Mancha de óleo no Golfo do México pode poluir mais com corrente oceânica

Christoph Seidler

  • AFP/Reprodução Greenpeace

    Foto cedida pelo Greenpeace mostra do alto a queima de petróleo feita por equipes de limpeza marítima no Golfo do México, nos Estados Unidos. Apesar dos esforços para deter a mancha de óleo derramada pela plataforma que afundou, especialistas americanos estimam que o óleo chegue ao Estado da Flórida em poucos dias

    Foto cedida pelo Greenpeace mostra do alto a queima de petróleo feita por equipes de limpeza marítima no Golfo do México, nos Estados Unidos. Apesar dos esforços para deter a mancha de óleo derramada pela plataforma que afundou, especialistas americanos estimam que o óleo chegue ao Estado da Flórida em poucos dias

Era o temor dos especialistas –e agora aconteceu. A mancha de óleo devastadora no Golfo do México entrou em contato com uma forte corrente oceânica. Como resultado, o petróleo pode se espalhar mais, com consequências imprevistas e potencialmente devastadoras.

Há três semanas que os engenheiros vêm tentando combater o vazamento de petróleo no Golfo do México –sem muito sucesso. Somente nos últimos dias os especialistas da gigante de petróleo britânica BP tiveram sucesso em aumentar a quantidade de óleo que conseguem bombear para fora do poço que foi destruído no final de abril. A empresa anunciou que agora está capturando 2.000 barris dos 5.000 barris que estão vazando para o oceano por dia. Antes eles estavam capturando 1.000 barris por dia no máximo. 

Entretanto, com essa boa notícia vem uma onda de más notícias. De acordo com informações obtidas pelo Spiegel Online, a enorme mancha de óleo alcançou uma importante corrente oceânica: a chamada Corrente de Loop no Golfo do México. Esse corpo de água imenso flui para o norte antes de virar no sentido horário, ao atingir o delta do Mississipi. Depois disso, ela vira para leste e finalmente para o norte para se unir à Corrente do Golfo. Essa poderosa esteira mecânica marítima agora pode levar o petróleo para áreas costeiras de Cuba e da Flórida que antes estavam fora de perigo. Basicamente, as manchas negras sujas alcançaram uma espécie de liquidificador gigante que pode aumentar consideravelmente o risco de poluição. 

“A Corrente de Loop liga o Caribe com a Corrente da Flórida”, disse Peter Brandt do Instituto de Ciências Marinhas do Instituto Leibniz, em Kiel. Apesar de meia dúzia de redemoinhos saírem da principal corrente no Golfo do México, a maior parte da água quente do oceano passa pelo estreito da Flórida na direção do Oceano Atlântico em um ritmo de um a dois metros por segundo. E parte da mancha de óleo agora parece estar viajando com ela. 

A Corrente de Loop muda de posição ligeiramente com o tempo. No momento, está passando ao sul de onde a Deepwater Horizon afundou. A corrente turbulenta tem pelo menos 1.000 metros de profundidade e é particularmente rápida perto da superfície. 

“É só uma questão de quando” 

O que era apenas um perigo hipotético tornou-se uma certeza nas últimas semanas, ao menos para o petróleo na superfície do oceano. A corrente atingiu a mancha opaca. “Temos evidências. Já aconteceu”, disse Bertrand Chapron. O cientista do Centro de Pesquisa Marinha Ifremer, na cidade francesa de Brest, disse que pôde observar a corrente de cima. Um satélite da Agência de Espaço Aéreo da Europa, o Envisat, está fornecendo imagens constantes de radar. De acordo com Chapron, as imagens mostram que, no mínimo, o petróleo na superfície alcançou a Corrente de Loop. 

Oceanógrafos norte-americanos vêm advertindo sobre essa eventualidade há dias. William Hogarth, da Universidade da Flórida do Sul, apresentou simulações de computador indicando como o petróleo já deve ter atingido a corrente. Os cálculos podem não ser definitivos, mas seu colega Peter Ortner, da Universidade de Miami, tem certeza de uma coisa: “É só uma questão de quando.” 

Essa questão foi respondida. “O petróleo vai cruzar o Estreito da Flórida em seis dias”, diz Chapron. Isso pode explicar por que a Guarda Costeira dos EUA já descobriu cerca de 20 bolas de piche medindo de 7 a 20 centímetros de diâmetro perto de Key West, na Flórida. Não está claro se vieram do acidente com a Deepwater Horizon, mas análises químicas devem resolver esse mistério em breve. Mesmo sem a mancha de óleo, o Golfo do México tem um alto nível de poluição, e a Corrente de Loop tradicionalmente faz o papel de “serviço de coleta de lixo oceânico”. 

Agora, contudo, os moradores da Flórida e de Cuba talvez tenham que se habituar com uma sujeira ainda mais feia em suas praias. “É muito possível que eles encontrem óleo”, disse Laurent Bertino, cientista do centro Nansen de Meio-ambiente e Avaliação Remota, na cidade norueguesa de Bergen. 

Temporada de furacões impõe perigos 

A mancha de óleo pode causar devastação na região. Ambientalistas estão particularmente preocupados com as Keys na Flórida, com seus recifes de corais, campos de algas e mangues –assim como os potenciais efeitos da devastação em uma indústria de turismo que traz bilhões de dólares para a região por ano. A costa oeste da Flórida talvez seja poupada, porque a corrente passa a uma distância. 

O secretário do interior dos EUA, Ken Salazar, admitiu que o governo compartilha parte da culpa pela mancha de petróleo. Ele disse na terça-feira (18/5) que seu departamento não supervisionou adequadamente a perfuração de águas profundas, nem cobrou maior responsabilidade da indústria de petróleo. 

Até agora, ninguém sabe qual dano o petróleo sendo transportado pela Corrente de Loop pode causar; a corrente vai misturar o óleo e a água ferozmente. “Muito intensa, muito turbulenta”, diz Chapron. Essa turbulência pode proteger a costa, já que o óleo é levado pela corrente do Golfo em gotas. Teoricamente, poderá então cruzar o Atlântico para a Europa –apesar do perigo da substância tóxica de fato atingir as costas européias ainda ser apenas uma ameaça teórica.

O petróleo impõe um perigo mais imediato e real para os Estados do Golfo do México e da Flórida –e ainda assim, seus efeitos são difíceis de prever. As previsões são dificultadas pelo início da estação de furacões. O serviço de previsão de tempo privado AccuWeather previu um número de ciclones e furacões acima do normal para a região neste ano. A empresa adverte que isso pode prejudicar as tentativas de conter o vazamento. E as águas agitadas podem levar a poluição ainda mais longe, para áreas que não foram afetadas até agora. Além disso, tradicionalmente os furacões aumentam de força quando atravessam o Golfo do México –e essa energia vem das águas quentes da Corrente de Loop.

Tradutor: Deborah Weinberg

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