Como a ciência do aquecimento global ficou comprometida

Axel Bojanowski

Até que ponto a mudança climática está realmente ocorrendo? No final do ano passado, pesquisadores do clima foram acusados de exagerar os resultados de estudos. Desde então a SPIEGEL ONLINE analisou os e-mails pirateados do "Climagate" e forneceu explicações sobre uma das disputas mais inéditas na história científica recente.

Nosso planeta está se aquecendo 1 grau centígrado, 2 graus, ou mais? A mudança climática é totalmente causada pelo homem? E o que pode ser feito para neutralizá-la? Existem inúmeras respostas possíveis para essas perguntas, assim como estudos científicos, medições, debates e planos de ação. Hoje, até os mais céticos admitem que a humanidade - com suas fábricas, sistemas de aquecimento e carros - contribui para esquentar a atmosfera.

Mas as consequências da mudança climática ainda são fortemente contestadas. Portanto, foi uma espécie de bomba política quando "hackers" desconhecidos roubaram mais de mil e-mails escritos por pesquisadores climáticos britânicos e publicaram alguns deles na Internet. Um escândalo de proporções gigantescas parecia prestes a estourar, e a mídia chamou o caso de "Climagate", em referência ao escândalo de Watergate que levou à renúncia do presidente americano Richard Nixon. Os críticos afirmaram que os e-mails mostrariam que as previsões sobre a mudança climática se baseavam em cálculos frágeis.

Embora um inquérito parlamentar britânico logo tenha confirmado que definitivamente não se tratava de uma conspiração, a correspondência revelada forneceu uma visão profunda dos mecanismos, frentes e batalhas no interior da comunidade da pesquisa climática. SPIEGEL ONLINE analisou os mais de mil e-mails do Climagate, que abrangem um período de 15 anos, e-mails que estão livremente disponíveis na Internet e que, quando impressos, ocupam cinco pastas volumosas. O que emerge é que os principais pesquisadores foram submetidos ocasionalmente a ataques brutais por pessoas de outras áreas e ficaram atolados em uma guerra de trincheiras amarga e de longo alcance que também absorveu a mídia, grupos ambientalistas e políticos.

SPIEGEL ONLINE revela como eclodiu a guerra entre os pesquisadores climáticos e os céticos do clima, os truques que cada lado usou para superar o outro e como o conflito poderia ser resolvido.

Do escândalo encenado ao triunfo em Quioto

As frentes no debate climático foram traçadas na areia há muito tempo. De um lado há um punhado de pesquisadores climáticos altamente influentes, do outro um poderoso lobby de associações industriais determinadas a banalizar os perigos do aquecimento global. Este último grupo é apoiado pela ala conservadora do espectro político americano, teóricos da conspiração e também cientistas críticos.

Mas isso por si só não bastaria para dividir os papéis tão claramente em bom e mau. A maioria dos pesquisadores climáticos estava em algum ponto entre os dois extremos. Eles muitas vezes tinham dificuldade para traçar conclusões claras de suas descobertas. Afinal, os fatos científicos com frequência são ambíguos. Embora se aceite geralmente que há boas evidências que apoiam as previsões de futuro aquecimento global, ainda há uma considerável incerteza sobre as consequências que ele terá.

Os dois lados - os importantes pesquisadores climáticos de um lado e seus adversários na indústria e pequenos grupos de descrentes do outro - jogaram duro desde o início. Tudo começou em 1986, quando físicos alemães emitiram um dramático apelo público, o primeiro desse tipo. Eles advertiram sobre o que consideravam um "desastre climático". No entanto, seu objetivo confesso era promover a energia nuclear contra as usinas de energia movidas a carvão, que emitem dióxido de carbono.

O primeiro escândalo

Na época, certamente havia claras evidências científicas de um perigoso aumento das temperaturas, levando a ONU a formar o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC na sigla em inglês) em 1988 para examinar a questão. No entanto, a ideia não pegou nos EUA até que o país foi atingido por uma seca muito grave no verão de 1988. Os políticos do Congresso usaram essa fase seca para escutar o cientista da Nasa James Hansen, que vinha publicando artigos em revistas do setor há anos, advertindo sobre a ameaça da mudança climática causada pelo homem.

Quando Washington instruiu Hansen a dar mais ênfase às incertezas de sua teoria, o senador e depois vice-presidente Al Gore reagiu. Gore notificou a mídia sobre a suposta tentativa de encobrimento do governo, forçando uma reação do governo sobre a questão.

As companhias de petróleo reagiram com alarme e forjaram alianças com companhias de outros setores que temiam um possível aumento do preço dos combustíveis fósseis. Elas até conseguiram arrebanhar alguns hábeis pesquisadores do clima como Patrick Michaels, da Universidade da Virgínia.

O objetivo do lobby industrial era enfocar ao máximo possível as dúvidas sobre as descobertas científicas. Segundo um trabalho estratégico da Equipe Científica sobre o Clima Global, um grupo de lobby do petróleo, "a vitória será alcançada quando os cidadãos médios reconhecerem que há incertezas na ciência do clima". Enquanto isso, os cientistas se viram na defensiva, tendo de convencer o público constantemente de que suas advertências eram realmente sólidas.

Propaganda industrial para os "menos educados"

Uma dinâmica perigosa havia sido acionada: qualquer pesquisador do clima que manifestasse dúvidas sobre descobertas corria o risco de fazer o jogo do lobby industrial. Os e-mails vazados mostram como importantes cientistas reagiram à avalanche de publicidade do chamado "lobby dos céticos". Por medo de que seus adversários pudessem tirar vantagem de conclusões ambíguas, muitos pesquisadores tentaram simplesmente esconder do público as fragilidades de suas descobertas.

O lobby gastou milhões em campanhas de propaganda. Em 1991, o Conselho de Informação sobre Meio Ambiente (ICE na sigla em inglês) emitiu um documento estratégico destinado ao que chamou de "pessoas menos educadas". Este propunha uma campanha que "reposicionaria o aquecimento global como uma teoria (e não um fato)". No entanto, os céticos também queriam se dirigir aos setores mais educados da sociedade. A Coalizão sobre o Clima Global, por exemplo, uma aliança de companhias energéticas, tentou especificamente influenciar os delegados da ONU. O conselho dos cientistas céticos também teve considerável aceitação no Congresso americano.

No entanto, os lobistas tiveram menos sucesso no cenário internacional. Em 1997, a comunidade internacional concordou com o primeiro tratado feito sobre proteção do clima: o Protocolo de Quioto. "Os cientistas tinham emitido uma advertência, a mídia a amplificou e os políticos reagiram", lembra Peter Weingart, um sociólogo da ciência na Universidade de Bielefeld, na Alemanha, que estudou o debate climático.

Mas assim como diversas firmas industriais começaram a admitir a necessidade de proteção climática e deixaram a Coalizão para o Clima Global, alguns cientistas começaram a ficar muito íntimos das organizações ambientalistas.

Como os pesquisadores tramaram com grupos de interesse

Mesmo antes da conferência do clima da ONU em Quioto em 1997, grupos ambientalistas e importantes pesquisadores climáticos começaram a unir forças para pressionar a indústria e os políticos. Em agosto de 1997, o Greenpeace enviou uma carta ao jornal "The Times" de Londres, em nome dos pesquisadores britânicos. Tudo o que os climatologistas precisavam fazer era assinar na linha pontilhada. Em outubro daquele ano, outros pesquisadores - ostensivamente agindo em nome do World Wildlife Fund, ou WWF - enviaram centenas de e-mails para colegas, pedindo-lhes que assinassem um apelo aos políticos ligado à conferência de Quioto.

A tática foi controversa. Enquanto os cientistas alemães imediatamente assinaram a lista, outros tiveram dúvidas. Em um e-mail vazado e datado de 25 de novembro de 1997, o renomado paleoclimatologista americano Tom Wigley disse a um colega que temia que esses apelos fossem quase tão "desonestos" quanto a propaganda empregada pelo lobby dos céticos. Visões pessoais, disse Wigley, não podiam ser confundidas com fatos científicos.

Pesquisadores "reforçam" apelos de grupos ambientalistas

Os apelos de Wigley caíram em ouvidos moucos, e muitos de seus colegas inadvertidamente se aliaram ao lobby ambientalista. Solicitados a comentar pela WWF, pesquisadores da Austrália e da Grã-Bretanha, por exemplo, fizeram previsões especialmente pessimistas. Além disso, os especialistas disseram estar plenamente conscientes de que a WWF queria que as advertências fossem "reforçadas", como havia declarado em um e-mail de julho de 1999. Um climatologista australiano escreveu para colegas em 28 de julho de 1999 que ficaria "muito preocupado" se a literatura sobre proteção ambiental contivesse dados que pudessem sugerir "que grandes áreas do mundo terão mudanças climáticas desprezíveis".

Dois anos depois, pesquisadores climáticos alemães do Instituto Potsdam de Pesquisa do Impacto Climático (PIK na sigla em alemão) e do Instituto Max Planck de Meteorologia em Hamburgo também elaboraram um documento de posicionamento juntamente com a WWF. O Instituto para o Clima, Meio Ambiente e Energia de Wuppertal, Alemanha, foi um pioneiro nesse sentido. Ele foi muito aberto sobre trabalhar com o grupo ambientalista BUND, a seção alemã dos Amigos da Terra, para desenvolver recomendações para uma estratégia de proteção ao clima em meados de 1990.

Indústria e pesquisadores lutam por supremacia na mídia

A partir daí, a batalha foi totalmente sobre a predomínio na mídia. A mídia muitas vezes é acusada de dar demasiada atenção aos céticos da mudança climática. De fato, teorias que podem projetar dúvidas sobre o aquecimento global, com pouco resguardo científico, apareceram regularmente na imprensa. Estas incluíam os chamados "panfletos informativos" enviados a jornalistas por lobistas da indústria do petróleo.

Isso ocorre em parte porque a mídia americana, em particular, é extremamente cuidadosa para garantir o que chama de reportagem equilibrada - em outras palavras, dar aos dois lados de um debate a oportunidade de manifestar suas opiniões. Isto significou que teorias ainda mais exóticas e de céticos da mudança climática receberam tanto tempo no ar quanto as conclusões de especialistas renomados.

Os pesquisadores da mídia acreditam que o fenômeno do valor midiático é outro motivo pelo qual as teorias contrárias à mudança climática são divulgadas de maneira tão ampla. Quanto mais claras as advertências sobre um desastre iminente, mais interessantes se tornam as opiniões críticas. O debate na mídia sobre o tema também se concentrou na questão potencialmente escandalosa de se os climatologistas tinham especulado sobre cenários de pesadelo simplesmente para ter acesso a bolsas de pesquisa.

O renomado pesquisador climático Klaus Hasselmann, do Instituto Max Planck de Meteorologia, refutou essas acusações em um artigo muito citado no jornal alemão "Die Zeit" em 1997. Hasselmann indicou que descobertas científicas sugerem que existe uma probabilidade extremamente alta de que o homem realmente tenha sido responsável pela mudança climática. "Se esperarmos até que as últimas dúvidas sejam superadas, será tarde demais para fazer alguma coisa a respeito", ele escreveu.

"Os climatologistas tendem a não mencionar suas suspeitas mais extremas"

Hasselmann culpou a mídia por toda a comoção. Na verdade, sociólogos identificaram "debates exagerados" na mídia em que se pintavam imagens cada vez mais sombrias sobre as possíveis consequências do aquecimento global. "Muitos jornalistas não querem ouvir falar sobre incerteza nas conclusões das pesquisas", queixa-se o pesquisador Martin Claussen, do Instituto Max Planck. O sociólogo Peter Weingart critica não apenas os jornalistas, mas também os cientistas. "Os climatologistas tendem a não mencionar suas suspeitas mais extremas", ele lamenta.

Enquanto o debate se aquecia ocasionalmente nos EUA, "os céticos na Alemanha foram rapidamente marginalizados de novo", lembra o sociólogo Hans Peter Peters, do centro de pesquisas Forschungszentrum Jülich, que analisou as notícias relacionadas ao clima na Alemanha. Peters acredita que a estratégia de comunicação dos principais pesquisadores foi bem-sucedida em longo prazo. "O problema climático anunciado foi levado a sério pela mídia", ele diz. Ele vê até sinais de um "forte alinhamento de cientistas e jornalistas nos relatos sobre a mudança climática".

Não obstante, cientistas tentaram pressionar a mídia quando discordavam da maneira como as notícias eram relatadas. As redações foram inundadas de cartas de protestos sempre que reportagens disseram que os perigos da mudança climática desenfreada pareciam estar diminuindo. Mensagens eletrônicas mostram que os pesquisadores climáticos coordenaram seus protestos, visando jornalistas específicos para despejar sua fúria. Por exemplo, quando um artigo intitulado "O que aconteceu com o aquecimento global?" apareceu no site da BBC em outubro de 2009, cientistas britânicos primeiro discutiram a questão entre eles por e-mail, antes de pedir que um editor aparentemente equilibrado explicasse o que estava acontecendo.

Cientistas sociais sabem muito bem que uma boa divulgação pode fazer maravilhas para a carreira de uma pessoa. David Philips, um sociólogo da Universidade de San Diego, sugere que a batalha pela supremacia na mídia de massa é não apenas um meio de mobilizar o apoio público, mas também uma ótima maneira de ganhar pontos na comunidade científica.

A opinião científica se entrincheira

Os e-mails que vazaram mostram que alguns pesquisadores usam táticas que são exatamente tão impiedosas quanto as empregadas pelos críticos fora da comunidade científica. Sob o ataque dos céticos do aquecimento global, os climatologistas montaram barricadas. De fato, a crítica só pareceu aumentar a decisão dos cientistas. E, temendo que quaisquer incertezas em suas conclusões pudessem ser atacadas, os cientistas tentaram desesperadamente ocultá-las.

"Não deixe nada para os céticos se agarrarem", escreveu o renomado climatologista britânico Phil Jones, da Universidade de East Anglia (UEA), em um e-mail vazado, com data de 4 de outubro de 2000. Jones, que dirige a Unidade de Pesquisa Climática (CRU) da UEA, está no centro do escândalo dos e-mails. Mas sempre houve muitos estudos que os críticos podiam citar porque as conclusões das pesquisas continuam sendo ambíguas.

Às vezes os cientistas são advertidos por seus próprios colegas de que podem estar fazendo o jogo do inimigo. Kevin Trenberth, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica dos EUA, por exemplo, sofreu enorme pressão dos países produtores de petróleo enquanto elaborava o segundo relatório do IPCC em 1995. Em janeiro de 2001 ele escreveu um e-mail para seu colega John Christy, da Universidade do Alabama, queixando-se de que representantes da Arábia Saudita haviam citado um dos estudos de Christy durante negociações sobre o terceiro relatório climático do IPCC. "Não estamos sob censura para guardar nossos pensamentos", respondeu Christy.

"Estratégias eficazes em longo prazo"

O paleoclimatologista Michael Mann, da Universidade Estadual da Pensilvânia, também tentou unir seus colegas. Em uma mensagem datada de 17 de setembro de 1998, ele lhes pedia para formar uma "frente unida" para desenvolver "estratégias eficazes em longo prazo". Os paleoclimatologistas tentam reconstruir o clima do passado. Sua principal fonte de dados está em troncos de antigas árvores cujos anéis anuais dão pistas sobre o clima dos anos passados.

Ninguém sabe melhor que os próprios pesquisadores que os dados de árvores podem ser muito inconfiáveis, e uma troca de e-mails mostra que eles discutiram extensamente o problema. Mesmo assim, reconstruções do clima significativas podem ser feitas se os dados forem analisadas cuidadosamente. O único problema é que se obtêm gráficos diferentes sobre a mudança climática dependendo dos dados utilizados.

Mann e seus colegas foram pioneiros nesse campo, os primeiros a traçar um gráfico das temperaturas médias no hemisfério norte nos últimos mil anos. Essa é indiscutivelmente uma conquista impressionante. Por causa de sua forma, seu diagrama foi chamado de "gráfico do bastão de hóquei". Segundo este, o clima pouco mudou durante cerca de 850 anos, e então as temperaturas subiram drasticamente (a lâmina do bastão). No entanto, alguns anos depois, revelou-se que esse gráfico não era tão preciso quanto se pensou inicialmente.

"Eu detestaria alimentar isso"

Em 1999, o chefe do CRU, Phil Jones, e o pesquisador britânico Keith Briffa elaboraram um segundo gráfico do clima. Talvez não cause surpresa saber que isso levou a uma disputa entre os dois grupos sobre qual gráfico deveria ser publicado no sumário para políticos no início do relatório do IPCC.

O gráfico do bastão de hóquei era interessante por causa de sua forma convincente. Afinal, o aumento de temperatura único dos últimos 150 anos parecia fornecer uma prova clara da influência do homem sobre o clima. Mas Briffa advertiu sobre superestimar a importância do bastão de hóquei. Em uma mensagem eletrônica para seus colegas em setembro de 1999, Briffa disse que o gráfico de Mann "não deve ser entendido como se lê", apesar de apresentar "uma história bem contada".

Em contraste com o bastão de hóquei de Mann "et al", o gráfico de Briffa continha um período quente na Alta Idade Média. "Acredito que o calor recente provavelmente teve um equivalente cerca de mil anos atrás", ele escreveu. Felizmente para os pesquisadores, a discussão acalorada que se seguiu foi rapidamente abafada quando eles perceberam que era mais útil unir forças contra o inimigo comum. Os céticos da mudança climática usam o gráfico de Briffa para projetar dúvidas sobre a afirmação de que as atividades humanas afetaram o clima. Eles afirmam que se nossa atmosfera está tão quente hoje quanto era na Idade Média - quando não havia poluição feita pelo homem - as emissões de dióxido de carbono não podem ser responsáveis pelo aumento das temperaturas.

"Eu não acho que essa dúvida se justifique cientificamente, e detestaria ser aquele que tivesse de alimentá-la", escreveu Mann para seus colegas. A tática foi bem-sucedida. O gráfico de Mann acabou na capa do relatório climático da ONU de 2001. Na verdade, ele se tornou o elemento definidor do relatório.

Frase inocente encampada pelos republicanos

Para obter gráficos sem ambiguidade, os pesquisadores tiveram de manipular ligeiramente seus dados. No que é provavelmente o mais infame e-mail do Climagate, Phil Jones escreveu que tinha usado o "truque" de Mann para "ocultar o declínio" das temperaturas. Depois do vazamento da correspondência eletrônica, a expressão "ocultar o declínio" foi transformada em uma canção sobre o suposto escândalo e aproveitada pelos políticos republicanos dos EUA, que a citaram interminavelmente na tentativa de desacreditar os especialistas climáticos.

Mas o que à primeira vista parecia ser uma fraude era na verdade apenas um estratagema para salvar as aparências: os dados dos anéis de árvores indicam que não houve aquecimento global desde meados do século 20, e portanto contrariam as medições de temperatura. Os dados de árvores claramente errados foram então corrigidos pelo chamado "truque" com os gráficos de temperatura.

A briga tornou-se cada vez mais amarga com o passar dos anos, como mostram os e-mails entre os pesquisadores. Desde o final dos anos 1990, vários céticos da mudança climática questionaram repetidamente Jones e Mann sobre seus dados de anéis de árvores e modelos de cálculo, citando o direito legal de ter acesso a dados científicos.

"Acho que vou deletar o arquivo"

Em 2003, o mineralogista Stephen McIntyre e o economista Ross McKitrick publicaram um documento que salientava erros sistemáticos nas estatísticas em que se baseou o gráfico do bastão de hóquei. No entanto, Michael Mann rejeitou o trabalho, que ele viu como uma parte de uma "campanha de ataque corporativo fortemente financiada e altamente orquestrada", como ele escreveu em setembro de 2009.

Cada vez mais, Mann e seus colegas se recusavam a entregar seus dados ao "inimigo", como foram chamados os pesquisadores céticos em diversos e-mails. Em 2 de fevereiro de 2005, Jones chegou a escrever: "Acho que vou deletar o arquivo em vez de enviá-lo para alguém".

Hoje Mann se defende dizendo que sua universidade examinou os e-mails e decidiu que ele não havia suprimido dados em qualquer momento. No entanto, o inquérito conduzido pelo Parlamento britânico chegou a uma conclusão muito diferente. "Os e-mails vazados parecem mostrar uma cultura de não-revelação no CRU e instâncias em que a informação pode ter sido deletada para evitar sua divulgação", anunciou o Comitê de Tecnologia e Ciência da Câmara dos Comuns em suas conclusões em 31 de março.

O sociólogo Peter Weingart acredita que os danos podem ser irreparáveis. "A perda de credibilidade é o maior risco inerente à comunicação científica", ele disse, acrescentando que a confiança só pode ser recuperada através da completa transparência.

De reputações merecidas ao poder ilegítimo

Os dois lados se tornaram cada vez mais hostis reciprocamente. Eles debateram sobre em quem podiam confiar, quem fazia parte de seu "time" - e quem dentre eles poderia secretamente ser um cético. Todos os que estavam entre os dois extremos ou sequer tentaram manter ligações com os dois lados logo se viram sob suspeita.

Essa desconfiança ajudou a promover um sistema de favoritismo, como mostram os e-mails revelados. Segundo estes, Jones e Mann tinham uma enorme influência sobre o que era publicado na imprensa setorial. Os que controlavam as revistas também controlavam o que não entrava na arena pública - e portanto o que era visto como realidade científica.

Todos os artigos das revistas são checados anonimamente por colegas antes da publicação, como parte do que se conhece como processo de "revisão dos pares". A portas fechadas, os pesquisadores se queixaram durante anos de que Mann, que é um resenhista muito procurado, agia como uma espécie de "leão de chácara" em relação aos artigos de revistas sobre paleoclimatologia. É bem conhecido que cientistas renomados podem ganhar influência nas revistas. Mas é um negócio arriscado. "O perigo de que reputações merecidas se tornem poder ilegítimo é o maior risco que a ciência enfrenta", diz Weingart.

Da revisão dos pares à conivência

Em uma mensagem eletrônica para SPIEGEL ONLINE, Mann rejeitou as alegações de que ele exerceu influência indevida. Ele disse que os editores das revistas científicas - e não ele - escolhiam os resenhistas. No entanto, como indica Weingart, em áreas especializadas como paleoclimatologia, que só possuem alguns especialistas, alguns cientistas podem adquirir um poder considerável - desde que tenham uma boa conexão com os editores das revistas relevantes.

O "time de hóquei", como o grupo ao redor de Mann e Jones gostava de se chamar, sem dúvida tinha boas conexões com as revistas. Os colegas coordenavam e discutiam suas resenhas entre si. "Rejeitei dois trabalhos de pessoas dizendo que o CRU se enganou sobre a Sibéria", escreveu o chefe do CRU, Jones, para Mann em março de 2004. Os artigos a que ele se referia eram sobre dados de árvores da Sibéria, uma base dos gráficos climáticos. Na verdade, mais tarde se soube que o grupo de Jones no CRU provavelmente interpretou erroneamente os dados da Sibéria, e as conclusões do estudo refutadas por Jones em março de 2004 na verdade estavam corretas.

No entanto, Jones e Mann tiveram o apoio da maioria da comunidade científica em outro caso. Um estudo publicado em "Climate Research" em 2003 examinava as conclusões sobre o atual período quente e o medieval, concluindo que o século 20 "provavelmente não é o mais quente, nem um período climático unicamente extremo do último milênio". Embora os céticos do clima ficassem entusiasmados, a maioria dos especialistas considerou o estudo metodologicamente falho. Mas se o lado pró-mudança climática controlava o processo de revisão dos pares, então por que ele foi publicado?

Fechando o vazamento

Em um e-mail datado de 11 de março de 2003, Michael Mann disse que só havia uma possibilidade: céticos haviam dominado a revista. Portanto, ele pedia que o inimigo fosse detido. O "time de hóquei" lançou um contra-ataque poderoso que abalou as bases da revista "Climate Research". Vários de seus editores se demitiram. Mas, embora vociferantes, os céticos não tinham tanta influência. Se os estudos climáticos alarmistas eram falhos - o que era o caso em várias ocasiões -, as consequências da catástrofe climática não seriam tão terríveis quanto se havia previsto.

Mas também havia limites para a influência de Mann e Jones, como ficou claro em 2005, quando os incansáveis críticos do bastão de hóquei Ross McKitrick e Stephen McIntyre conseguiram publicar estudos na mais importante revista de geofísica, "Geophysical Research Letters" (GRL). "Aparentemente, os adversários agora têm uma entrada na GRL", escreveu Mann para seus colegas em um e-mail vazado. "Não podemos perder a GRL."

Mann descobriu que um dos editores da GRL havia trabalhado na mesma universidade que o temido cético climático Patrick Michaels. Então ele somou 2 e 2: "Acho que hoje sabemos como vários trabalhos foram publicados na GRL", ele escreveu em 20 de janeiro de 2005. Ao mesmo tempo, os cientistas discutiram como se livrar do editor da GRL James Saiers, também um pesquisador climático. Saiers se demitiu um ano depois - supostamente por vontade própria. "O vazamento da GRL talvez esteja fechado agora", escreveu um Mann aliviado em um e-mail para o "time de hóquei".

Conflito interno e fachada externa

O Climagate parece confirmar a crítica de que o sistema científico sempre beneficia os cartéis. No entanto, o sociólogo Hans Peter Peters adverte contra uma interpretação exagerada do caso. Ele diz que as alianças são comuns em todas as áreas do mundo científico. "A comunicação interna em todos os grupos difere da fachada", diz Peters.

Weingart também acredita que o funcionamento interno de um grupo não deve ser julgado pelos critérios do mundo exterior. Afinal, a controvérsia é a própria base da ciência, e "a demarcação e o conflito pessoal são inevitáveis". Mesmo assim, ele diz que a medida em que os lados cresceram na pesquisa climática é certamente incomum.

Prova conclusiva é impossível

Weingart diz que as ramificações políticas apenas alimentaram a batalha entre os dois lados no debate sobre o aquecimento global. Ele acredita que quanto mais politizada é uma questão, mais profundas as divisões entre os lados opostos.

O grande escrutínio público tornou a vida extremamente difícil para os cientistas. Em 2 de maio de 2001, o paleoclimatologista Edward Cook, do Observatório Terrestre Lamont Doherty, queixou-se em um e-mail: "Esse negócio da mudança climática está tão politizado dos dois lados da questão que é difícil fazer ciência em um ambiente desapaixonado". A necessidade de resumir conclusões complexas para um relatório da ONU só parece ter exacerbado o problema. "Eu tentei duramente equilibrar as necessidades da ciência e do IPCC, que nem sempre eram as mesmas", escreveu Keith Briffa em 2007. O pesquisador Martin Claussen, do Max Planck, diz que um excesso de ênfase foi dado ao consenso, em uma tentativa de satisfazer as demandas dos políticos.

E até os cientistas nem sempre estão interessados apenas na verdade da questão. Weingart nota que a maior parte do debate público é "apenas superficialmente sobre esclarecimento". Ele é mais sobre "decidir e resolver conflitos através de um acordo social geral". É por isso que é útil apresentar conclusões claras.

O tempo para respostas claras terminou

No entanto, parece impossível oferecer provas conclusivas na pesquisa climática. O filósofo científico Silvio Funtovicz previu esse dilema no início de 1990. Ele descreveu a pesquisa climática como uma "ciência pós-normal". Devido à sua grande complexidade, ele disse que era submetida a grande incerteza, enquanto ao mesmo tempo abrigava enormes riscos.

Os especialistas, portanto, enfrentam um dilema: eles têm poucas oportunidades de dar o conselho certo. Se não soarem o alarme, serão acusados de não cumprir suas obrigações morais. No entanto, as previsões alarmistas são criticadas quando as mudanças previstas deixam de ocorrer rapidamente.

As conclusões climatológicas provavelmente permanecerão ambíguas mesmo que ocorram novos progressos. Weingart diz que agora cabe aos cientistas e à sociedade aprender a conviver com isso. Em particular, ele adverte, os políticos devem entender que não existem resultados claros. "Os políticos devem parar de escutar os cientistas que prometem respostas simples", diz Weingart.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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