"Um mundo com 25 potências nucleares seria altamente perigoso", diz cientista político alemão

Gregor Peter Schmitz

Em Washington

  • Doug Mills/The New York Times

    Chefes de Estado de 47 nações posam para foto da Cúpula de Segurança Nuclear que terminou nesta terça-feira (13) em Washington, nos EUA

    Chefes de Estado de 47 nações posam para foto da Cúpula de Segurança Nuclear que terminou nesta terça-feira (13) em Washington, nos EUA

O presidente dos EUA, Barack Obama, anfitrião de uma reunião de cúpula em segurança nuclear na terça-feira (23/4), quer um mundo sem armas atômicas, mas muitos especialistas temem que o mais provável seja maior proliferação no futuro próximo. O cientista político alemão Josef Janning fala ao Spiegel Online sobre os perigos de um mundo com muitas potências nucleares. 

Pergunta: Especialistas advertem que o mundo poderá ter de 20 a 25 potências atômicas em um futuro próximo. Como isso poderia acontecer? 

Josef Janning: O conhecimento nuclear, a tecnologia nuclear e os sistemas correspondentes de lançamento estão mais disponíveis internacionalmente do que nunca. Isso favorece as ambições nucleares dos países que veem sua segurança em risco e que têm ambições de se tornarem potências regionais. Se conseguirem armas atômicas, isso pode gerar uma reação em cadeia entre seus vizinhos, que se sentiriam ameaçados por essas armas. Por exemplo, se o Irã tiver uma bomba atômica, os Estados árabes vão pensar em desenvolver uma “bomba árabe”, já que, neste cenário, os principais agentes não árabes na região –Israel, Irã e os EUA- teriam armas nucleares. Grandes países como Egito ou Arábia Saudita talvez queiram entrar para o clube. 

Pergunta: Por que isso seria tão perigoso? 

Janning: Quando as superpotências altamente armadas EUA e URSS se confrontaram durante a Guerra Fria, o conflito foi perigoso, mas a situação era relativamente clara e administrável. Por isso a tensão entre os dois poderes não levou a um inferno atômico. Mesmo assim, os dois lados chegaram à beira da guerra nuclear antes de compreenderem como são complexas as regras que governam a dissuasão. Em um mundo com mais de 20 potências atômicas, seria muito mais difícil desatar conflitos. Seria um mundo imensamente perigoso. 

Pergunta: Os mecanismos de dissuasão tradicionais não funcionam mais neste caso? 

Janning: Eles ainda funcionariam para as potências nucleares “antigas”. Esses países continuam capazes de atingir qualquer ponto da Terra com armas nucleares e destruírem toda a vida ali. Este não é, contudo, o caso das potências nucleares “novas”. Elas só têm como ameaçar um atacante com um ataque nuclear retaliatório cujo efeito não é inteiramente previsível. Isso em si provavelmente afetaria negativamente a chamada “dissuasão estendida” das atuais potências nucleares. (Nota do editor: sob a dissuasão estendida, um Estado ameaça de retaliação nuclear no evento de um ataque nuclear sobre seus aliados, por exemplo, outros membros da Otan.) Em outras palavras, os aliados dos EUA não podem mais estar certos de que a garantia de segurança dos EUA oferece a eles proteção adequada contra um ataque nuclear por terceiros. Washington poderia, afinal, decidir que o custo da intervenção sob essas condições é alto demais. 

Pergunta: Nessa situação, em quanto aumentaria o risco de um ataque nuclear? 

Janning: O risco aumentaria, mas não é possível calcular precisamente em quanto. Medidas preventivas, tais como o chamado ataque de decapitação, poderiam causar repercussões que são difíceis de prever. É igualmente difícil de prever como reagiriam os países adversamente afetados por conflitos nucleares nos quais não estão diretamente envolvidos. 

Pergunta: O perigo de armas nucleares caírem nas mãos erradas aumentaria? 

Janning: Certamente. Quando um regime instável ou repressor consegue acesso a tal tecnologia, então as armas nucleares já estão em mãos erradas. No longo prazo, parece quase inevitável que essas armas então cairiam nas mãos de grupos terroristas ou insurgentes. 

Pergunta: O senhor acha que as armas nucleares são perigosas demais e devem ser inteiramente eliminadas? 

Janning: Se fosse possível abolir completamente a tecnologia nuclear, isso certamente beneficiaria a humanidade. Provavelmente não significaria, todavia, o fim da guerra e do uso de armas de destruição em massa. 

Pergunta: Mas o quão realista são os planos de abolição? Afinal, armas nucleares são muito eficazes. O Iraque provavelmente não teria sido atacado se não tivesse armas atômicas. A Coreia do Norte se tornou um importante agente internacional por ter a bomba. O mesmo se aplica ao Paquistão e talvez também ao Irã, em breve. Como esses países podem ser persuadidos a desistirem de suas armas? 

Janning: Como dissuasão, a posse de armas nucleares certamente é eficaz. Mas esse escudo protetor tem furos. Se países como a Coreia do Norte só podem responder a um ataque convencional limitado jogando mísseis nucleares contra alvos na terra do inimigo, então as armas nucleares perdem parte de sua eficácia, pois seu uso significaria responder a um conflito regional limitado com a ameaça de total destruição mútua. Mas é verdade que se os governos, especialmente dos regimes politicamente isolados, acreditarem que seus interesses de segurança estão em risco, essa meta de renúncia voluntária de tecnologia militar nuclear continuará virtualmente inatingível. Os efeitos das sanções do Irã e Coreia do Norte até agora mostraram que o melhor que pode ser alcançado é apenas adiar ou diminuir os programas de armas. 

Pergunta: Os críticos alegam que o pedido de Obama por um mundo livre de armas nucleares é apenas uma jogada comercial. O governo norte-americano nunca pensaria em seriamente desistir de todas suas armas. O que o senhor pensa disso? 

Janning: Não posso imaginar que qualquer governo norte-americano abandonará as armas nucleares enquanto houver alguém no mundo com tais armas. Durante os anos de Bush, os EUA demonstraram, com o acordo nuclear Índia-EUA, que priorizam a expansão de suas próprias opções no equilíbrio de novos poderes sobre a ideia da não proliferação. Portanto, a visão de Obama de um mundo livre de armas atômicas é realmente apenas uma visão. Se ele tiver sucesso em eliminar de forma transparente e segura, junto com os parceiros russos, uma parte significativa dos arsenais excessivos da Guerra Fria, isso já será um avanço.

Tradutor: Deborah Weinberg

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