Como a Alemanha contribuiu para o agravamento da crise grega

Gustav A. Horn

  • ALINA NOVOPASHINA/EFE

    O primeiro ministro grego, Yorgos Papandreu, e a chanceler alemã, Angela Merkel, após encontro para discutir a situação financeira grega

    O primeiro ministro grego, Yorgos Papandreu, e a chanceler alemã, Angela Merkel, após encontro para discutir a situação financeira grega

Os gregos são basicamente os responsáveis pelos seus problemas atuais. Mas o governo alemão fez com que a situação da Grécia piorasse com os seus sermões e a relutância em fornecer assistência a Atenas. A chanceler Angela Merkel é a principal responsável pelo fato de que agora os contribuintes alemães sofrerão com isso. 

“Tudo que tiver uma possibilidade de dar errado, dará errado”. Essa declaração sábia, conhecida como Lei de Murphy, aplica-se nos dias de hoje extraordinariamente bem à política econômica da zona do euro.

De um lado estão os gregos, que sem dúvida alguma não controlam as suas estatísticas financeiras e que apresentam seguidamente relatórios falsos a respeito do déficit orçamentário do país. Do outro lado estão os alemães, que adoram atrapalhar uma resposta rápida e clara para o enfrentamento da crise grega – e que, neste processo, encarecem tremendamente qualquer solução.

Ao mesmo tempo, é surpreendente constatar quantos membros dos partidos que integram a coalizão governamental da Alemanha estão fornecendo conselhos aos gregos, desde reduções drásticas de pagamentos até uma declaração imediata de insolvência e uma retirada rápida da zona do euro. Esses observadores baseiam o seu radicalismo verbal no nobre argumento econômico de que a Grécia precisa tornar-se novamente “apta para os mercados financeiros”. Um outro argumento, menos sofisticado, é que a grande maioria dos alemães não está disposta, após passar anos limitando o próprio consumo, a fazer sacrifícios financeiros para ajudar a Grécia.

Tanto os erros de cálculo da Grécia quanto a relutância do governo alemão em ajudar Atenas não passam de convites aos especuladores para que estes apostem na derrocada do país do sul da Europa. Isso também explica por que os prêmios de riscos dos títulos do governo grego pagam juros para o refinanciamento da sua dívida que são tão elevados a ponto de ele não ser mais capaz de funcionar sem assistência estrangeira, apesar do recente aumento das taxas de juros e das reduções maciças de salários. 

O papel das agências de classificação de riscos

No decorrer desse processo, e como resultado da assistência ativa do governo alemão, o que aconteceu foi exatamente aquilo que deveria, e poderia, ter sido evitado – ou seja, a Grécia foi de fato obrigada a solicitar auxílio financeiro a outros países europeus.

O problema para o governo alemão é que os seus argumentos não são convincentes. Isso aplica-se antes de mais nada á referência aos mercados financeiros, um argumento que é proferido em tom de total convicção, ao se afirmar que os prêmios sobre riscos presenciados na Grécia representam precisamente riscos reais. É notável que, depois de tudo o que ocorreu nos últimos dois anos, políticos experientes ainda acreditam que os mercados financeiros produzem informações racionais e confiáveis.

Todos sabem que os especuladores não têm acesso a mais informações sobre a Grécia do que os especialistas econômicos dos governos europeus. No entanto, existem muitos protagonistas do mercado, como os fundos de hedge, que obtêm os seus lucros a partir de acontecimentos incertos. Quanto mais caótica estiver a situação, mais alegres ficarão esses protagonistas. A maior inimiga desses indivíduos é a transparência política, e é por isso que eles adoram quando os políticos adotam táticas destinadas a semear o medo. No caso da Grécia, essa disseminação do medo foi muito bem sucedida, conforme demonstram tão bem os altíssimos prêmios de riscos.

O papel desempenhado pelas agências de classificação de riscos também não pode ser esquecido. Foi o fato de elas rebaixarem a classificação da Grécia que desencadeou ondas de especulação. Isso ocorreu em parte porque as agências de classificação, segundo as regulações atuais, e apesar do seu fracasso total durante a crise financeira, ainda possuem bastante poder sobre os mercados – um poder que foi concedido a elas pelos políticos. Cada rebaixamento da classificação da Grécia obriga os bancos a venderem títulos do governo grego. Isso, por sua vez, acelera o declínio do valor desses títulos, resultando em taxas de juros ainda mais elevadas.

O argumento populista de que a maioria da população opõe-se ao apoio financeiro à Grécia também é atribuído ao governo alemão – porque a chanceler Angela Merkel bloqueou a única rota de sucesso que teria impedido o pagamento de bilhões de euros em auxílio àquele país. 

Impedindo a especulação

Essa rota seria mais ou menos assim: no início – em outras palavras, semanas atrás –, a União Europeia teria explicado de forma verossímil e clara que assumiria uma responsabilidade compartilhada por um membro do mercado comum interno. Isso teria incluído a disposição, sob certas condições e em uma emergência, de garantir os pagamentos da dívida da Grécia.

Essa declaração teria tornada a especulação mais difícil, e poderia também ter prevenido o colapso associado do valor dos títulos gregos. Isso teria também aumentado as chances de que a Grécia fosse capaz de salvar a si própria. E teria economizado muito dinheiro dos contribuintes alemães. Credibilidade e clareza geram dividendos.

Essa, infelizmente, não é a situação que presenciamos no momento. A submissão do governo alemão aos mercados financeiros e a sua covardia perante a imprensa tabloide (o jornal diário de circulação maciça “Bild”, por exemplo, publicou o seguinte título na sua primeira página: “Ei Gregos, Vocês Não Receberão Nada de Nós”) poderão custar muito caro para os contribuintes. Agora esse auxílio financeiro terá realmente que ser pago. E o barulho que o governo alemão continua fazendo em nada mudará isso.

A única coisa que se obteve foi que os especuladores estão sentido-se ainda mais encorajados a agir. No pior cenário possível, outros países como Espanha, Portugal, Irlanda e Itália afundarão na espiral da especulação. Isso seria o fim da união monetária – e um outro bom exemplo da Lei de Murphy em ação.

Tradutor: UOL

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