Para a artista do odor, é preciso se libertar da ideia de cheiro bom ou ruim

Siobhán Dowling

A especialistas em aromas e artista dos cheiros Sissel Tolaas fica entre o mundo da arte, da ciência e do comércio. Ela acredita que os seres humanos não atingem seu potencial olfativo e que precisamos nos livrar das noções de cheiros bons e ruins.

Sissel Tolaas é uma pessoal difícil de rotular. Ela é uma artista, uma química, teórica do odor e missionária do aroma. Agora ela pode acrescentar o título de “curadora de uma revista” ao seu currículo. A última edição da MONO.KULTUR, uma revista trimestral de arte de Berlim, exibe 12 dos aromas que ela produziu em seu laboratório de Berlim. Tudo o que o leitor precisa fazer é raspar e cheirar.

A especialista escandinava em aromas, que é formada em química, arte e linguagem, está numa espécie de missão para mudar a forma como nós pensamos sobre nossas capacidades olfativas. Ela argumenta que uma apreciação de nosso sentido de olfato pode fazer com que vivamos o pleno potencial de nossas vidas. “Podemos não ser nada sem nossos narizes”, disse ela numa entrevista à “Spiegel Online”. “No momento em que paramos de respirar, estamos mortos. Com cada respiração, nós aspiramos milhares de moléculas.”

Há vinte anos, Tolaas, nascida na Noruega, dedica-se a pesquisar aromas, colecionando um arquivo de cerca de 6.700 cheiros diferentes em seu apartamento em Berlim e treinando seu nariz não apenas a detectar fragrâncias, mas a deixar de lado sua bagagem emocional quanto às noções de que os odores podem ser bons ou ruins. Sua pesquisa interdisciplinar e sua abordagem conceitual a levou a realizar instalações de arte, trabalhar com universidades em projetos de pesquisa e a fazer um uso comercial de seu conhecimento.

Tolaas argumenta que nosso sentido de olfato é “completamente desvalorizado” em comparação com os outros sentidos. Nós raramente compreendemos a informação que chega através de nossos narizes, diz ela, e não temos a linguagem necessária para descrever nossa experiência. Mas a forma como nos relacionamos com o meio que nos cerca e com os outros pode ser primariamente através do olfato. “A tolerância não começa com o olhar e a audição, com a cor da pele ou a religião, mas com o cheiro, o nariz”, argumenta.

“O olfato acontece num contexto emocional”

Tolaas está trabalhando com jovens para recuperar o estado precário de nossa consciência do olfato. Há sete anos ela vem “investindo no futuro”, atacando as ideias pré-concebidas das crianças em relação aos cheiros bons e ruins. “Eu levo as crianças para bairros movimentados, onde o cheiro é bastante pungente e as crianças ficam loucas”, explica com entusiasmo. Ela então reproduz os cheiros em seu laboratório e expõe as crianças a eles mais uma vez. No primeiro dia elas não gostam, mas lentamente se acostumam ao cheiro. No quinto dia, elas aprenderam a gostar daquele odor que antes era estranho.

“Não nascemos para gostar ou não das coisas”, explica. “Todo cheiro acontece num contexto emocional e você precisa ter uma experiência para reagir ao cheiro.”

Há, entretanto, um cheiro que ela admite que é universalmente visto como ruim: o cheiro da morte. Mas mesmo isso não afasta Tolaas, que passou anos treinando para ser neutra em relação aos odores – o cheiro que ela não gostava era o de leite azedo – e não reagir emocionalmente a eles. O Museu Alemão de História Militar em Dresden incumbiu-a da tarefa de recriar o mau cheiro do campo de batalha e ela lançou-se ao desafio. “Eles queriam o cheiro de corpos e sangue e eu tentei com as ferramentas que eu tinha, embora pensasse comigo mesma: até onde posso ir, onde é que devo parar?” Entretanto, quando ela apresentou sua “fragrância” ao museu, eles logo desistiram da ideia.

Embora ela não tenha uma galeria nem considere a si mesma como integrante do mundo da arte, Tolaas conquistou notoriedade como artista. “Eu me interesso pela ação e reação, no processo de estar vivo e precisava sair da contexto do laboratório”, explica. Ela escolheu a arte como uma forma de comunicar suas ideias, porque era o espaço que tinha mais probabilidade de aceitar seu “projeto maluco”.

Em 2004, por exemplo, Tolaas apresentou um projeto artístico na cidade que ela adotou, Berlim, onde vive desde 1987. Ela foi para quatro bairros bem diferentes – Reinickendorf, Neukölln, Charlottengurg e Mitte – e andou por eles, identificando-os com seu “nariz profissional”. Ela então reproduziu os cheiros em seu laboratório e voltou aos locais para mostrá-los aos moradores locais e pedir a eles que falassem sobre os mesmos. “Eles simplesmente se soltaram como crianças, falando sobre os cheiros e contando histórias. Isso foi muito além do que qualquer material de vídeo ou áudio teria permitido”. As reações então se tornaram parte de uma instalação que foi mostrada durante a terceira mostra de arte da Berlin Biennale.

Cheiros pessoais como impressões digitais

O sucesso de Tolaas no mundo da arte fez com que o mundo dos negócios viesse bater à sua porta. A companhia International Flavors and Fragrances (IFF) tornou-se sua patrocinadora e forneceu a ela equipamento e 2 mil moléculas para ela trabalhar no laboratório. “Isto para mim é o paraíso”, diz ela. “Mudou minha vida”. Mas Tolaas não produz perfumes. “Não tenho nada contra a perfumaria ou a desodorização, mas precisamos saber o que estamos escondendo antes de desodorizar”. Todas as pessoas tem um cheiro único, diz ela, como se fosse uma impressão digital, e esse cheiro interage com qualquer perfume que seja usado.

Tolaas também trabalha no mundo acadêmico. Ela fez uma exibição sobre o cheiro do medo no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em 2006 e trabalhou com uma equipe de pesquisa da Universidade de Harvard investigando as fontes de poluição na Cidade do México. Ela desenvolveu métodos para envolver as pessoas da cidade e a consciência que elas têm sobre as causas da poluição. “Se você recebe a mensagem pelo seu nariz, então você de fato entende a mensagem”, argumenta.

Agora ela está trabalhando com a gigante dos esportes Adidas para desenvolver a identidade corporativa da companhia e tem projetos em andamento com as cidades norte-americanas de San Francisco e Kansas City. “Estou muito ocupada”, diz ela com prazer.

Tolaas é quase uma evangelizadora em sua batalha para melhorar nossa capacidade olfativa. “Há tantas coisas que não sabemos sobre o nariz. O que aconteceria se começássemos a treiná-lo para outros fins que não somente inspirar e expirar?”

Mas seu trabalho é quase sempre brincalhão e cheio de humor. “Tem a ver com fazer com que as pessoas se transformem em crianças novamente”, diz Tolaas. “No que diz respeito ao nariz, nós somos como bebês, não temos a mínima ideia. Eu ofereço o parquinho e deixo elas correrem soltas.”

Tradutor: Eloise De Vylder

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