Inédito pacote de socorro ao euro pode desencadear inflação

Armin Mahler

  • THOMAS LOHNES/AFP

O euro está salvo por enquanto, mas os políticos europeus atiraram as bases da moeda comum europeia pelos costados com seu inédito pacote de socorro. Em longo prazo, os perigos da crise só poderão aumentar, e a inundação de bilhões de euros também poderá causar inflação.

O ataque foi repelido. Os mercados estão pujantes e o euro, em ascensão. O escudo protetor que os políticos europeus ergueram praticamente da noite para o dia para defender sua moeda comum sitiada parece estar funcionando.

Os políticos europeus podem dar um suspiro de alívio - pelo menos por enquanto. Eles só podem relaxar até que fique claro que essa suposta vitória tem um preço amargo. Os governos europeus atiraram pelos costados todos os nobres princípios e as promessas que os cidadãos comuns achavam que os manteriam seguros: as duras bases formais contidas no tratado da introdução do euro e a independência do Banco Central Europeu (BCE).

É claro que eles fizeram tudo isso com a melhor das intenções. O perigo, como eles indicaram, era iminente. Eles quiseram defender o euro contra especuladores, aqueles sinistras poderes anglo-americanos que estavam apenas esperando uma oportunidade para destruir o euro, fazendo um belo lucro nesse processo. Os políticos europeus - pelo menos isto é o que eles querem nos fazer acreditar - estavam agindo em algo que se aproximava de um estado de emergência. Deveríamos acreditar que eles tiveram de evitar um colapso total da moeda comum europeia. Uma situação como essa não é momento para excesso de escrúpulos. Essa, em resumo, é a versão propagandística dos fatos.

A verdade, porém, é um pouco diferente. A situação nos mercados financeiros realmente havia chegado a um ponto crítico na semana passada. O valor do euro tinha caído, os prêmios de risco para títulos do governo de membros da zona do euro do sul da Europa tinham subido e os mercados de ações haviam despencado - tudo isso apesar do fato de os políticos terem concordado com um pacote de socorro para a Grécia no penúltimo fim de semana.

Um pacote unicamente perigoso

É verdade que especuladores também estavam ocupados com seu jogo. Mas não são os grandes fundos hedge que criam as tendências - eles apenas as amplificam. O que é decisivo são as massas de investidores: grandes e pequenos investidores, companhias de seguros, bancos e fundos. Se eles acreditam que a taxa de câmbio continuará caindo, eles se livram de seus investimentos. Se acreditam que a zona do euro é incapaz de administrar seus problemas, eles vendem suas ações e seus euros. Mas eles não agem especulativamente. Agem racionalmente.

A liquidação nos mercados não foi um ataque de especuladores. Foi um voto de desconfiança de investidores no euro e na administração da crise pelos europeus. Mas quando todo mundo corre para a saída ao mesmo tempo o pânico se espalha. Essa foi a situação na sexta-feira. Os políticos temiam a reação dos mercados - e começaram a entrar em pânico. Em resposta, aprovaram um plano de resgate que entrará para a história econômica. Afinal, ele é único.

E unicamente perigoso. Os europeus e o Fundo Monetário Internacional querem disponibilizar 750 bilhões de euros para sustentar países da zona do euro que se encontrarem em uma emergência financeira. Eles não parecem se importar com o fato de que os tratados da UE não incluem dispositivos para essa ajuda. Na verdade, eles já tinham ignorado a cláusula de não-socorro no Tratado de Maastricht quando concordaram em socorrer a Grécia.

Mas isso não bastou para os salvadores do euro - eles queriam mandar uma mensagem de que eram realmente sérios. Por isso sacrificaram a independência do BCE - e pavimentaram o caminho para uma União da Inflação Europeia.

No futuro, o BCE pretende comprar títulos do governo nas emergências. Não apenas isto foi proibido até agora como também contradiz o objetivo geral do BCE: manter o valor da moeda estável. Quando esse tabu for rompido, as próprias bases do euro vão se desfazer.

Os políticos alemães um dia prometeram tornar a moeda comum europeia tão sólida quanto o marco. É por isso que eles impuseram regras fortes sobre as dívidas nacionais dos países-membros e a independência do BCE. Foi somente por causa dessa promessa que a decisão de abandonar o marco alemão pôde ser imposta politicamente. Hoje ambas as promessas estão sendo rompidas. E a intervenção é tão fundamental que só pode ser explicada com grande dificuldade. É por isso que os políticos precisam de um fantasma, na forma de especuladores malignos.

Uma enxurrada de dinheiro

De outro modo eles não teriam opção senão dizer o seguinte: os culpados somos nós. Nós percebemos o euro como um projeto político e ignoramos as necessidades econômicas. Apenas escrever os critérios de estabilidade não foi suficiente - nós também deveríamos ter monitorado os países, fazendo-os respeitá-los. Nós também deveríamos ter nos movido muito antes para controlar os déficits nacionais que estavam saindo do eixo em toda a Europa. E quando o âmbito do desastre ficou claro para nós, deveríamos ter rapidamente chegado a um acordo sobre as medidas a tomar.

Mas os políticos não fizeram nada disso. Portanto, eles - e não os mercados financeiros - são responsáveis pelo declínio do euro. Eles também serão responsáveis se o pacote de socorro não se sustentar e o euro desmoronar.

Mas os políticos conseguiram atingir um objetivo: não haverá falências estatais na zona do euro no futuro. Como poderia haver? Quando na dúvida, o BCE apenas comprará títulos do governo. O dinheiro não pode acabar - afinal, é o próprio BCE que o imprime. Os bancos centrais americano e britânico já fazem exatamente isso hoje.

Mas isso não melhora a situação - apenas a piora. Uma enxurrada de dinheiro como essa não pode continuar sem consequências. A estabilidade da moeda será minada e mais cedo ou mais tarde haverá inflação.

A única esperança que resta para a Europa é que o pacote de socorro tenha um efeito calmante nos mercados e que os políticos usem o tempo que compraram para enfrentar seriamente o problema da dívida da zona do euro. Se eles não conseguirem isso, o pacote de socorro fechado na semana passada será de pouca ajuda. Pelo contrário, ele apenas irá exacerbar o problema.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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