Gregos se rebelam contra medidas de austeridade

Bjorn Hengst

Em Atenas (Grécia)

A burocracia inchada da Grécia está sofrendo os piores golpes enquanto o país luta para reparar sua economia em apuros. Os servidores civis estão respondendo com grandes greves. Os críticos, porém, dizem que o setor público do país é ineficiente, caro e desesperadoramente inflado.

Kostas Papantoniou não é um revolucionário, mas sua determinação para lutar contra o governo grego cresceu consideravelmente nas últimas semanas. Papantoniou tem 59 anose é vice-diretor do sindicato de servidores públicos Adedy, onde tem um retrato de Che Guevara na parede perto de sua escrivaninha com o famoso lema: “Hasta La Victoria siempre” (até a vitória sempre).

Os membros do sindicato de Papantoniou estão revoltados. Quando o governo grego apresentou seu amplo programa de economias no domingo, os cortes no setor estatal inchado estavam no alto da lista. Os benefícios dos servidores, que já eram alvo de um plano anterior de corte de 12%, serão cortados em mais 8%. Os servidores também vão perder pagamentos especiais nos feriados, que podem levar a perdas de mais de 3.000 euros por ano (em torno de R$ 7.000). Além disso, haverá um congelamento nas contratações por três anos.

Os servidores públicos na Grécia são considerados um grupo privilegiado. Eles ganham em média mais do que o setor privado e suas pensões são generosas.

“Enojados”

Papantoniou está furioso com os cortes. “Estamos enojados com essas medidas”, diz ele, acrescentando que é hora de “esclarecer alguns mitos”. O sindicalista, que é professor de economia, pega uma folha de papel em uma pilha de arquivos com os detalhes do orçamento da Grécia. Todo mundo sempre fala de um milhão de servidores públicos, mas na realidade são apenas 650.000.

“Veja esta lista”, diz ele. “Você só consegue somar um milhão se contar os funcionários que trabalham em empresas nas quais o governo tem participação acionária”. Tampouco o que dizem de altos salários para os burocratas é verdade: 80% dos funcionários ganham entre 700 e 1.500 euros por mês. Somente os 20% do topo ganham entre 1.500 e 4.000 euros.

Houve uma reunião especial do conselho do sindicato no domingo, após o governo divulgar seus planos. A decisão foi rápida: greve geral na terça-feira, além da greve que já estava planejada para quarta. Escolas, ministérios, hospitais públicos e escritórios do governo vão parar por 48 horas. Na quarta-feira, a Confederação Geral de Trabalhadores Gregos (Gsee), que reúne sindicatos da iniciativa privada, vai aderir.

O sindicato do setor público já está pensando em outras formas de protesto. De manifestações a bloqueios de ruas, há muitas possibilidades, diz Papantoniou. “Vamos protestar constantemente daqui para frente.”

Capital do protesto europeu

Atenas já poderia ser considerada a capital de protestos da Europa. Talvez nenhuma outra metrópole europeia tenha tantas greves e manifestações. Gessthimani Grafidou quer partir para a ação. No passado, a diretora de uma escola do ensino fundamental de 47 anos participava das greves e protestos. Desta vez, ela quer ir às ruas para expor sua perda salarial. Após 28 anos de serviço, ela ganhava 1.800 euros líquidos. Aí veio o pacote em março que cortou seu salário em 125 euros. Os próximos cortes provavelmente vão custar a ela outros 75 euros por mês. O marido dela trabalhava para a Olympic Airways, que agora foi privatizada. Ele está desempregado e procurando trabalho. “Não temos espaço financeiro para manobras”, diz Grafidou.

O país se sente humilhado. “O grande sacrifício”, diz a manchete do jornal grego Ta Nea sobre os cortes que o governo foi forçado a fazer para conseguir o crédito de 110 bilhões de euros da UE e do Fundo Monetário Internacional. “A grande odisseia começa”, escreve o jornal empresarial Kerdos.

Quase todos os gregos estão reclamando. As pessoas estão revoltadas. Elas dizem que os cidadãos médios têm que pagar pela crise, enquanto os sonegadores de impostos são poupados. Que os políticos fizeram erros que deixaram a Grécia nesta confusão, mas as pessoas agora têm que pagar por isso e que o país ainda gasta quantias absurdas com os militares. Como resultado das tensões com a Turquia, a Grécia gasta cerca de 14 bilhões de euros em defesa anualmente. Apesar dos cortes, o governo ainda pretende gastar 6,7 bilhões de euros em 2010.

Críticas ao setor público

Há também críticas ao custo setor público do país. Aynnis Stournaras, 54, não é do tipo de reclamar sobre a situação do país. Ele prefere ter uma visão sóbria dos fatos e números. Principal economista do governo de Kostas Simitis, ele é professor de economia na Universidade de Atenas, diretor do instituto Iobe e o economista independente mais famoso da Grécia.

Algumas vezes, Sournaras se pergunta sobre seu país. Por que todos os museus fecham no início da tarde? Por que a ilha de Delos, considerada Patrimônio Mundial pela Unesco em 1990 e habitada apenas por guardas, abre só até 15h? “São decisões tolas”, diz ele. “Somos um país que depende do turismo. Devíamos estar fazendo o dobro do dinheiro com coisas desse tipo.”

O setor público na Grécia é totalmente ineficiente, diz Sournaras, acrescentando que a Grécia precisa ser mais desregulada. O governo conservador do ex-primeiro-ministro Kostas Karamanlis, que deixou o cargo em outubro, fez promessas desse tipo, mas em vez disso, continuou expandindo o setor público.

“Giorgios, acorde!”

Stournaras também criticou duramente o novo governo socialista do primeiro-ministro Georgios Papandreou. Eles agiram tarde demais, diz ele. Apesar de o governo corrigir as previsões do déficit nacional de 6,7% para 12,7% pouco após as eleições, não houve consequências, porque o Partido Socialista estava ocupado distribuindo cargos no novo governo diz ele. Em certo ponto, Stournaras escreveu uma carta ao primeiro-ministro. “Georgios, acorde!”

Agora Stouranras prevê tempos difíceis. A recessão vai piorar, e o consumo e investimento vão cair. “Mas não temos escolha”, diz ele. Por outro lado, o economista não acredita que haverá protestos de uma grande parte da população. Os cortes atingem principalmente o setor público, diz ele: “As pessoas sofreram por causa dos privilégios dos burocratas”.

Kostas Papantoniou estará à frente da marcha quando os funcionários públicos forem às ruas. “Vamos partir para a luta”, diz ele. Parece algo que Che Guevara diria.

Tradutor: Deborah Weinberg

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