Volterra, na Itália, tenta lucrar com fama repentina através da saga "Crepúsculo"

Fiona Ehlers,

Em Volterra (Itália)

  • Divulgação

    Robert Pattinson e Kristen Stewart nos papéis de Edward e Bella em "Crepúsculo - Lua Nova"

    Robert Pattinson e Kristen Stewart nos papéis de Edward e Bella em "Crepúsculo - Lua Nova"

A saga “Twilight” (“Crepúsculo”), uma série de livros best-sellers de histórias sobre vampiros, atraiu dezenas de milhares de fãs do gênero, em sua maioria turistas adolescentes do sexo feminino de todo o mundo, que convergem para a pequena cidade italiana de Volterra. Em vez de simplesmente se ajustar à forma como é descrita nos livros, Volterra encontrou um equilíbrio entre manter-se fiel a si própria e lucrar com a sua fama recém-descoberta.

Marco Buselli está de pé nos degraus que conduzem ao topo do campanário de Volterra. Lá de cima, ele pode ver as montanhas cobertas de neblina que envolvem a cidade, a antiga muralha da cidade etrusca e, ainda mais perto, um emaranhando de ruelas.

Aos 35 anos de idade, Buselli é jovem para ser prefeito. Mas às vezes ele é tomado por um desejo intenso de experimentar esta cidade como ela era na Idade Média – quando poucos forasteiros a visitavam. Naquela época, o lugar parecia ser quase inatingível, sepultado entre as montanhas e oculto do resto do mundo.

Buselli gosta de subir até o alto da torre que paira sobre a praça central. Ela faz parte do Palazzo dei Priori, que abriga o seu gabinete. Aqui, ele encontra a paz e a tranquilidade de que necessita para perceber como a sua cidade é capaz de se conectar com o resto do mundo, mas, mesmo assim, permanecer fiel a si própria.

Assim como os prefeitos de várias outras cidades italianas, Buselli está preocupado com a capitulação diante dos interesses comerciais. Ele não quer ver em Volterra lojas de quinquilharias como aquelas de Veneza, e tampouco deseja uma reforma como a que foi feita na cidade medieval toscana de San Gimignano.

Ele quer que Volterra permaneça autêntica, uma cidade real, em vez de um cenário de cinema.

E as preocupações de Buselli são justificadas: há um ano fãs de vampiros vindos de todo o mundo começaram a ocupar Volterra. O motivo para essa inundação de visitantes é a escritora norte-americana Stephenie Meyer e os best—sellers na na sua saga “Twilight”, que já venderam 100 milhões de cópias no mundo inteiro. Volterra é a cidade antiga habitada pela elite dos vampiros fictícios de Meyer. 

Vampiromania

Na praça lá embaixo está uma guia turística cercado de adolescentes. Dika Boelen mora em Volterra há 25 anos. No passado, essa holandesa de 59 anos de idade foi guia de professores alemães de ideologia de esquerda que ficavam em fazendas, e não em hotéis, liam o poeta comunista Pier Paolo Pasolini e conversavam sobre a fabricação ecologicamente correta de vinho.

Entretanto, atualmente Boelen tem que responder a perguntas diferentes como, por exemplo, por que a pele dos vampiros é tão pálida. A maioria dos seus clientes atuais consiste de garotas de 15 anos de idade da Europa e outros continentes, que são escoltadas pelos seus pais. Como Volterra não possui estação de trem, elas vêm de ônibus da vizinha Florença ou de Siena e escrevem “Edward Forever!” nas paredes, rindo alegremente.

Elas se referem, é claro, a Edward Cullen, o arrojado herói vampiro dos livros da série “Twilight” - interpretado nos filmes pelo galã norte-americano Robert Pattinson –, que disparou corações no mundo inteiro, em países como Indonésia, Coreia do Sul, Rússia, Noruega e Tailândia.

Conforme Boelen explica às suas clientes, Meyer nunca visitou Volterra pessoalmente antes de escrever o seu primeiro livro. Quando escrevia “New Moon” (“Lua Nova”), o segundo livro da série, Meyer precisou encontrar uma cidade para um clã de vampiros chamado Volturi. Quando leu a respeito de Volterra na Internet e percebeu que os nomes eram bem similares, ela decidiu transformar a cidade na terra do clã. Boelen acrescenta que poderia ter escolhido uma outra cidade histórica, como Viterbo ou Vicenza.

Naquela livro, o vampiro Edward acredita que Bella, a sua namorada e a heroína da série, morreu. Ele vai a Volterra para morrer, enfurecendo o clã Volturi ao meio-dia e incitando-o a matá-lo. 

Fornecendo mais do que vampiros aos visitantes

Buselli admite que a cidade não lidou bem com as suas primeiras interações com esse novo mundo de fãs de vampiros. Naquela época, muitos moradores locais reclamavam do fato de a cidade estar se transformando em uma Disneylândia – e também da quantidade extra de pizzarias e campings que poderia resultar dessa fama. “Nós lutamos contra isso durante meses”, conta Buselli. Para os moradores de Volterra, Montepulciano, uma outra cidade medieval nas montanhas locais, seria uma escolha melhor. As autoridades de lá procuraram a companhia que fazia os filmes a a acabaram convencendo a optar por Montepulciano – em vez de Volterra – como cenário para o filme “New Moon”.

Mesmo assim, Buselli, um comitê organizado às pressas e outros moradores locais elaboraram um plano engenhoso que possibilitaria que eles se beneficiassem da agitação em torno de “Crepúsculo”, sem que isso prejudicasse a cidade. Guias turísticos mostravam os portões pelos quais Bella passaria e ruelas em que se desenrolariam acontecimentos dramáticos envolvendo o casal da série.

Atualmente, às sextas-feiras e aos domingos, os guias oferecem um passeio “New Moon”, que inclui um final sangrento em uma cadeia, com a sua própria companhia premiada de atores presidiários. Conforme explica Boelen: “Os nossos visitantes querem vampiros, mas nós fornecemos a eles Volterra. Esse é o nosso truque. Nós mostramos a eles o nosso anfiteatro romano, as sepulturas etruscas e o palácio renascentista – e talvez algo disso tudo fique permanentemente com eles”.

Os passeios foram vendidos durante meses e, em 2009, as pousadas da cidade receberam 50 mil ocupantes extras. “Graça a 'Twilight', nós não sentimos os efeitos da crise financeira”, diz Buselli. E a cidade está esperando o próximo ataque de fãs de vampiros em julho, quando o terceiro filme da série “Crepúsculo” chegará aos cinemas. 

Uma mensagem popular de abstinência

Após o pôs do sol, Boelen leva os visitantes a uma masmorra, que é na verdade um pub irlandês chamado “Quo Vadis”. Lá, presidiários que pertencem ao grupo teatral usam capuzes enquanto servem vinho tinto que eles chamam de “coquetéis sangrentos”. Estudantes australianas gritam enquanto uma mãe alemã olha com desaprovação para elas e as suas filhas dão grandes sorrisos. Duas amigas de 17 anos de idade da cidade de Trieste, no noroeste da Itália, dizem ter lido o livro dezenas de vezes, e afirmam que, para elas, a obra é mais significativa do que a Bíblia.

Na opinião delas, a mensagem da autora para garotas de todo o mundo é: não se entreguem ao primeiro cara que aparecer; esperem pelo sujeito certo. “Se nós tivéssemos lido o livro antes, poderíamos ter nos poupado de alguns problemas com os garotos”, diz uma delas com franqueza. De fato, Meyer está tornando a abstinência sexual atraente para mulheres jovens de várias culturas, sejam elas cristãs, muçulmanas ou budistas.

Boelen acha as fãs de “Crepúsculo” incrivelmente virtuosas e os livros melodramáticos – uma imitação pobre de “Romeu e Julieta” escrita por uma mórmon que se opõe ao sexo antes do casamento. “Toda geração luta contra os ideais dos seus pais”, afirma Boelen. “É assim que as coisas são”.

E, ao final do passeio, Boelen conduz o grupo de garotas até uma praça próxima aos portões da cidade. Aqui, ela pede às adolescentes que sintam a atmosfera e procurem ter uma ideia real da essência desta cidade histórica. “Vampiros não têm alma”, observa Boelen. “Mas Volterra tem”.

Tradutor: UOL

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