nucleares. Quando um regime como o Irã ou a Coreia do Norte tenta garantir a sua própria sobrevivência, a aquisição de uma bomba nuclear ainda parece ser a melhor estratégia a seguir.

Palavras duras de Sarah Palin

Pouca gente é capaz de dizer qual é de fato o nível de apoio ao plano de Obama nos Estados Unidos. De fato, o ceticismo quanto à sua visão de um mundo sem bombas nucleares pode ser presenciado dentro dos seus próprios círculos internos de poder, e o debate interno sobre a nova estratégia de armas nucleares dos Estados Unidos foi tão intenso que o anúncio dela foi prorrogado durante meses.

Da mesma forma, não se sabe se o Senado dos Estados Unidos ratificará o tratado de desarmamento que Obama firmou recentemente com a Rússia. E, independentemente do quanto Obama lutar por isso, é quase certo que o Senado não aprovará o Tratado Abrangente de Proibição de Testes Nucleares. Lideranças republicanas já anunciaram a sua oposição ao tratado por acreditarem que ele ameaçaria a segurança dos Estados Unidos.

A ex-candidata republicana à vice-presidência Sarah Palin chegou a fazer ironia, afirmando que a nova política nuclear de Obama lembra a ela uma criança em um playground que convida outras a espancá-la ao dizer: “Me dê socos no rosto, e eu não retaliarei”.

Obama, que geralmente despreza tais críticas, contra-atacou em um tom atipicamente duro, afirmando: “Da última vez que eu dei uma olhada, Sarah Palin não era exatamente uma especialista em questões nucleares”.

Barack Obama pode ser um sonhador do desarmamento, mas ele ainda entende a noção de retaliação maciça.

Tradutor: UOL

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